Meditando o Evangelho

Seja o último! (Mc 9,30-37)

26/02/2019 – Seja o último! (Mc 9,30-37)

Jesus acaba de anunciar – pela segunda vez! – a sua própria morte e, pelo caminho, os discípulos discutem entre si quem deles seria o maioral quando o Mestre instalasse o seu reino. Como é difícil acolher os valores do Evangelho quando estamos encharcados da mentalidade do mundo!

Hoje como naquele tempo, podemos gastar nossas energias para vencer, crescer, destacar-nos, arrancar aplausos e elogios, obter promoção e aumento de salário, acumular dinheiro e poder. Em suma, podemos viver como pagãos.

Ao contrário, quem perde é humilhado, alvo de zombaria e desprezo. Para os vencidos do sistema, sempre sobra mais rejeição do que misericórdia.

Pois a lição de Jesus aponta para o polo oposto: seja o último! E para não ficar apenas em palavras, como os mestres deste mundo, Jesus vive o que ensinou: é rejeitado, perseguido, difamado, preso, condenado à morte. Depois de toda essa experiência, Jesus deve preferir os humildes. É o que ensina Isaac, o Sírio, monge do século IV:

“Os olhos do Senhor contemplam os humildes para que eles se alegrem. Mas a face do Senhor se desvia dos orgulhosos para os humilhar. O humilde sempre recebe a compaixão de Deus. Mas a dureza de coração e a pouca fé surgem sempre antes de acontecimentos terríveis. Faz-te pequeno em tudo diante dos homens, e serás elevado mais alto que os príncipes deste século. Desce mais baixo do que tu mesmo, e verás a glória de Deus em ti; pois ali onde germina a humildade, ali se expande a glória de Deus. Se tens a humildade em teu coração, Deus te revelará a sua glória. Não procures ser honrado, pois estás cheio de chagas. Reprime a honra, e serás honrado. A honra foge daquele que corre atrás dela. Mas a honra persegue aquele que foge dela, e anuncia a todos os homens a sua humildade.”

Talvez seja este um dos pontos em que nossa vida mais se afaste do Evangelho de Jesus Cristo. Vivemos ocupados (e pré-ocupados) demais com nossa própria pessoa. O que pensam de nós. O que dizem de nós. Como ser aprovado por todos. Como melhorar nossa aparência. Como não ser deixado de lado. Como obter o primeiro lugar…

E como Jesus escolheu para ele o último lugar, vai ser difícil encontrá-lo enquanto nós formos os primeiros…

 

Orai sem cessar: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde…” (Mt 11,29)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Sequer tinham tempo para comer… (Mc 6,30-34)

9/02/2019 – Sequer tinham tempo para comer… (Mc 6,30-34) Foi assim com Jesus: a multidão sedenta de Deus o cercava e comprimia, buscando-o até mesmo no deserto, onde ele se refugiava com os discípulos. Foi assim com os servidores de Deus, como o Santo Cura D’Ars (que passava 14 horas diárias no confessionário, atendendo aos penitentes), como São Serafim de Sarov (escondido no interior da floresta para conseguir algum tempo de oração pessoal) ou como São Pio de Pietrelcina, que ainda recebe anualmente bem mais de um milhão de visitantes, mesmo depois de morto. Diante da fome espiritual que a turba manifesta, a fome material de Jesus e de seus discípulos acaba em segundo plano. Aliás, também Jesus tem insaciável sede de almas. Foi assim que S. Teresinha do Menino Jesus interpretou seu brado na cruz: “Tenho sede.” E Jesus acaba matando a sua própria fome quando atrai e seduz uma alma para o Pai, tal como no episódio da Samaritana: “Eu tenho um alimento que não conheceis… Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou.” (Cf. Jo 4,32.34) Na história da Igreja, é incontável a multidão de servos e servas que dedicaram com tal intensidade a sua vida ao rebanho de Jesus, que acabaram se consumindo e deteriorando a própria saúde física. Eles sabiam que o amor tem consequências… E jamais avaliaram que estivessem fazendo algo desproporcional ao amor que haviam experimentado em sua vida pessoal. Claro, tal comportamento suscita críticas generalizadas. Surgem rótulos de todo tipo: Exagerado! Fanático! Radical! No entanto, se a mesma dedicação ascética se manifesta em um atleta (à espera de uma... ler mais

Era um homem justo… (Mc 6,14-29)

