Meditando o Evangelho

Eu venci o mundo! (Jo 16,29-33)

29/05/2017 – Eu venci o mundo! (Jo 16,29-33)

Por um lado, os discípulos manifestam arroubos de entusiasmo, ao afirmarem que “agora, sim” acreditam na divindade de Jesus. Por outro lado, o Mestre contrapõe que em breve tempo eles fugirão e o deixarão sozinho, acompanhado apenas pelo Pai. Mas Jesus sabe que é necessário animar seus frágeis seguidores. Daí, as palavras de estímulo: “Coragem! Eu venci o mundo!”

Não é preciso muita criatividade para imaginar a cara de decepção desses mesmos discípulos quando, logo a seguir, Jesus se deixa prender, torturar e crucificar. Afinal, onde estava a decantada vitória sobre o mundo? Se eles tinham esperado por um sucesso pronto, total, acabado, enganaram-se por completo. Ainda que o grão de trigo já traga em seu íntimo toda a colheita, era preciso morrer primeiro…

E este é o ensinamento do Concílio Vaticano II, no Decreto Presbyterorum Ordinis (sobre o ministério e a vida dos sacerdotes): “Aliás, o Senhor Jesus, que disse: Tende confiança, eu venci o mundo, não prometeu por essas palavras à sua Igreja uma vitória total no mundo. De fato o Sacrossanto Sínodo alegra-se de que a terra coberta com a semente do Evangelho agora frutifique em muitos lugares sob o sopro do Espírito do Senhor, que enche o orbe terrestre […]”. (PO, 22.)

Isto pode explicar que, ainda hoje, em muitos lugares, o príncipe deste mundo esteja recebendo honras indevidas: alguém esperou por milagres e economizou trabalho… O Espírito de Deus não encontrou pés para caminhar, vozes para falar, mãos para agir. O Evangelho encontrou as portas fechadas porque alguém não quis suar a camisa. E a vitória de Cristo sobre o mundo permanece incompleta!

Um dos riscos que sempre ameaçaram a Igreja é o perigo do triunfalismo. Comemorar vitórias e hastear bandeiras antes da hora. E ignorar que estaremos em combate até a Vinda do Senhor, quando afinal o último inimigo será vencido (1Cor 15,26) e Deus “enxugará toda lágrima” de nossos olhos. (Cf. Ap 21,4.)

Sou um guerreiro do Evangelho? Ou estou soltando foguetes antes da hora?
Orai sem cessar: “O Senhor é a força de seu povo!” (Sl 28,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Vós sabeis o Caminho! (Jo 14,1-6)

12/05/2017 – Vós sabeis o Caminho! (Jo 14,1-6) Hoje, temos mapas e roteiros turísticos. Antes de sair de casa, examinamos o caminho a seguir. E não adianta muita pressa – como na sociedade atual – se não sabemos para onde estamos indo… Do contrário, corremos o risco de sair para as Índias e descobrir o Brasil. Um português já cometeu este engano… Jesus Cristo afirma a seus discípulos: “Vós sabeis o caminho”. Tomé, porém, se fez de desentendido: “Senhor, nós não sabemos para onde vais…” Ora, o Mestre, já em clima de despedida, estava de viagem marcada para o Pai. E aproveita para recordar a lição mal aprendida pelos discípulos: “EU SOU o Caminho… Ninguém VEM (no latim, venit) ao Pai, a não ser por mim”. Muitas traduções dizem: “Ninguém vai ao Pai”, como se o Pai estivesse bem longe, lá no céu, e – o que é pior – afastado de Jesus. E Jesus acrescentaria a seguir: “Quem me vê, vê o Pai!” Encontrar-se com Jesus é encontrar-se com o Pai. Aliás, Jesus não é UM caminho entre outras estradas possíveis, à nossa escolha: Ele é O Caminho. Esta exclusividade cristã incomoda, eu sei, parece pretensiosa. Mas é a Verdade. E a frase completa de Jesus inclui também isto: “EU SOU o Caminho, a Verdade e a Vida”. Os especialistas nos textos joaninos já chamaram a atenção para o fato de que esta é uma das frases de Jesus nas quais surge o Nome de Deus: EU SOU. A mesma frase que, pronunciada diante dos esbirros do Templo que prendiam Jesus, no Monte das Oliveiras, lançou-os todos por... ler mais

Eu vos lavei os pés… (Jo 13,16-20)

