Meditando o Evangelho

Eles não o viram… (Lc 24,13-35)

Eles não o viram… (Lc 24,13-35)

Diante deste Evangelho que penetra no fundo da alma, abrimos espaço para a reflexão poética do monge André Louf sobre os dois discípulos de Emaús:

“Jesus Ressuscitado, sem o terem visto, eles creem nele. Eles o amam: ‘Sem te ver, nós te amamos’.

Eles são edificados por sua presença. Eles sentem seu olhar pousar sobre eles, e penetrar também o olhar deles.

Eles ouvem sua Palavra, e também lhe falam, por sua vez.

Ele está ali, neles, no mais profundo de seu coração, e o levam consigo por toda parte onde passam como um tesouro que ninguém lhes pode tomar.

Mergulham nele as suas raízes.

Para Ele sobe o seu amor.

Por causa dele explode sua alegria.

Ele é a saciedade de todos os seus desejos.

Estão com Ele para sempre, ali onde Ele já está.

E Ele faz sua morada neles, tal como eles permanecem nele, moram em sua Palavra, moram em seu Amor.

E tudo isso sem o terem visto, se ousamos dizê-lo, a não ser com os olhos da fé, com esse olhar interior, misterioso, mas bem mais lúcido que o olhar superficial de nossos olhos do corpo.

É um olhar cego que acaricia sua noite, mas uma noite incessante a ponto de ser abrasada por uma LUZ que vem do além, uma NOITE LUMINOSA como a Noite Pascal, ou como uma noite no coração do verão, quando o crepúsculo se estende e se prolonga até a aurora.

É a luz obscura do crente.

Ela é treva para os outros, e mesmo aos próprios olhos quando eles ainda são de carne.

Mas ela já é LUZ no mais profundo de seu coração.

Ali onde Jesus ressuscitado habita nele com seu Espírito.

Ali onde ele já traz gravado em seu próprio espírito e em seu coração os traços de luz de SEU ROSTO.

As portas de nosso coração preferem ser aferrolhadas.

Sua doçura as força e diante da Alegria e da Paz que transbordam em nós, reconhecemos seu Olhar e seu toque.

Jesus está verdadeiramente no meio de nós, ELE, nosso Senhor e nosso Deus.”

Orai sem cessar: “Levanta sobre nós, Senhor, a luz da tua face!” (Sl 4,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Sou eu. Não tenham medo! (Jo 6,16-21)

Sou eu. Não tenham medo! (Jo 6,16-21) O discípulo amado escreveu: “No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor”. (1Jo 4,18.) Tendo experimentado uma vez a presença amorosa de Jesus, o apóstolo João libertou-se do medo; agora, sim, ele pode dedicar-se ousadamente à sua missão, que envolverá o extremo martírio. O medo paralisa. Imobiliza nossos passos. Retém nossos braços. Cala nossa boca. É bem verdade que o cenário “ajudava”: noite fechada, a tempestade uivante, as águas revoltas do lago. Quando Jesus se aproxima, caminhando sobre as águas, os discípulos o confundem com um fantasma. São Mateus registra que eles soltavam gritos de terror. (Mt 14,26.) Bem, pode acontecer conosco. Podemos ter medo de Deus. Medo de sua presença, de sua “entrada” em nossa vida. Medo de sua Lei. Medo de suas propostas, seu chamados. Medo de ter prejuízos por causa dele. Medo de abrir mão do controle de nosso tempo. Medo de ter de abrir mão de nossas canoas furadas para subir em sua barca… Medos que só acabarão com a experiência de que somos amados… Para você, que sente medo, dedico este meu soneto “Na tenda”: Esconde-me do mal, Senhor, na palma Da tua mão direita sempre aberta A me acolher na hora mais incerta, Devolvendo o sossego a minha alma! Quando o teu braço poderoso espalma A destra paternal, tudo se acerta: Vai-se a angústia mortal que a mente aperta E a tempestade abrupta já se acalma… Se a dor me vem moer em sua moenda, Eu corro para... ler mais

O que é isso para tanta gente? (Jo 6,1-15)

