Meditando o Evangelho

O mundo vos odeia… (Jo 15,18-21)

20/05/2017 – O mundo vos odeia… (Jo 15,18-21)

Aqui e ali, encontro cristãos que se lamentam porque seu testemunho cristão prejudicou sua carreira profissional. Como não eram da “panelinha” que se reunia para farras e bebedeiras, não topavam negociatas, insistiam em valorizar a ética, acabaram “na geladeira”. Conheço um engenheiro que foi demitido por ter pregado um crucifixo na parede de sua sala.

Aqui e ali, encontro jovens simpáticas que se lamentam porque suas colegas mais espevitadas logo arranjaram um namorado, enquanto sua atitude recatada e a recusa a certo tipo de relacionamento afastou eventuais candidatos. E suspiram: “Está difícil arranjar um namorado que não aponte para o motel logo no primeiro encontro…”

Aqui e ali, encontro jovens universitários ressentidos com seus professores, que se aproveitam de toda oportunidade para zombar de sua fé, denegrir a história da Igreja e abrir um “zoom” sobre os deslizes dos sacerdotes. Não poucos desses jovens acabam por se afastar da Igreja.

Ora, meus queridos amigos, que é que vocês esperavam da parte de um mundo neopagão, que lucra com a miséria alheia e incensa nulidades, desde que sejam do seu grupo ideológico?! Que esperavam de um mundo anticrístico, que manifesta o mais deslavado ódio por Deus e por seus servos? Aplauso? Condecorações? Diplomas de honra ao mérito?

Grande infantilidade ficar surpreso ou chateado com tais manifestações! Jesus alertara os membros do seu primeiro grupo: “Se o mundo vos odeia, ficai sabendo que, primeiro do que a vós, me odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas porque não sois do mundo e porque eu, ao contrário, do mundo vos escolhi, é que o mundo vos odeia.” (Jo 15,18-19.)

É a mesma infantilidade dos cristãos que reclamam da TV: “É um absurdo! Só violência! Só pornografia!” E eu pergunto: “Por que você não desliga a TV? Afinal, quem programa a TV? Pagãos. Quem patrocina? Pagãos. Quem desempenha os papéis? Pagãos. Ora, vamos esperar decência, respeito e amor à vida da parte daqueles que não conhecem a Deus?”

Aliás, o cristão que já ouviu o chamado de Deus para cuidar dos irmãos, provavelmente não terá tempo a perder diante da telinha corruptora. Estará tão ocupado em cuidar do próximo, que a TV seria imperdoável perda de tempo…

Quando veremos na rejeição do mundo um sinal da escolha de Deus?

Orai sem cessar: “O Senhor está a meu favor, nada temo!” (Sl 118,6)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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Como eu vos amei… (Jo 15,12-17)

19/05/2017 – Como eu vos amei… (Jo 15,12-17) Amar não é fácil. Já que o amor não consiste em usar o outro para meu prazer… Nem ser o centro das atenções de alguém… Nem experimentar arrepios e devaneios românticos… Amar não é fácil, pois a natureza humana degenerada pelo pecado é incapaz do verdadeiro amor se não for regenerada pela Graça divina. Entregue a mim mesmo, sem a Graça, eu sou o lobo do homem… Ora, não bastasse esta dificuldade “natural” nos indivíduos de uma raça ferida, vem o Senhor Jesus e nos espreme contra a parede com um imperativo extremo: “Amai-vos uns aos outros… COMO EU vos amei”! E COMO foi que Jesus nos amou? – Até a morte. E morte de cruz! No capítulo 13 de seu Evangelho, o discípulo amado anotou que, tendo chegado a hora de Jesus passar para o Pai, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. (Jo 13,1) Até o fim? Esta cláusula pode ser entendida em sua dimensão temporal, mas expressa também a plenitude máxima da capacidade de amar. Isto é, Jesus não teve meias-medidas em seu amor. Não estabeleceu condições para amar. Não manteve uma área de reserva pessoal. Não amou à espera de alguma contrapartida. De fato, o amor de Jesus não se limitou a Maria e José. Seu afeto não estacionou no grupo dos discípulos fiéis, mas incluiu a covarde negação de Pedro e a traição asquerosa de Judas. No momento de sua prisão, Jesus “cola” de novo a orelha de Malco que a espada decepara (cf. Lc 22,50-51; Jo 18,10), beneficiando um de... ler mais

Para minha alegria estar em vós… (Jo 15,9-11)