11/05/2017 – Eu vos lavei os pés… (Jo 13,16-20) A história humana inclui um ato de rebeldia, um grito de autonomia, desde o início (cf. Gn 3). Não admira que sejamos mais dispostos a dar ordens que a obedecer, a mandar que servir. No centro, a questão do poder. Ao longo dos séculos, o “poder” se concentrou na posse da terra, na força das armas, no capital acumulado, no domínio da informação. Os reis davam ordens. Generais e exércitos dominavam. Banqueiros e capitalistas decidiam. Sábios e doutores manipulavam as mentes. Os outros… obedeciam e faziam o trabalho pesado. Jesus, Mestre e Senhor, veio implodir o sistema. Na Ceia Pascal, ele retira o manto (símbolo de poder), prende uma toalha na cintura (como um servo) e põe-se a lavar os pés de seus discípulos (como um escravo)… Imaginem o mal-estar de seus seguidores, os mesmos que, mais de uma vez, andaram discutindo qual deles seria o vice-rei e o primeiro ministro quando Jesus instaurasse o seu Reino em definitivo! É natural que os filhos queiram a glória de seu pai. Que os empregados se orgulhem do sucesso de seu patrão. Que o povo admire a grandeza de seus reis. E ali, bem diante de seus, olhos está um Guia, Senhor e Mestre que faz um “papelão”, humilhando-se de forma jamais vista. Pior: findo o exercício de “pobreza”, o Mestre põe-se a ensinar: “Assim como eu vos fiz, fazei também vós, uns aos outros!” É provável que eles se tenham entreolhado. Primeiro no rosto. Em seguida, nos pés… E lutaram contra os sentimentos que vinham à tona de seu coração rústico... ler mais

Eu vim como luz… (Jo 12,44-50)

10/05/2017 – Eu vim como luz… (Jo 12,44-50) O grande drama da humanidade transparece no Prólogo do Evangelho de S. João: “O Verbo era a luz verdadeira… Veio para o que era Seu, e os Seus não o acolheram”. Esta é a história de uma terrível recusa, o registro de uma fatal opção pelas trevas e pela morte definitiva. E seria muito cômodo para nós aplicar esta recusa exclusivamente ao povo do tempo de Jesus Cristo, como se nós não estivéssemos sujeitos ao mesmo risco. Pelo contrário, depois de vinte séculos de cristianismo, nós conhecemos bem melhor do que eles o Caminho a ser trilhado. Por isso mesmo, nossa eventual rejeição da luz que o Pai nos oferece em Jesus seria muito mais grave. Tendo sido muito mais privilegiados, nossa responsabilidade é muito mais séria. Um conhecido pregador lembrava que as casas noturnas usam “luz negra” em seus ambientes exatamente para que o mal ali praticado e o clima de licenciosidade não venham à luz. Nota-se claramente a opção pelas trevas. Pelo mesmo motivo, os malfeitores quebram as lâmpadas das ruas: eles querem liberdade para praticar o mal sem serem identificados e penalizados. Mas há formas mais “refinadas” de optar pelas trevas. Contestar o ensino do Magistério eclesial e deliciar-se com a leitura de livros que caluniam a Igreja de Jesus, aí está a recusa da luz. Assistir de bom grado a programas de TV que zombam dos bons costumes e fazem propaganda da libertinagem, dando audiência à catequese dos pagãos, eis a opção pelas trevas. Explorar a mão-de-obra dos empregados, desviar as verbas do Governo, corromper seus funcionários... ler mais

Minhas ovelhas me seguem… (Jo 10,22-30)

9/05/2017 – Minhas ovelhas me seguem… (Jo 10,22-30) Desde o início da Igreja, logo após a vinda do Espírito Santo, em Pentecostes, a religião dos cristãos foi um “seguimento” de Jesus. Ser cristão era estar “no Caminho”, “caminhar” com o Ressuscitado. Jesus manifesta neste Evangelho o divisor de águas entre seus discípulos e os adversários que o interpelam: “Vós não acreditais… Minhas ovelhas ouvem a minha voz…” Naturalmente, “ouvir” é bem mais que escutar: inclui “obedecer”. A sabedoria espiritual se resume em obedecer estritamente à vontade do Pai que o Filho nos revela. Ter um “coração ouvinte”, como o jovem Salomão pediu a Deus (cf. 1Rs 3,9), é a prova da fidelidade, a marca do fiel. Não é por acaso que São Paulo apóstolo se refere mais de uma vez à “obediência da fé” (Rm 1,5; 16,26): quem crê, obedece. Isto é, a fé em Jesus Cristo é exteriorizada concretamente em atos de fé. Uma espécie de fé algo abstrata, que se confunda com sentimentos e aéreas intenções jamais praticadas, seria uma fé ilusória. Fé e compromisso com Jesus são inseparáveis. Só para exemplificar: falando em nome de Cristo, o Magistério da Igreja repete o ensinamento do Mestre e não aceita que o matrimônio cristão possa ser dissolvido. Ao “ouvir” este ensinamento, o “fiel” se decide a agir, na prática, de acordo com a lição recebida. Assim, está provada praticamente a sua fé. Se, ao contrário, o (in)fiel argumenta, contradiz, busca justificativas e, afinal, age de maneira diferente, a desobediência manifesta claramente sua falta de fé. No final do 4º Evangelho, depois de ter sabatinado a Simão Pedro, perguntando-lhe... ler mais

