20/02/2019 – Levou-o para fora da aldeia… (Mc 8,22-26)

Não foi um gesto isolado de Jesus. Mais de uma vez, como quando ressuscitou a filha de Jairo (cf. Mc 5,40), Jesus afasta da multidão incrédula – e até mesmo zombeteira! – aquela pessoa a quem irá curar em seguida. É como se a falta de fé da maioria dos presentes impedisse a ação de Jesus (cf. Mc 6,5-6).

A multidão é o espaço da incredulidade. Ali, em geral, o burburinho da turba e os gritos de seus adversários deixam Jesus surpreso com o extremo grau de fechamento à Palavra de Deus, com a radical falta de fé. Ao contrário, é na intimidade que Jesus faz revelações a Nicodemos. É no recesso do lar que ele cura a sogra de Pedro. Foi no interior da casa que a mulher Cananeia conseguiu a libertação de sua filha. E os dez leprosos não foram curados espetacularmente, diante de Jesus, mas enquanto caminhavam para Jerusalém. Já diante da corte de Herodes, Jesus se recusa a dizer uma única palavra (cf. Lc 23,8-9).

Nas ocasiões em que Jesus chegaria a manifestar seu poder diante de um grupo maior, sempre enfrentou problemas com as pessoas ali presentes. Foi assim nas reuniões da sinagoga (Mc 3,1ss, quando decidem matar Jesus), ou à beira da estrada (Lc 18,35ss, quando fazem de tudo para calar o cego). Decididamente, as multidões não ajudam muito os servidores de Deus!

Além do mais, é imprevisível o humor da multidão. No Domingo de Ramos, quando Jesus Cristo entrou em Jerusalém, a turba entoava hinos de louvor e clamava “hosanas ao Filho de Davi”. À passagem do Rabi da Galileia, estendiam seus mantos no chão, como quem acolhe o rei vencedor. Cinco dias depois, no pretório de Pilatos, muitos daqueles populares engrossaram o coral que urrava: “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Todo este painel deve levar-nos a apostar poucas fichas em manifestações de massa e, naturalmente, a valorizar as celebrações mais íntimas, bem como os momentos de oração pessoal e de silenciosa meditação. Os mestres espirituais insistem há séculos na necessidade do silêncio e do recolhimento para discernir a vontade de Deus para nossas vidas.

Não quero dizer que sejam inúteis os “shows” com intenção evangelizadora, mas é cada vez mais necessário discernir a relação custo e benefício em promoções desse tipo. Não sabemos ao certo o que ocorre, de fato, no interior dos corações, depois que passa o efeito da emoção despertada e da hipnotizante enxurrada de decibéis…

 

Orai sem cessar: “Feliz o homem que pôs sua confiança no Senhor!”(Sl 40,5)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.