8/02/2019 – Era um homem justo… (Mc 6,14-29) O profeta que apontou o Cordeiro de Deus também morreu como um cordeiro. Vítima inocente, seu martírio parece pouco valorizado entre nós. Talvez por não ser um “despachante” especializado, como aquele santo casamenteiro ou a santa das causas impossíveis. Ele apenas anunciou, denunciou e morreu. De fato, a justiça incomoda. Não a justiça distributiva propalada pelas democracias, mas aquela Justiça maiúscula que revela a santidade de Deus encarnada em uma pessoa humana. É o caso de João Batista. Sobre ele, reflete Beda, o Venerável [673-735 d.C]: “O santo precursor do nascimento, da pregação e da morte do Senhor demonstrou, no momento de sua morte, uma coragem digna de atrair os olhares de Deus. Como diz a Escritura, “se ele, aos olhos dos homens, sofreu um castigo, sua esperança era portadora da imortalidade”. (Sb 3,4) Nós temos razão de celebrar com alegria o nascimento para o céu daquele que fez deste dia um dia solene por sua própria paixão, ilustrando-o com a púrpura de seu sangue. E nós veneramos na alegria espiritual a memória desse homem que selou com o selo de seu martírio o testemunho que ele prestava ao Senhor. De fato, sem nenhuma dúvida, João Batista sofreu a prisão por nosso Redentor, a quem ele precedia por seu testemunho, e foi por ele que deu sua vida. Se seu perseguidor não lhe pediu para negar o Cristo, mas para calar a verdade, mesmo assim é pelo Cristo que ele morreu. O próprio Cristo disse: “Eu sou a Verdade”. (Jo 14,6) E como foi pela verdade que João derramou seu sangue,... ler mais

Poder sobre os espíritos imundos… (Mc 6,7-13)

7/02/2019 – Poder sobre os espíritos imundos… (Mc 6,7-13) O caráter agônico da missão de Jesus transparece em seus combates contra a doença (lepra, paralisia), contra males congênitos (surdez, cegueira), contra a própria morte (ver a reanimação de Lázaro), mas acima de tudo se manifesta na libertação das pessoas que estavam sob a opressão do Maligno. O próprio Jesus combateu diretamente os demônios que tentavam desviá-lo de sua missão, como na tentação no deserto e em sua agonia, no Getsêmani (cf. Lc 4,1-13; Mc 14,32-42). A esse respeito, a Bíblia de Navarra comenta: “A vitória sobre o espírito imundo, nome que se dava correntemente ao demônio, é um sinal claro de que chegou a salvação divina: Jesus, ao vencer o Maligno, revela-se como o Messias, o Salvador, com um poder superior ao dos demônios.” Inimigo de Deus, o demônio tenta atingi-lo indiretamente, afastando de sua amizade as suas criaturas humanas. Ao lado da sociedade ímpia e da natureza humana decaída, a ação demoníaca constitui-se em obstáculo à nossa salvação. O dom do discernimento dos espíritos permite reconhecer as moções e iniciativas do Maligno contra nossa santificação. A mentalidade racionalista pretende negar a existência do demônio, sob a alegação de superstição e empréstimo de antigas mitologias, ou reduz o Inimigo a uma simples “ausência do bem”, uma ineficiência. O magistério da Igreja, porém, com base na própria Escritura, reconhece sua existência. Paulo VI foi muito explícito neste ponto, falando do Maligno como uma “eficiência”, um “ser pessoal”. Há dois erros graves neste particular. E ambos facilitam a ação destrutiva do Maligno: 1) negar sua existência; 2) ver sua presença em... ler mais

Jesus se admirava de sua falta de fé… (Mc 6,1-6)

6/02/2019 – Jesus se admirava de sua falta de fé… (Mc 6,1-6) Há passagens nos evangelhos em que Jesus manifesta sua admiração diante da fé dos estrangeiros, como a mulher Cananeia (Mt 15,28), o centurião romano (Mt 8,10) e o samaritano curado da lepra (Lc 17,18-19). No Evangelho de hoje, ocorre o contrário: Jesus se espanta com a falta de fé de seus próprios conterrâneos. Claro, a fé não é uma conquista do intelecto humano. É puro dom. Mas esse dom de Deus precisa encontrar um coração aberto, disposto a acolhê-lo. Um coração fechado ao Espírito Santo jamais fará o ato de fé que abre a porta aos milagres do Senhor. Silvano do Monte Athos [1866-1938] comenta: “É o orgulho que impede a fé. O homem orgulhoso quer compreender tudo por sua inteligência e pela ciência. Mas não lhe é dado conhecer a Deus, porque o Senhor só se revela às almas humildes. Aos humildes o Senhor mostra suas obras, que são incompreensíveis para nosso entendimento, mas que são reveladas pelo Espírito Santo. Apenas pela inteligência, só podemos conhecer o que é terrestre – e, mesmo assim, parcialmente -, enquanto o conhecimento de Deus e do mundo celeste vem somente pelo Espírito Santo”. Nos tempos modernos, em especial após o racionalismo iluminista, difundiu-se a busca de conhecimentos e de técnicas a serem obtidos exclusivamente pelo esforço da mente, à qual foram atribuídas potencialidades e dinamismos que tornariam o ser humano autossuficiente. Quase três séculos depois, contemplamos o resultado dessa autoconfiança: uma sociedade amarga, insatisfeita, cujas conquistas desaguaram na catástrofe ambiental e no terror sem fronteiras. Silvano já avisava: “Privada... ler mais