Eu dou a vida… (Jo 10,11-18)

8/05/2017 – Eu dou a vida… (Jo 10,11-18) O Evangelho de hoje contrasta de forma muito expressiva o aspecto agônico (isto é, de combate) da salvação. Nossas almas são uma presa disputada. De um lado, o lobo rapace, voraz, destruidor, imagem do anjo de perdição; do outro lado, o Pastor que cuida de suas ovelhas e quer que elas vivam – e vivam em plenitude. Eis o contraste: o lobo arrebata e dispersa; o Pastor chama e reúne. O lobo rouba a vida; o Pastor dá a própria vida. O lobo não se importa com as ovelhas; o Pastor conhece cada uma pelo seu nome: trata-se de uma relação personalizada, e não a atitude de um líder que conduz uma anônima multidão. Todo pastor, missionário, evangelizador deve ter sempre em sua mente o modelo que Jesus nos dá para o trato de seu rebanho: uma permanente solicitude que põe em primeiro plano o “bem” de cada ovelha, a sua salvação. E só um profundo amor pode sustentar anos e anos de dedicação, esforço, abnegação, a ponto de deixar em segundo plano os próprios interesses e comodidades. É assim igualmente na vida de família, quando pai e mãe (e até, às vezes, um irmão mais velho!) também são estabelecidos por Deus como “pastores” de seus pequenos. Se o amor existe, todos os sacrifícios ligados ao trabalho e à educação serão superados e não servirão de motivos para conflitos e separações. Afinal, os filhos não existem para os pais; ao contrário, os pais é que existem para os filhos e deverão prestar contas a Deus da missão que lhes foi confiada.... ler mais

Eu sou a porta… (Jo 10,1-10)

7/05/2017 – Eu sou a porta… (Jo 10,1-10) No início do milênio, a humanidade parece perdida. Os rumos adotados pela economia, pelas finanças, pela organização do trabalho, pela globalização, parecem num beco sem saída. Cresce o fosso entre ricos e pobres, entre o norte e o sul, enquanto a sociedade urbana está imersa em um cenário de solidão, dependência de drogas, violência e falta de sentido. Para onde ir? Jesus Cristo se apresenta a nós como a resposta permanente: “Eu sou a porta”. É como se nos dissesse: “Por mim, poderão entrar e sair, e encontrarão passagem para a vida”. Ao fechar a porta, ao entardecer, o Pastor protege suas ovelhas dos perigos noturnos. Abrindo a porta, pela manhã, o Bom Pastor reconduz o rebanho às águas tranquilas e às campinas verdejantes (Cf. Sl 23). Uma das imagens de fundo bíblico que o Concílio Vaticano II utiliza para a definição da Igreja de Jesus, é a figura do “redil”: o lugar onde as ovelhas se reúnem em torno de seu Pastor. “A Igreja é um redil do qual Cristo é a única e necessária porta. É também a grei (= rebanho) da qual o próprio Deus prenunciou ser o pastor (cf. Is 40,11; Ez 34,11ss). Suas ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são contudo incessantemente conduzidas e nutridas pelo próprio Cristo, o bom Pastor e Príncipe dos pastores, que deu Sua vida pelas ovelhas”. (Lumen Gentium, 6.) Jesus chamou nossa atenção para um “critério de fidelidade”: as ovelhas identificam a VOZ de seu pastor. Não muito bem dotadas de visão – afirma-se das ovelhas -, ela apuram os ouvidos... ler mais

Nunca terá sede! (Jo 6,30-35)

