Manda-nos para os porcos! (Mc 5,1-20)

Este foi o pedido que os demônios fizeram a Jesus, ao perceberem que seriam expulsos do infeliz possesso que morava entre os túmulos. Toda vez que comento este Evangelho, sou tentado a ironizar aqueles teólogos que traduzem como epilepsia os casos de possessão citados na vida de Jesus. É que, se assim fosse, estaríamos diante de uma desconhecida epilepsia suína (sic), pois os demônios logo foram transferidos para o rebanho de porcos, que se projetou no abismo do mar. Desta vez, porém, não serei cáustico…

A lição evidente nesta cena do Evangelho é a extrema dependência que os demônios experimentam em relação a Deus. Eles até precisam de uma “autorização” para mudarem de pousio. Atanásio de Alexandria [295-374 d.C.] ensina que “o diabo não tem autoridade nem mesmo sobre os porcos, pois os demônios suplicaram ao Senhor, dizendo: ‘permita que entremos nos porcos’. Se eles não têm autoridade nem mesmo sobre os porcos, com muita mais razão não a terão contra o homem”.

Para o mestre espiritual, nós não devemos temer as sugestões do maligno, pois as orações, os jejuns e a fé no Senhor logo os lançam por terra. Vencidos, eles não desanimam, retornam sempre com trapaças e confusões. Mesmo assim, não devemos temê-los, pois “foram reduzidos a escorpiões e serpentes para que nós, cristãos, os calquemos a nossos pés”.

Nós não somos porcos – animais que o povo da Bíblia considerava como o símbolo máximo de impureza. O coração do homem não foi criado para ser a pousada de maus espíritos. O coração do batizado é um templo onde habita o Espírito Santo. Somente o próprio fiel, santificado pelo Batismo, pode abrir suas portas para eventual invasão dos demônios.

Daí a lição de Atanásio: “Assim sendo, é somente a Deus que devemos temer; aos demônios, é preciso desprezar. Eles fazem tudo para não serem calcados a nossos pés. Eles conhecem, de fato, a graça que o Salvador concedeu contra eles aos fiéis, quando ele disse: ‘Eis que vos dei o poder de calcar aos pés serpentes, escorpiões e toda potência do inimigo’”. (Lc 10,19)

A pedagogia cristã – a começar pelos pais – deveria insistir mais na habitação divina em cada batizado. As crianças, desde a idade da razão, deveriam ser despertadas para a presença íntima do Espírito Santo em seu coração. E não haveria mais possessos entre nós…

Orai sem cessar: “Não sabeis que sois o templo de Deus?” (1Cor 3,16)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.