O que é isso para tanta gente? (Jo 6,1-15) As multidões continuam seguindo a Jesus, sedentas de sua Palavra, famintas de sentido para viver. No cenário deserto, nasce também a fome material. Jesus faz a Filipe a pergunta provocativa: “Onde havemos de comprar pão para eles comerem?” Um rápido levantamento dos “recursos humanos” disponíveis registra a presença de um garoto que levara consigo a bagatela de cinco pães de cevada e dois peixinhos. É a vez de André perguntar: “Mas que é isso para tanta gente?” Como quem diz: “Não dá nem para tapar o buraco do dente!” Ora, caríssimo André, já era tempo de saber… Já acompanhas o Mestre há bom tempo. Não estavas em Caná de Galileia quando mais de 500 litros de água da fonte foram transformados em vinho de primeira? (Jo 2.) Não ouviste a notícia da cura do filho do funcionário real? (Jo 4,50-54.) Não estavas presente quando Jesus curou o paralítico na piscina de Betzatá? (Jo 5,8-9.) Tais manifestações de sobre-humano poder não chegam ainda a aquecer as tuas esperanças? Bem, acontece também conosco. Depois de tantas graças recebidas, após tantos “milagres” que o Senhor realizou entre nós, ainda insistimos em contar exclusivamente com nossas próprias forças, nossos próprios recursos, como se estivéssemos sozinhos e abandonados a nós mesmos… Caríssimo André, bem a teu lado está Jesus Cristo, o Senhor da matéria, inventor da primeira semente de trigo, aquele que se apresentará como “Pão de vida”. Obedece e faz o que Jesus manda: convidar o povo a sentar-se sobre a relva e, a seguir, distribuir os poucos pães e os dois raquíticos lambaris.... ler mais

O Pai ama o Filho… (Jo 3,31-36)

O Pai ama o Filho… (Jo 3,31-36) Deus é amor, define São João em uma de suas cartas. Este amor é um amor eterno, vivido em comunhão no seio da Trindade antes que nada existisse. No Deus uno e trino, realiza-se a comunhão amorosa de três Pessoas: o Pai amante, o Filho amado e o Espírito, que é amor partilhado e comunicado entre o Pai e o Filho. Em momentos especiais dos Evangelhos, como as teofanias do Batismo no Jordão e da Transfiguração no Tabor, a voz do Pai declara o seu amor: “Tu és o meu Filho muito amado; ponho em ti minha afeição”. (Lc 3,22.) Gerado eternamente pelo Pai (genitum, non factum, isto é, “gerado, mas não criado”, afirma o Credo de Niceia e Constantinopla), o Filho é o modelo de acolhida do divino Amor. Há mistérios tão profundos, que nossa frágil razão humana não consegue atingir: como é que um Pai amoroso permite – e chega mesmo a propor! – que seu Filho se encarne e dê a vida por nossa salvação? Em nossa mentalidade humana, amar alguém inclui a atitude de envolvê-lo em uma redoma de proteção que o impeça de sofrer. Nós mesmos, em nossa vida pessoal e familiar, muitas vezes falhamos em nossa missão pela recusa dos sofrimentos inerentes a ela. A resposta a esse mistério está no amor… O Pai tem outros filhos. Eles estão afastados, rompido que foi o canal da comunicação amorosa entre coração e coração. A Paixão e Morte do Verbo encarnado, isto é, do Filho, condição por ele assumida em plena liberdade, participando do mesmo amor do Pai,... ler mais

… deu o seu Filho único… (Jo 3,16-21)

… deu o seu Filho único… (Jo 3,16-21) Ainda há pessoas que contemplam a Cruz do Calvário e apenas veem nela um instrumento de tortura. Impactados pelo sangue e pelas chagas, chocados com os flagelos e a coroa de espinhos, seu olhar se detém no sofrimento. E assim perdem a oportunidade de contemplar o Amor. Um amor sem medidas nem barreiras, amor que abraça a morte para nos salvar. Em outra passagem do Evangelho, Jesus havia ensinado: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. (Jo 15,13.) Como sempre, Jesus pratica o que ensina. Por isso subirá o Calvário e morrerá na Cruz. Muita gente ainda se pergunta: Deus não poderia ter encontrado algum outro meio de salvar a humanidade? Precisava ser logo a Cruz, um “método” tão doloroso? E tendo como vítima propiciatória exatamente o seu próprio Filho? A resposta a esta pergunta pode ser mais simples do que se imagina: Deus queria mostrar a que extremos o seu Amor por nós pode chegar… E mais: essa extremada “entrega” do Filho único à morte tem um objetivo: “para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”… Assim, nós devemos pensar como o apóstolo Paulo: Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20b). E quem ama está disposto a tudo. Claro que um amor assim pede resposta, quer correspondência. A recusa de um amor assim não pode ficar sem um preço. Se a Luz vem aos homens e eles a rejeitam, recusam a sua própria salvação. A ação do Espírito Santo em cada um de nós visa... ler mais

Pelo mundo inteiro… (Mc 16,15-20)