18/05/2017 – Para minha alegria estar em vós… (Jo 15,9-11) Todos conhecem o velho refrão: “Um santo triste é um triste santo!” E houve inimigos da Igreja, como Nietzsche, que nos deram uma boa ajuda ao apontar a inércia e a cara amarrada dos cristãos. Com razão, creio, pois conhecer a Jesus e viver “de tromba”, “emburrado”, é um terrível contratestemunho! Infelizmente, ainda há gente que considera a alegria, o riso e as brincadeiras como coisa pecaminosa, incompatível com a santidade. Triste engano! Nas entrelinhas do Evangelho, percebemos que o próprio Jesus gostava de umas brincadeiras, como quando passou a chamar de “filhos do trovão” (i. é, Boanerges) os dois apóstolos que se ofereceram para invocar o fogo do céu sobre os samaritanos. (Cf. Mc 3,17; Lc 9,54.) Certa vez, um padre que assinava o jornal católico “O Lutador” escreveu uma carta lamentando a publicação de uma foto com a imagem de uma mulher que dançava. E era uma dança de louvor a Deus, como a de Davi diante da Arca da Aliança, um tipo de oração “recuperado” por muitas Comunidades Novas. Mas a alegria que Jesus deseja derramar em nossos corações não é a alegria barulhenta (ou alacridade) das maritacas que roem coquinhos na ramagem. Não é uma espécie de alegria que se manifesta como agitação muscular, epidérmica. Ele pensa em uma alegria mais profunda (a letícia), que brota de um coração cumulado de amor e se traduz em paz. Há uma condição para experimentar esta alegria, que é fruto do Espírito Santo (cf. Gl 5,22). Guardar os mandamentos de Jesus, assim como Ele guarda os preceitos do... ler mais

Já estais puros… (Jo 15,1-8)

17/05/2017 – Já estais puros… (Jo 15,1-8) Nós estamos acostumados a pensar na purificação associada à água. Já nos tempos de Jesus, os judeus levavam a sério a pureza ritual obtida por banhos, aspersão de agua, lavagem de copos e utensílios. Aliás, uma das polêmicas entre Jesus e os fariseus foi motivada por tais costumes. Outro processo de purificação acontece por meio do fogo. As feridas eram cauterizadas com o fogo. O profeta Isaías teve sua língua purificada por um carvão em brasa (cf. Is 6,6-7). Paulo se refere ao dia do Juízo, quando o fogo – o mesmo fogo que separa o metal de sua ganga nos cadinhos – também mostrará a qualidade de nossas obras (cf. 1Cor 3,16). No Evangelho de hoje, Jesus nos fala de novo processo de purificação: “Vós já estais limpos por causa da palavra que vos falei”. (Jo 15,3) Certamente, o Mestre está pensando na videira, que precisa ser purificada, limpa, isto é “mondada”. Em Portugal, usa-se o verbo “mondar” para designar o processo de “limpar” as videiras (e também as roseiras!) daqueles ramos (cavalos) que não dão frutos (nem flores), mas apenas roubam a energia da planta. Notar que o verbo “mondar” vem do latim “mundare” (=purificar), e que “mundo” é o contrário de “imundo”. Nas palavras de Jesus, é sua Palavra que nos purifica. A mesma palavra que é comparada à lâmina de uma espada em Hb 4,12: “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do coração”.... ler mais

Dou-vos a minha paz… (Jo 14,27-31a)

16/05/2017 – Dou-vos a minha paz… (Jo 14,27-31a) Nosso mundo sempre foi palco de violência. Na primeira família, Caim matou Abel. Nossa História é um desfile de agressões e rapinas, destruição e fome. Sempre foi assim. Mas hoje, com a rede de comunicações, temos uma compreensão mais clara dessa realidade e, por isso mesmo, é cada vez mais agudo o nosso anseio pela Paz. E só Jesus Cristo, “nossa Paz” (Ef 2,14), pode responder ao nosso grito. Por isso mesmo, em cada Eucaristia, nos dirigimos ao Cordeiro de Deus, a divina Vítima do altar, para clamar: “Dai-nos a Paz!” Na Exortação Apostólica “Reconciliação e Penitência” (1984), o Papa João Paulo II juntava os dados de nosso tempo, como cacos de cerâmica, para recompor o triste mosaico que estamos vivendo: divergências tribais, discriminação de todo tipo, tortura e repressão, corrida armamentista, iníqua distribuição dos bens do planeta, direitos humanos espezinhados, multiplicação da miséria… “Por mais impressionantes que se apresentem tais lacerações à primeira vista – diz o Papa -, só observando-as em profundidade se consegue individuar a sua raiz: esta se encontra numa ferida íntima do homem. À luz da fé, nós a chamamos ‘pecado’, começando pelo pecado original, que cada um traz consigo desde o nascimento, como uma herança recebida dos primeiros pais, até os pecados que cada um comete, abusando da própria liberdade.” (RP, 2) Ora, para que Jesus possa semear em nós a semente da paz, devemos começar por uma profunda reconciliação. Reconciliação com Deus, com o próximo, com nós mesmos. Enquanto pecamos – e, por isso mesmo, agredimos a Deus, ao próximo e a nós mesmos... ler mais

