Meditando o Evangelho

Semelhante a crianças… (Mt 11,16-19)

15/12/2017 – Semelhante a crianças… (Mt 11,16-19)

Na Bíblia, a mesma imagem pode ter valor positivo ou negativo. É o caso do “fermento” – em geral, com valor negativo (Ex 12,15; Mt 16,6), conotando corrupção e pecado, mas também usado por Jesus como imagem do Reino de Deus que cresce em silêncio, sem sinais exteriores (cf. Mt 13,33).

No Evangelho de hoje, são as crianças – que Jesus apontara como ideal a ser imitado (cf. Mc 10,15; Lc 10,21) – a imagem dos discípulos imaturos que vivem entre queixas e reclamações, tal como os judeus do tempo de Jesus, que recusavam ao mesmo tempo o Batista, por sua vida sóbria e ascética, e a Jesus de Nazaré, por gostar de uma boa mesa e de um bom vinho.

Ainda hoje, nas paróquias e comunidades, há muitas “crianças” eternamente insatisfeitas. Criticam o padre que celebra a missa muito depressa, mas reclamam do outro que faz a missa comprida. Fazem críticas se o padre não prega, manifestam seu desagrado se a homilia se estende. Se o coordenador é exigente, brotam queixas; se ele é democrático, cobram mais rigidez. Crianças insatisfeitas…

Os santos não são assim. Os santos são muito realistas. Partem da realidade que lhes é dada e se dedicam de alma e coração a cumprir a missão inadiável. Eles não pensam na Igreja ou em sua comunidade como um lugar onde se recebem favores e regalias. Sabem que sua tarefa consiste em imitar a Jesus, que lavou os pés de seus apóstolos. Mesmo que sejam elevados a posições de mando, eles entendem sua autoridade como um serviço aos irmãos.

As crianças querem afagos, elogios, atenções especiais. Se isso falta, emburram, amarram a tromba e iniciam sua ação deletéria, feita de críticas, acusações, formação de partidos. Se um desses imaturos acaba em posição de governança, será a vez de reclamar da má qualidade de seus governados, além de abusar do poder e da autoridade.

Os imaturos são eternos insatisfeitos. Jamais serão felizes. E semearão à sua volta uma enxurrada de amargura. Pior ainda: verão passar em vão a graça de Deus e acabarão perdendo o bonde da história. Foi assim no tempo de Jesus. Continua assim em nossos tempos.

Quando atingiremos a estatura do homem perfeito? (Cf. Ef 4,13.) Quando deixaremos de lado nossas mamadeiras? (Cf. Hb 5,12.) Quando assumiremos a missão que Deus colocou em nossas mãos?

Orai sem cessar: “Eis que vim para fazer a tua vontade!” (Hb 10,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Não surgiu quem fosse maior… (Mt 11,11-15)

Não surgiu quem fosse maior… (Mt 11,11-15) Estamos falando de João Batista, o precursor [em grego, pródromos, isto é, “o que corre na frente”]. E esta avaliação que ele mereceu de Jesus de Nazaré é um elogio notável, pois o coloca acima de todos os patriarcas e profetas da Primeira Aliança. E qual será a razão deste elogio excepcional? Até onde posso ver, trata-se de sua escolha para ser a “voz imediata” no anúncio do Reino que se avizinhava na pessoa do Messias, Jesus Cristo. Cheio do Espírito Santo desde o ventre materno (Lc 1,44), cumpriria sua missão ao preço da própria vida. E isto me faz pensar que não temos dada a devida consideração nem o devido valor às pessoas que também assumem a mesma missão: ser uma voz que anuncia o Senhor. Ao mesmo tempo, ajuda a compreender por que os tiranos de todos os quadrantes, de todas as épocas, se apressam a calar as vozes que repetem o Evangelho… Hoje, no deserto das grandes cidades, somos chamados a assumir missão semelhante à do Batizador. Quem nos fala sobre isso é o Bispo do Saara argelino, Claude Rault: “Nossa vocação é a de ser como João Batista: traçadores de estradas, humildes caminheiros do Bom Deus! O Batista tem consciência disso: ele abre a estrada para aquele que vem depois dele, ele caminha por um Outro. Isto exige fidelidade, confiança e gratuidade nas relações. Assim se traça um caminho, e outros continuarão a assumi-lo. Invisível, Jesus pisa sobre nossos passos. João Batista traça um caminho, ele é um caminheiro cujas passadas acabam por nos deixar uma trilha. É... ler mais

Encontrareis descanso… (Mt 11, 28-30)