Pelo mundo inteiro… (Mc 16,15-20) No dia em que a Igreja celebra a festa do evangelista São Marcos, a tonalidade dominante é o alcance universal da Boa Nova a ser anunciada sem barreiras e sem fronteiras. E não se trata de mero conselho ou exortação, mas parte de um imperativo irrenunciável: “Ide! Anunciai!” Diante deste imperativo, ficam em segundo plano as “obras sociais”, a ação cultural, a presença nos areópagos do mundo – toda a rica contribuição da Igreja para a sociedade dos homens. Rica, sim, mas secundária. O foco da vida eclesial, aqui e ali esmaecido em troca de outros objetivos, não pode ser outro senão o Querigma, a destemida proclamação da Boa Nova de Jesus Cristo. E esta proclamação é, por natureza, um anúncio sem distinção, pois se dirige “ao mundo inteiro”, sem excluir qualquer raça ou povo, cultura ou nação, classe ou profissão. Em seu sacrifício salvador, Jesus pensava em TODOS: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim!” (Jo 12,32) Ao anunciar o Evangelho, a Igreja dá continuidade, como humanidade de acréscimo, à missão do próprio Jesus Cristo. “Esta missão – ensinava o Papa João Paulo II – é um envio no Espírito, como se vê claramente no texto de São João (cf. Jo 20,21-23): Cristo envia os seis ao mundo, como o Pai O enviou a Ele; e, para isso, concede-lhes o Espírito. Lucas (24,46-49) põe em estreita relação o testemunho que os Apóstolos deverão prestar de Cristo com a ação do Espírito, que os capacitará para cumprir o mandato recebido.” (Redemptoris Missio, 22) O resultado que se espera deste anúncio é... ler mais

Ele veio de noite… (Jo 3,1-8)

Ele veio de noite… (Jo 3,1-8) A noite é um tempo especial. Posto o sol, as sombras velam os espaços, diluem as formas, disfarçam os rostos. Sem imagens para os olhos, os ouvidos se aguçam à procura de sinais: passos nas pedras, folhas secas pisadas, o vento na ramagem. Foi na sombra da noite que aconteceram notáveis experiências de Deus… Não havia sol quando Jacó lutou com o Anjo no vau do Jaboc (Gn 32,23ss). A noite era fechada quando Moisés conduziu o povo para fora do Egito (Ex 12,42). No veludo noturno, a amada saiu em busca do Amado (Ct 3,1-2). Foi no meio da noite que o galo cantou e despertou as lágrimas de Pedro (Mt 26,74-75). Era na solitude da noite que Jesus vigiava, atento à voz do Pai (Lc 6,12)… Nicodemos, fariseu e membro do Sinédrio judaico – o supremo tribunal religioso de Israel -, um intelectual sincero em busca da verdade, visita Jesus nas trevas da noite. Nada mais apropriado. Afinal, Jesus – a Luz do mundo – viera do Pai exatamente com a missão de iluminar as trevas. Tenho ouvido com frequência uma acusação contra Nicodemos: teria vindo à noite porque sentia medo dos poderosos grupos dirigentes que viam a Jesus como um incômodo adversário. Não queria arriscar-se. A noite seria a proteção dos covardes. Peço licença para discordar. Aposto que Nicodemos veio à noite porque não desejava interrupções naquele encontro. Ao contrário, ele buscava por um momento de especial intimidade com Jesus, quando a Verdade – ah! A Verdade tão suspirada! – invadiria seu coração sedento… De fato, muitas vezes Jesus aproveitou... ler mais

Vimos o Senhor! (Jo 20,19-31)

Vimos o Senhor! (Jo 20,19-31) Muitas vezes, temos sido um tanto ásperos em nossas críticas ao apóstolo Tomé, que condicionou seu ato de fé a uma experiência sensorial do Ressuscitado: ver as marcas dos cravos em suas mãos, tocá-las com os próprios dedos, levar a mão à chaga do Lado. “Se não vir… não acreditarei!” E nos esquecemos de que os outros dez levavam vantagem sobre ele: eles tinham visto! De fato, não temos como imaginar o impacto emocional sofrido pelos apóstolos quando Jesus, sabidamente morto, se apresenta vivo, visível, palpável, assentando-se à mesa com seus discípulos. Por isso mesmo, nós deveríamos ser mais compreensíveis com o pobre Tomé que, ausente na primeira “visita” do Mestre, não o pudera ver. Podemos também avaliar a perplexidade de Tomé ao rever os apóstolos e ouvir deles o testemunho emocionado: “Vimos o Senhor!” É o testemunho fundamental da Igreja: a experiência pascal do Cristo que venceu a morte. Sem esse testemunho, nossa fé e nossa pregação seriam vãs (cf. 1Cor 15,14). Exatamente por avaliar o potencial explosivo de um testemunho assim, os homens do Templo espalhariam o boato do roubo do corpo de Jesus (cf. Mt 28,13). Os séculos passam, sucedem-se as gerações e nossa fé cristã continua a se apoiar nesse testemunho do começo: a experiência vital daqueles que “viram” a Jesus Cristo ressuscitado. De tudo o que nos foi passado pelos Evangelhos e pela Tradição apostólica, o ponto central está aí ancorado: Jesus ressuscitou! Levados aos tribunais e arenas, diante de juízes e carrascos, as testemunhas permanecerão firmes em declarar com audácia o conteúdo de sua experiência. Um ato de... ler mais

