Com o mês da bíblia de 2016, começa o estudo da segunda pare do lema proposto pelo Documento de Aparecida aos batizados do continente latino-americano: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que n’Ele nossos povos tenham vida”.

Como veremos, o livro de Miqueias é muito indicado para tratar deste tema. A mensagem de Miqueias não tem uma alta teologia elaborada com imagens sofisticadas. Ao contrário, é uma profecia curta e direta. Miqueias é um bom poeta, mas as imagens são duras e fortes. Para ele, o que não traz vida ao povo não pode ser considerado vontade de Deus.

Igualmente adequado (e talvez providencial) é estudar o livro de Miqueias e refletir sobre ele no ano de 2016, porque em outubro deste ano, teremos eleições municipais em todo o Brasil, e o livro de Miqueias critica ferozmente os governantes que exercem seu poder em benefício próprio e ainda usam o nome do Senhor para tentar legitimar atitudes iníquas. A profecia de Miqueias nos ajuda a ter olhos para avaliar os candidatos e suas propostas.

O lema do mês da bíblia de 2016 é baseado em Mq 6,8, que literalmente diz: “Praticar o direito, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. É a chamada “Torah de Miqueias”. Observamos que, para a redação do lema do mês da Bíblia deste ano, o Grupo de Reflexão Biblico- Catequética (GREBICAT) fez pequenas alterações: “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”. Além da abreviação da última frase, em lugar de “praticar o direito” (em hebraico, mishpat), optou-se por “praticar a justiça” (em hebraico, tsedaqah).

O termo tsedaqah é mais ligado ao cotidiano: é aplicado ao comportamento reto e à conduta moral incorruptível, principalmente nas relações sociais. Por sua vez, o substantivo mishpat vem do verbo shapat, julgar, e, por isso, é um termo mais jurídico: supõe que determinado comportamento este de acordo com uma legislação (como o Código de Aliança entre o Senhor e Israel). No entanto, os dois termos muitas vezes são intercambiáveis, o que justifica plenamente a escolha de “justiça” para a primeira frase do lema.

A principal razão para esta preferência tem um cunho mais pastoral e catequético, no intuito de romper uma mentalidade legalista e moralista que muitas vezes deforma o real sentido da Torah. O termo “Torah” normalmente é traduzido por “Lei”, mas esta tradução não é bem adequada. “Torah”, na verdade, significa “instrução, orientação”. A pratica da retidão deve ser uma opção pessoal vivida com alegria e coerência, e não um comportamento assumido obrigatoriamente, “porque assim está determinado por Deus”.

Feitas estas observações, podemos passar ao estudo do livro do profeta Miquéias. Para saboreá-lo plenamente, será necessário situar Miquéias no movimento profético do Antigo Testamento.

Texto de Cassio Murilo Dias da Silva, no Texto-Base do Mês da Bíblia 2016, com adaptações.