Encontrareis descanso… (Mt 11, 28-30) O pecado cansa. Esgota o coração. Corrói a alma. Assim, é em primeiro lugar ao pecador que se dirige o convite de Jesus, ao qual está anexa esta promessa: “Vinde a mim! Eu vos aliviarei… Encontrareis descanso…” Pense no filho pródigo: deixou a casa paterna e partiu para uma região distante. Lá, “curtiu” a vida, perdeu tudo, até os amigos dos tempos de fartura, e sonha agora com a lavagem dos porcos. Isto cansa. Não admira que comece a avaliar a conveniência de voltar para casa, ainda que seja como reles empregado. Claro que a vergonha o respeito humano hão de retardar o seu regresso, mas acabará voltando. Ele precisa descansar… A missão também cansa. Até Jesus aparece cansado de suas andanças, quando o Evangelho de João o surpreende sentado junto ao poço de Jacó (cf. Jo 4, 6.) Como podemos ler nas cartas do apóstolo Paulo, a vida missionária inclui viagens estafantes, oposições surdas, indiferenças, contestações ásperas, colheitas ralas. Isto cansa. Não admira que muitos missionários tenham desistido de seu ministério, enquanto outros precisaram refugiar-se no silêncio para recuperar o dinamismo perdido. E depois de mergulhar no coração de Cristo, retomaram a missão, muitas vezes chegando à palma do martírio. Muita gente anda cansada de fazer força e obter resultados pouco animadores. Acontece com os pais que educam filhos rebeldes, imaturos, preguiçosos. Acontece com os educadores que sofrem as consequências de políticas educacionais desastrosas. Acontece com os profissionais da saúde que labutam em hospitais onde falta até o esparadrapo. Isto cansa. Não admira que haja médicos fabricando pão e psicólogos vendendo pipocas. Não... ler mais

Ela entrou na casa… (Lc 1,39-47)

Ela entrou na casa… (Lc 1,39-47) O Evangelho de hoje nos fala de um “encontro”. Isabel – imagem da Antiga Aliança – recebe a visita de Maria – a “arca” da Nova Aliança. É o encontro do passado com o presente. Encontro das promessas com o seu cumprimento. Do provisório com o eterno. Tão logo recebe o anúncio de Gabriel, que lhe revela a sublime missão de ser o canal escolhido para a Encarnação do Filho de Deus, Maria de Nazaré sai às pressas, pelas montanhas de Judá, subindo até Ain Karim, onde morava Isabel de Zacarias, sua parenta idosa, já no sexto mês de gravidez. Ao entrar em casa, Maria saúda Isabel e esta, prontamente, fica cheia do Espírito de Deus. Estamos diante de uma evidência: a graça de Deus se comunica. A Toda-Santa – a Mãe de Deus – irradia à sua volta o dinamismo espiritual que a inunda. Um abraço apenas, uma palavra – Shalom! – bastam para que o Espírito Santo se derrame do coração de Maria ao coração de Isabel. E esta se espanta diante da honra desmedida de ser visitada pela Mãe de seu Adonai, o Senhor Deus… Estamos diante de uma situação mais ou menos comum: quem recebeu a visita de uma pessoa santa, experimentou nela uma “presença” que não se explica apenas por fatores humanos. Não é sem motivo que as multidões procuravam pelo Pe. Pio de Pietrelcina, ou fazem romarias ao túmulo do Pe. Eustáquio, e preferem a missa de certos sacerdotes. Sim. É muito fácil acusar as multidões de simples ignorância ou grosseira superstição. Mas o povo possui uma... ler mais

Quem pode perdoar pecados… (Lc 5,17-26)

Quem pode perdoar pecados… (Lc 5,17-26) Nós corremos sempre o risco de valorizar as coisas visíveis e nem mesmo perceber a ação misteriosa de Deus em nossas vidas. Assim, neste Evangelho, temos os dois planos da ação divina: o exterior (devolver os movimentos a um paralítico) e o interior (perdoar os seus pecados). Em um primeiro momento, comovido pela fé dos quatro amigos que, diligentemente, trouxeram o enfermo à sua presença, Jesus lhe confere o perdão dos pecados. Claro que isto não se nota “do lado de fora”, é um milagre íntimo da onipotente misericórdia de Deus. Os escribas e fariseus ali presentes entendem as palavras de Jesus como autêntica blasfêmia, pois “só Deus pode perdoar pecados”. Não podem crer na transformação ocorrida naquele doente. Logo, em tom de desafio, Jesus ordena ao paralítico que se erga do catre e volte para casa, carregando a enxerga. Isto, sim, podia ser visto e comprovado. E Jesus o fez como sinal de que seu primeiro gesto também fora verdadeiro. Deixando de lado a evidência de que muitos males físicos têm como raiz algum tipo de pecado crônico, fixemos nosso pensamento em um ponto de máxima atualidade. Nossa sociedade está paralisada diante das crises e desafios do novo milênio. Violência e insegurança, corrupção e depravação dos costumes, rebeldia e choque de gerações – de todos esses males, brota na humanidade uma terrível sede de reconciliação. Vale a pena recordar as palavras do saudoso Papa João Paulo II: “O mesmo olhar indagador, se é suficientemente perspicaz, captará no seio da divisão um desejo inconfundível, da parte dos homens de boa vontade e dos... ler mais