Jesus foi com ele… (Mc 5,21-43)

5/02/2019 – Jesus foi com ele… (Mc 5,21-43) O episódio deste Evangelho apresenta uma constante na vida de Jesus: entre a multidão e uma pessoa, esta sempre acaba favorecida. Em outras palavras, Jesus de Nazaré não usa o compromisso com a multidão como desculpa para negar atenção a um indivíduo em particular. Jesus não é o pastor de um carneiral, mas de ovelhas singulares, uma a uma… Em nossos tempos, um penitente procura pelo pároco e pode ouvir como resposta: “agora não posso, tenho uma reunião”. Não quero afirmar que seja apenas um pretexto para não atender a pessoa, mas procuro mostrar que Jesus não faria assim. Por outro lado, historicamente a mesma negativa talvez não aconteça se o pedido vem de alguém “importante”, um grande benfeitor, uma pessoa “recomendada”… Já o simples fiel – conhecido como “zé-ninguém” – terá mais dificuldade em ser atendido. Nos Evangelhos, Jesus não vê cara, vê coração. Não importa se o “pedinte” é um centurião romano, invasor e dominador (cf. Lc 7,2), ou o chefe da sinagoga (Mc 5,22), se é um cego miserável (Mc 10,46ss) ou o paralítico na maca (Lc 5,18): em todos estes casos, a multidão é deixada de lado para que a pessoa individual seja atendida em sua necessidade. Neste Evangelho, a filha de Jairo está gravemente enferma. Procurado pelo pai, Jesus não lhe diz: “Leve a menina lá em casa…” Talvez para espanto do próprio pai, o Mestre se prontifica: “Vou com você…” Esta imagem é importante demais para ser deixada na sombra. O gesto de Jesus deve ser para nós a garantia de que jamais seremos ignorados... ler mais

Meu nome é legião… (Mc 5,1-20)

4/02/2019 – Meu nome é legião… (Mc 5,1-20) Estamos diante de um caso de despersonalização. Invadido por maus espíritos, o possesso já não responde por si. Chega ao ponto de perder sua identidade pessoal e confundir-se com a horda que nele se hospedou. Jesus o interroga: “Qual é o teu nome?” Ele responde: “Legião é meu nome”. O exército romano era formado por legiões, grupos militares com milhares de soldados de infantaria e centenas de cavaleiros. Assim, a imagem acumula conotações de multiplicidade, mas também de confusão e despersonalização. Nossa relação com Deus é pessoal – entre um “eu” e um Tu” – em diálogo permanente. No Evangelho de Marcos, alternam-se expressões no singular (“Não me atormentes”) e no plural (“Manda-nos entrar nos porcos”). Ao fim, já libertado, o homem ouve de Jesus uma frase dirigida a um “tu”: “Vai para casa, para junto dos teus e anuncia-lhes tudo o que o Senhor, em sua misericórdia, fez por ti”. Restabelecia-se a relação entre a pessoa divina e a pessoa humana. Em seu livro sobre os caminhos cristãos para reencontrar a harmonia pessoal, Pe. Serge Traore chama nossa atenção para a importância de descobrir nossa verdadeira identidade, tantas vezes mascaradas ou deformadas: “Quando descobrimos quem somos realmente, então podemos curar-nos de nossas feridas. Podemos sair de nossas profundezas quando aceitamos quem nós somos. Descobrir sua identidade pessoal, descobrir sua personalidade faz parte de todo processo de cura, mesmo puramente psicológico ou psicanalítico”. Nós não sabemos que descaminhos teriam levado aquele homem a se tornar hospedaria de demônios. O encontro com Jesus – um encontro pessoal – foi a oportunidade para... ler mais

Ao ouvir, encheram-se de furor… (Lc 4,21-30)