Guardará minha Palavra… (Jo 14,21-26)

15/05/2017 – Guardará minha Palavra… (Jo 14,21-26) Entre os judeus – e Jesus era um deles, é bom lembrar… -, o verbo “guardar” tem ressonâncias muito especiais. No vocabulário técnico da tradição rabínica, “receber”, “guardar” e “transmitir” eram os verbos reveladores do homem justo e fiel. O grande dom de Deus ao povo escolhido era a Torah, a Lei intermediada por Moisés no Sinai. O israelita fiel se orientava por ela, recebendo a Lei, guardando-a e transmitindo com integridade, sem lhe alterar sequer um iode, a menor de todas as letras. Trazendo tudo isto para nosso tempo, diríamos que a virtude em questão é a obediência. Esta palavra, de origem latina, significa um ob-audiência, ou seja, a atitude de quem fica de frente para quem está falando, pronto a lhe obedecer. Assim como o filho que ouve as ordens e conselhos do pai. Neste Evangelho, Jesus associa a obediência ao amor. Começa por dizer que o Pai amará quem acolhe fielmente a Palavra dele, manifestada por Jesus. Isto é, a obediência suscita o amor. Mas o Mestre acrescenta: “Quem não me ama não guarda as minhas palavras”, o que deixa claro que é por amor que alguém se vê motivado a obedecer. O filho obedece ao Pai porque o ama. O tão esquecido “temor de Deus” – dom do Espírito Santo – não significa outra coisa, a não ser isto: “A última coisa que desejo neste mundo é entristecer meu Pai, que tanto me ama. Minha obediência é minha resposta de amor a quem me ama assim!” Vivemos um tempo de rebeldia. Poucos desejam obedecer. Mesmo nos Institutos de... ler mais

Voltarei e vos levarei comigo… (Jo 14,1-12)

14/05/2017 – Voltarei e vos levarei comigo… (Jo 14,1-12) Em plena despedida, Jesus promete voltar. Parece um “adeus”, mas é apenas “até já”. E aquilo que poderia ser uma frase solta, perdida no meio de um grande discurso, a Igreja o acolhe como um mistério de fé: “Creio que há de vir…” E ainda: “Et iterum venturus est cum gloria judicare vivos et mortuos.” E de novo há de vir glorioso para julgar os vivos e os mortos – professamos no Credo niceno-constantinopolitano. Nós cremos? Ainda cremos? Depois de tantos séculos, de tantas idas-e-vindas da humanidade errante? E se não cremos, perdemos muito mais que a fé: perdemos simultaneamente o dinamismo da esperança. E sem ela, esta vida na História se reveste de absurdo e já não faz sentido… E é a esperança aquela virtude-menina (Claudel) que não envelhece com o tempo. Muita gente já baixou os olhos do horizonte, desceu da incômoda muralha e foi dormir um sono sem sonhos. Alguém foi jogar na Bolsa. Outro foi acompanhar os jogos da arena. Muitos foram fazer fortuna. De fato, se o Senhor não vem (não virá?), a vida é só isto que se vê… Não há mesmo nada a esperar… Na contramão da opinião dominante, o “Catecismo da Igreja Católica” discorda: “No dia do juízo, por ocasião do fim do mundo, Cristo virá na glória para realizar o triunfo definitivo do bem sobre o mal, os quais, como o trigo e o joio, terão crescido juntos ao longo da história. Ao vir no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos, Cristo glorioso revelará a disposição secreta... ler mais

Fará também as obras que eu faço… (Jo 14,7-14)