Ele vos batizará no Espírito Santo… (Mc 1,1-8)

Ele vos batizará no Espírito Santo… (Mc 1,1-8) Este Evangelho contrapõe dois personagens: João Batista e Jesus Cristo. Contrasta, igualmente, dois batismos, dois “mergulhos”. De um lado, o batismo “de João”, nas águas puras do Jordão, como um rito penitencial ao qual o povo se submetia enquanto sinal de contrição e arrependimento de seus pecados, diante da iminência do Reino de Deus que se avizinhava. De outro, o batismo “no Espírito”, que Jesus iria realizar. As diferenças são evidentes: a água lava por fora. O fogo cauteriza por dentro. O primeiro batismo significava a graça, o segundo vem conferi-la. No primeiro, o pecador se reconhecia como tal; no segundo, o pecador era santificado. O primeiro é preparação para a vida, o segundo é plenitude de vida. Só depois de Pentecostes os discípulos perceberiam o alcance dessa promessa e o dinamismo infundido em seus corações. Hoje, mais do que nunca, a missão da Igreja e de cada fiel depende radicalmente de um “mergulho” no Espírito de Deus. Sem ele, não temos luz nem força para caminhar. Hoje, convido você a se abrir à visita do Espírito de Deus e pedir um novo Pentecostes em sua vida pessoal, fazendo de meu soneto “Invocação” a sua ardente prece: Pomba de fogo, desce sobre mim! Vem dissolver os blocos de meu gelo: Abrasa o coração… Vem derretê-lo Com o gládio abrasador de um querubim! Quero sentir a tua chama, assim, Gravando no meu íntimo o teu selo: Inflamado serei pelo teu zelo E poderei amar até o fim… Arromba minhas portas, Santo Vento! Abre as janelas do meu aposento! Fende a muralha, abate... ler mais

Ide às ovelhas desgarradas! (Mt 9,35-10,1.6-8)

Ide às ovelhas desgarradas! (Mt 9,35-10,1.6-8) Todo pastor sabe disso: as ovelhas costumam tresmalhar. Todo boiadeiro já passou por isso: um novilho desgarrar e se embrenhar no matagal, ou atolar-se no brejo. Mas nenhum pastor que se preze fica indiferente ao desastre. Como aquele do Evangelho – o que tinha cem ovelhas – e preferiu deixar as noventa e nove no ermo para sair em busca da que se perdeu. Vivemos um tempo de ovelhas desgarradas. Sim, eu sei que o ser humano é errático: seu trilho neste mundo lembra de perto a rota das formigas, que parecem desconhecer a linha reta entre dois pontos. Homo viator, perpétuo peregrino, vagamos de lá para cá, em sufocantes engarrafamentos a cada feriado “enforcado”, sempre em busca de uma felicidade “que está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos” (Vicente de Carvalho). Mas isto não justifica nossa indiferença diante daqueles que saíram da estrada real e se perderam nas trilhas do erro e do mal. De algum modo, somos todos responsáveis uns pelos outros. Os pais pelos filhos. Os mestres pelos alunos. Os médicos pelos pacientes. Os governantes pelo povo. Os pastores por suas ovelhas espirituais. Quando Jesus andou pela Palestina, também ele pôde contemplar o povo faminto de Deus, uma multidão de párias pelas encruzilhadas, mendigos e leprosos, refugiados e sem-terra. E Jesus chorou sobre eles. Mas não se limitou a chorar: enviou ao povo os seus discípulos com um mandato bem específico: “Ide às ovelhas desgarradas!” Esta missão inclui cuidados espirituais (anunciar o Reino que se fez próximo, expulsar demônios), mas também cuidados materiais (curar... ler mais

Faça-se em mim… (Lc 1,26-38)