3/02/2019 – Ao ouvir, encheram-se de furor… (Lc 4,21-30) Jesus de Nazaré acaba de anunciar a seus compatriotas que chegou o “ano da graça do Senhor”, oferecido “de graça” aos pobres de Yahweh. Em lugar de júbilo e alegria, a reação de seus ouvintes é de ira e furor. Certamente, não se sentem pobres. Não era para eles a antiga profecia… As promessas falavam de um Messias que seria enviado aos pobres, acudindo aos órfãos, às viúvas e ao estrangeiro (cf. Is 1,17; 66,2; Os 14,3). No entanto, quando se anuncia a ternura de Deus pelos pobres, até a classe média (que não é rica, a rigor) se sente incomodada. Talvez não se sintam pobres… E por isso, sentem-se excluídos… Ora, somos todos pobres. O rico que não tem fé é pobre. O pobre que se revolta com sua pobreza, também é. O idoso que vai perdendo a força e a saúde, eis o pobre! O milionário que só conta consigo mesmo, como é pobre! Se o pobre que confia em Deus é rico, o homem rico que se tranca a sete chaves com medo do ladrão, pobrezinho!… Frei Raniero Cantalamessa fala de “ricos no tempo e pobres na eternidade”, quando nossos tesouros são apenas as riquezas que passam, e não os valores eternos. Dinheiro, terras e fama, tudo leva o tempo. Só o amor de Deus permanecerá conosco… Ouvir que Jesus veio para anunciar a Boa Nova aos pobres devia nos encher de alegria e de gratidão! Afinal, não podemos salvar a nós mesmos. Não há boa obra que possa comprar-nos o céu. A salvação será sempre um... ler mais

Será consagrado ao Senhor… (Lc 2,22-40)

2/02/2019 – Será consagrado ao Senhor… (Lc 2,22-40) O povo da Aliança sabia que era pertença de Deus. Aos seus ouvidos, ecoava permanentemente a voz do Senhor: “Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo.” (Ez 36, 28) Por isso, a idolatria era comparada à prostituição: a esposa quebrar a aliança com o esposo e entregar seu coração a outro homem. A noção de ser “consagrado” inclui a experiência de ser “separado para” Deus e de “exclusividade” a seu serviço, sem concessões a outro senhor. A Nova Aliança, claro, iria aprofundar e sublimar ainda mais essa relação com a experiência da “filiação”, quando o amor filial elevasse os fiéis a altitudes até então impensadas… No entanto, desde os tempos da Primeira Aliança, Deus se apresentava como o Esposo fiel que não desiste jamais do amor da esposa (cf. Is 62, 3-5; Os 2, 16ss), apesar de suas infidelidades. O povo de Israel sabia que era diferente das outras nações politeístas, pois tinha um único esposo, o Senhor Javé. Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus nasce de Mulher e, quarenta dias após o parto, é apresentado no Templo e consagrado a Deus. Fazia parte do ritual um “resgate” simbólico, quando um animal (novilho, cordeiro, para os ricos; um par de rolas ou dois pombinhos, para os pobres) era sacrificado em troca do primogênito. A liturgia de hoje nos recorda que Jesus Cristo foi o primeiro homem cuja vida significou uma “con-sagração” total a Deus, sem nada reservar para si mesmo. Veio para fazer a vontade do Pai (cf. Hb 10, 7-9) e apenas fazia aquilo... ler mais

Sem saber como… (Mc 4,26-34)

1º/02/2019 – Sem saber como… (Mc 4,26-34) Eis o homem diante de um mistério: lançou uma semente e foi dormir. E a semente brota e cresce, sem que o semeador possa explicar este milagre. Um dinamismo interior orienta e realiza o processo da germinação. Haverá alguém que não dorme – nem de noite, nem dia – por trás de tudo isso? O comentário é de Hans Urs Von Balthasar: “São duas as parábolas sobre o crescimento do Reino de Deus, narradas por Jesus no Evangelho. A intenção das duas parábolas é diferente. A primeira põe o acento sobre o próprio crescimento da semente. O cultivador não dá ao grão a força de crescer, nem pode influenciar o crescimento em suas sucessivas etapas: ‘por si mesma, a terra produz seu fruto’. Não que o homem nada tenha a fazer: ele deve preparar a terra e lançar a semente. Entretanto, não é ele quem executa o trabalho principal, mas Deus – e é isto que a parábola sublinha! – enquanto o homem ‘dorme ou se levanta’, um dia após o outro. O Reino de Deus tem suas leis próprias, que não lhe são impostas pelo homem; não é um produto da técnica. O germe, a erva, a espiga, o grão, o tempo de amadurecer – tudo isto se encontra do lado da estrutura própria do Reino, não do lado do desempenho humano. É o que mostra a segunda parábola: o fruto desenvolvido, que de início parecia ao homem ridiculamente pequeno, revela-se finalmente como muito maior que tudo o que o próprio homem teria produzido. E a seara? Será a messe de... ler mais