13/05/2017 – Fará também as obras que eu faço… (Jo 14,7-14) Neste Evangelho, nós estamos diante de uma promessa clara e direta de Jesus a todo aquele que o segue: “Quem crê em mim fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas.” Diante do aparente absurdo, Santo Agostinho fala por Jesus: “Realizarei mais por meio daquele que crer em Mim, do que realizo agora por mim mesmo”. Ao agir no poder do Ressuscitado, a Igreja parece superá-lo. A primeira geração cristã estendeu o Evangelho muito além da Palestina, por onde Jesus limitara sua missão. Em poucos anos, a Boa Nova fora anunciada por todo o Império. Não se trata de ser mais que Jesus, mas, em comunhão com Ele, realizar uma tarefa que supera em muito a ação individual de qualquer pessoa. Francisco Xavier sai cortando os mares até a Índia, o Japão e a China. Antônio de Pádua ressuscita 5 mortos. Teresa de Calcutá atende – um por um, um de cada vez – milhares de mendigos, enfermos e leprosos. Hoje, suas numerosas seguidoras também fazem obras maiores do que ela, multiplicando seu carisma, sua presença e sua ação por todo o planeta sofredor… Bem, Jesus não disse que qualquer um faria isto. Somente aqueles que cressem… E o modelo de nossa fé pode ser encontrado na pessoa de Maria de Nazaré, que acreditou no anúncio de Gabriel e mereceu o elogio de Isabel: “Bem-aventurada és tu que creste, pois se hão de cumprir as coisas que da parte do Senhor te foram ditas!” (Lc 1,45) E foi por ter acreditado que Maria... ler mais

Vós sabeis o Caminho! (Jo 14,1-6)

12/05/2017 – Vós sabeis o Caminho! (Jo 14,1-6) Hoje, temos mapas e roteiros turísticos. Antes de sair de casa, examinamos o caminho a seguir. E não adianta muita pressa – como na sociedade atual – se não sabemos para onde estamos indo… Do contrário, corremos o risco de sair para as Índias e descobrir o Brasil. Um português já cometeu este engano… Jesus Cristo afirma a seus discípulos: “Vós sabeis o caminho”. Tomé, porém, se fez de desentendido: “Senhor, nós não sabemos para onde vais…” Ora, o Mestre, já em clima de despedida, estava de viagem marcada para o Pai. E aproveita para recordar a lição mal aprendida pelos discípulos: “EU SOU o Caminho… Ninguém VEM (no latim, venit) ao Pai, a não ser por mim”. Muitas traduções dizem: “Ninguém vai ao Pai”, como se o Pai estivesse bem longe, lá no céu, e – o que é pior – afastado de Jesus. E Jesus acrescentaria a seguir: “Quem me vê, vê o Pai!” Encontrar-se com Jesus é encontrar-se com o Pai. Aliás, Jesus não é UM caminho entre outras estradas possíveis, à nossa escolha: Ele é O Caminho. Esta exclusividade cristã incomoda, eu sei, parece pretensiosa. Mas é a Verdade. E a frase completa de Jesus inclui também isto: “EU SOU o Caminho, a Verdade e a Vida”. Os especialistas nos textos joaninos já chamaram a atenção para o fato de que esta é uma das frases de Jesus nas quais surge o Nome de Deus: EU SOU. A mesma frase que, pronunciada diante dos esbirros do Templo que prendiam Jesus, no Monte das Oliveiras, lançou-os todos por... ler mais

Eu vos lavei os pés… (Jo 13,16-20)

11/05/2017 – Eu vos lavei os pés… (Jo 13,16-20) A história humana inclui um ato de rebeldia, um grito de autonomia, desde o início (cf. Gn 3). Não admira que sejamos mais dispostos a dar ordens que a obedecer, a mandar que servir. No centro, a questão do poder. Ao longo dos séculos, o “poder” se concentrou na posse da terra, na força das armas, no capital acumulado, no domínio da informação. Os reis davam ordens. Generais e exércitos dominavam. Banqueiros e capitalistas decidiam. Sábios e doutores manipulavam as mentes. Os outros… obedeciam e faziam o trabalho pesado. Jesus, Mestre e Senhor, veio implodir o sistema. Na Ceia Pascal, ele retira o manto (símbolo de poder), prende uma toalha na cintura (como um servo) e põe-se a lavar os pés de seus discípulos (como um escravo)… Imaginem o mal-estar de seus seguidores, os mesmos que, mais de uma vez, andaram discutindo qual deles seria o vice-rei e o primeiro ministro quando Jesus instaurasse o seu Reino em definitivo! É natural que os filhos queiram a glória de seu pai. Que os empregados se orgulhem do sucesso de seu patrão. Que o povo admire a grandeza de seus reis. E ali, bem diante de seus, olhos está um Guia, Senhor e Mestre que faz um “papelão”, humilhando-se de forma jamais vista. Pior: findo o exercício de “pobreza”, o Mestre põe-se a ensinar: “Assim como eu vos fiz, fazei também vós, uns aos outros!” É provável que eles se tenham entreolhado. Primeiro no rosto. Em seguida, nos pés… E lutaram contra os sentimentos que vinham à tona de seu coração rústico... ler mais