Não acreditaram nela… (Mc 16,9-15)

Não acreditaram nela… (Mc 16,9-15) Mais uma vez, em uma sociedade que deixava a mulher em segundo plano, o Evangelho nos mostra Maria Madalena como precursora no anúncio da Ressurreição de Jesus, tal como outra mulher – a Samaritana – fora também pioneira em anunciar o Messias a seus conterrâneos (cf. Jo 4). Os discípulos choravam, guardando luto. Ela, ao contrário, traz uma notícia de vida e eles se recusam a crer. De passagem, vale lembrar que não poucos “teólogos” racionalistas têm atribuído os evangelhos da ressurreição à piedosa imaginação das comunidades cristãs, negando-lhes o caráter de testemunhas oculares. Teriam sido criações posteriores, sem valor histórico. Ora, basta olhar de perto a dificuldades dos próprios apóstolos e discípulos em crer que, de fato, Jesus vencera as barreiras da morte e se manifestava vivo, para verificar de modo cabal como eles haviam sido atropelados pelos acontecimentos, os quais superavam de longe a mais “piedosa” de suas expectativas… Até mesmo para eles, os seguidores mais íntimos, aquilo era demais! Segundo o evangelista São Marcos (cf. Mc 16,12-13), a mesma incredulidade se manifesta diante do relato dos dois caminheiros de Emaús. Por isso mesmo, Jesus vem agora censurar-lhes a incredulidade e a “dureza de coração”. Aqui, um alerta: a atitude de não crer nas testemunhas de Cristo denuncia o “coração duro”. Tomé mereceria repreensão semelhante ao limitar sua fé aos fatos sensíveis. (Cf. Jo 20,27.) Pois é a esse mesmo grupo de incrédulos que Jesus vai encarregar do anúncio do Evangelho, ponto de partida para o despertar da fé (cf. Rm 10,14.) Quando, no futuro, seus ouvintes demonstrarem dificuldades em crer, os... ler mais

Nós vamos contigo… (Jo 21,1-14)

Nós vamos contigo… (Jo 21,1-14) Sim, Jesus ressuscitou. Os discípulos, porém, habituados à presença física e palpável de Jesus, ainda não se acostumaram ao novo estilo de discipulado, quando devem apoiar-se exclusivamente na fé. Natural que sintam uma espécie de vazio com a ausência material do Mestre… É quando Simão Pedro se ergue e diz: “Eu vou pescar”. Afinal, Pedro é pescador. Quando as coisas não vão muito bem, um recurso ao nosso alcance consiste em nos prendermos às tarefas do cotidiano, que podem evitar divagações inúteis e até nos imunizam contra as depressões. O restante do grupo – eram sete ao todo (cf. v. 2) – assente prontamente: “Nós vamos contigo”. Na lista dos Doze, havia pelo menos outros três pescadores além de Pedro (cf. Mt 4,18-21). Eles não deixariam de se solidarizar com o companheiro de trabalho, do mesmo modo que o fariam nas tarefas da evangelização. Aqui, estamos diante de um aspecto essencial da vida cristã: a dimensão comunitária! Quem comenta é o missionário Claude Rault, Bispo do Saara argelino: “Desde o início desta passagem, não estamos em presença de um clube dos amigos da pesca, mas de uma pequena comunidade de “sete”. É a cifra escolhida por João para designar uma totalidade. Tal como em Caná. A Igreja não é a associação dos antigos amigos de Jesus. Ela é o lugar onde se continua sua obra. “Eu vos constituí e vos designei para que deis fruto, e vosso fruto permaneça.” (Jo 15,16) É inimaginável que o apostolado possa ser exercido de outra forma que não seja como Igreja, em comunidade. Mesmo que eu me encontre... ler mais