6/05/2017 – Nunca terá sede! (Jo 6,30-35) Jesus começa por lembrar os hebreus do passado, que caminharam errantes pelo deserto por 40 anos. Quando tiveram fome, foram alimentados pelo maná que Deus mandava do céu. Mas comeram e morreram. A seguir, Jesus se dirige aos hebreus de seu tempo (e também a nós!), fazendo uma preciosa promessa: “Aquele que vem a mim… quem crê em mim… não terá fome… não terá sede…” Li um livro memorável: “Deus em Questão” (Ed. Ultimato, Viçosa, MG, 2005). O Autor confronta dois ateus – o escritor irlandês C. S. Lewis e Sigmund Freud, o psiquiatra austríaco. O primeiro ateu foi agraciado com uma experiência de Deus que o curou das marcas do passado e mergulhou sua vida em uma imprevista alegria. O segundo, apesar de graves interrogações sobre Deus e sobre seu próprio ateísmo, mostrou-se empedernido e acabaria sua vida sem fé, sem amigos, sem paz. Sua sede interior jamais foi aplacada. Vejo na vida de C. S. Lewis o cumprimento cabal da promessa de Jesus: a sede do coração humano só pode ser saciada por Cristo! Após sua descoberta de Deus, os ressentimentos de Lewis foram superados, a depressão foi curada, sua capacidade de trabalho aumentou e ele veio a escrever suas principais obras. Antes deprimido e pessimista, Lewis descobriu a alegria de viver entre amigos e partilhar a mesma fé. A experiência do amor de Deus o levaria a amar o próximo. Conforme ele escreveu, “Deus reserva para nós a felicidade definitiva e a segurança que todos nós desejamos”. Em nossa sociedade, não há muita gente feliz. A sede do coração... ler mais

Não tendes a vida em vós… (Jo 6,52-59)

5/05/2011 – Não tendes a vida em vós… (Jo 6,52-59) Estamos diante de um contraste inevitável: ou vida ou morte! Vida para quem se alimenta do Pão de Vida, morte para quem não o come. O antigo maná não vacinou o povo contra a morte, foi um alimento perecível. Só o corpo e sangue de Cristo dão a garantia da vida eterna. Jesus é realmente categórico: “Se não comeis a carne do Filho do homem e não bebeis o seu sangue, não tendes a Vida em vós mesmos!” (Jo 6,53) Daí o comentário de Louis Bouyer: “Nós não podemos mostrar toda a força do que se segue, pois o verbo grego “trôguein”, que traduzimos por “absorver”, é ainda mais claro; ele designa necessariamente uma “mastigação”, e seu emprego aqui certamente se destina a não deixar subsistir nenhuma dúvida quanto à materialidade do ato de que Jesus nos fala. Igualmente, é preciso juntar a isto a insistência sobre a carne e o sangue que comemos e bebemos, em evidente relação com a consagração do pão e do vinho enquanto corpo e sangue de Cristo, conforme a instituição da eucaristia nos evangelhos sinóticos e na 1ª Carta aos Coríntios.” Bouyer afirma que o ensino de Jesus mostra como indispensável uma assimilação de seu ser humano pelo nosso, assimilação misteriosa, mas tanto real quanto possível, e efetuando-se em uma ação física concreta. É exatamente esta a lição de São Cirilo de Alexandria ao falar de uma “união física”. E ainda as expressões fortes de São Cirilo de Jerusalém, ao afirmar que, pela comunhão eucarística, nós nos tornamos concorpóreos e consanguíneos de Jesus... ler mais

Serão todos instruídos por Deus… (Jo 6,44-51)

4/05/2017 – Serão todos instruídos por Deus… (Jo 6,44-51) Deus é a fonte de toda sabedoria (Eclo 1,1). É Deus quem derrama sobre nós a luz da ciência (Eclo 24,44). O Espírito de Deus é definido pela Escritura Sagrada como o “educador das almas” (Sb 1,5). Foi ele quem falou pelos profetas – como rezamos no Credo de Niceia e Constantinopla – revelando-nos os desígnios de Deus e seus planos de amor para a humanidade inteira. O próprio Jesus disse aos discípulos que o conhecimento deles ainda era incompleto, mas o Espírito Santo viria para recordar-lhes tudo o que lhes ensinara (cf. Jo 14,26). Esse Mestre interior é que deu à Igreja, desde o início, a condição de levar adiante sua missão evangelizadora (cf. At 6,10; 9,31…). E como é delicada sua ação educadora em nossos corações! Cioso de nossa liberdade – dom recebido quando criados à imagem e semelhança de um Deus absolutamente livre! -, o Espírito Santo se disfarça em nossa própria consciência. Os pensamentos mais íntimos, as sugestões mais profundas, certos movimentos de nossa memória, nossa sensibilidade, nossa vontade – tudo manifesta a ação do Espírito de Deus em nossas vidas. E nos momentos de decisão, nas crises e tentações, tendo diante de nós as escolhas e opções capazes de definir nosso futuro eterno, aí “sopra” em nós de modo palpável o Espírito Santo. Conhecendo nossas fraquezas e as sequelas do pecado original, o Paráclito – advogado de defesa! – vem em nosso socorro, sugerindo (nunca impondo!) caminhos ao nosso livre arbítrio. Quem procura ser dócil às moções do Espírito, vai sendo iluminado pela Sabedoria eterna,... ler mais