Faça-se em mim… (Lc 1,26-38) A cena deste Evangelho é o momento da Encarnação do Verbo. O mensageiro divino vai à jovem Maria de Nazaré. Qual seria o objetivo de sua missão? Por que Deus terá enviado Gabriel até uma pobre aldeia dos galileus? Acompanhemos a meditação de François Trévedy: “Tendo batido a tantas portas sucessivas, Deus acaba por bater a esta porta: a mais baixa, a mais estreita, a mais obscura; a esta “porta do céu” – Felix coeli porta – que é de início, simplesmente, a porta da terra. Ele bate à parede da carne mais escondida para escutar o som que esta lhe dará: Ecce ancilla Domini [eis a escrava do Senhor]. É ali, bem baixo, que se passará o mínimo anel, a menor das alianças; é ali, no mais ínfimo da condição humana, que se vai escrever e fazer a conjunção de coordenação do Verbo e do homem, do Nome e de nós: Emmanuel. Esta página não é uma mitologia, mas, sob o signo da Mulher – Signum magnum (Ap 12,1) – é a história da Aliança em sua extrema consequência carnal, pois, afinal, em seu desejo apaixonado pela carne, Deus é perfeitamente lógico consigo mesmo: ele vem, ele quer fazer seu noviciado de extrema pequenez, para virar de cabeça para baixo os tronos das ideias imperiais que nós fazemos dele e que, na realidade, só escondem nossas próprias pretensões. Ingreditur haec ínfima Iesus Christus [Jesus Cristo penetra nos subterrâneos deste mundo – S. Leão Magno]. Em outras palavras, o Infinito faz conhecimento carnal com o ínfimo.” Fracassaram todas as alianças anteriores. Desde Noé, passando... ler mais

Mas ela não desabou… (Mt 7,21.24-27)

Mas ela não desabou… (Mt 7,21.24-27) Parábola pequena, mas muito clara e expressiva. Em forma de antítese, o Mestre nos fala de dois tipos de construção expostos às mesmas intempéries da existência humana. De certo modo, faz eco ao Salmo 1, que serve de pórtico para o Saltério, e resume o caminho do homem a uma encruzilhada entre dois caminhos: a via do bem, com a vida, e a senda do mal, com a morte. Nesta parábola, um homem constrói sobre a areia, outro edifica sobre a rocha. Areia e rocha são imagens claras. A areia é lábil, fugidia, sem coesão. Suas partículas deslizam, não oferecem resistência à pressão. Já a rocha tem seus componentes bem sólidos, porque foram vitrificados por altas temperaturas e poderosas pressões. Diante da força dos elementos – como o vento e a chuva -, a areia movediça cede e se desfaz. Mas os vendavais e as enxurradas nada podem contra o sólido rochedo. Passado o ataque, ele permanece estável, decididamente firme. Quem é o construtor sobre a areia? O Mestre responde: É o homem que empilhou os tijolos sobre o areal, isto é, aquele que ouviu a Palavra de Deus mas não se dispôs a vivê-la. Ao contrário, apostou a vida em outras “palavras”: o discurso da riqueza, a propaganda do sucesso, o elogio da glória e do prazer. Quando veio a provação dos tempos difíceis, dos planos econômicos, do desemprego e da enfermidade, desabou de uma vez, entregue à ruína… Quem é o construtor sobre a rocha? Jesus de Nazaré deixa claro: É o homem que ergueu sua casa sobre o Rochedo, ou... ler mais

Escondeste aos sábios… (Lc 10,21-24)

Escondeste aos sábios… (Lc 10,21-24) Pode ser que alguém estranhe esta oração que Jesus faz ao Pai, dando-lhe graças porque os mistérios divinos foram ocultados aos sábios, enquanto aos humildes tudo foi revelado. Será que Deus, a Fonte de todo conhecimento, pretende manter alguém na ignorância? Ora, todos sabem que há várias modalidades de orgulho. O fazendeiro se orgulha de possuir a melhor vaca leiteira da região. O subsecretário se orgulha do carro importado recém-adquirido. A esposa se orgulha pelo marido promovido na carreira. Mas existe um orgulho de natureza intelectual, que se rejubila intimamente por saber (ou pensar que sabe…) mais do que os outros, essa “gentinha ignorante” (cf. Jo 7,49). Este último tipo de orgulho deu origem a várias heresias, como algumas “gnoses” que atribuíam nossa salvação a conhecimentos esotéricos reservados a poucos. Se Deus se revelasse ao homem orgulhoso, ele haveria de erguer a crista e se gabar de ter descoberto os arcanos divinos graças à própria penetração dos mistérios. Vale lembrar o diálogo de Nicodemos (cf. Jo 3) com Jesus, iniciado pela frase: “Rabi, nós sabemos que és um mestre vindo de Deus…” Este “nós sabemos” deixa escapar um ar de presunção, de autossuficiência, como se se tratasse de uma descoberta pessoal. Poucas frases depois, será a vez de Jesus perguntar a Nicodemos, em tom de ironia: “Tu és um doutor de Israel e não conheces estas coisas?!” (Jo 3,10) E Lev Gillet acrescenta: “E nós mesmos, que proclamamos saber quem é Jesus e o que lhe diz respeito, que sabemos dele na verdade?” Além dos artigos de fé repetidos no “Símbolo dos Apóstolos”, que... ler mais