Jesus indignou-se… (Mc 10,13-16)

Jesus, o “cordeiro” de Deus, manso e humilde de coração, raras vezes se deixou indignar. Perdeu as estribeiras, diria minha avó. Uma delas, quando viu a Casa de Deus travestida em mercado de animais, lugar de vil comércio. Improvisando um chicote de cordas, deixou-se tomar da mais santa fúria e tocou os animais para fora do local, derrubando as bancas dos camelôs do Templo. Afinal, mudar o Templo em caravançará era mesmo uma profanação do sagrado…

Desta vez, Jesus fica indignado porque os discípulos – quem diria?! – estão escorraçando para longe do Mestre as criancinhas barulhentas como maritacas. E os marmanjos incomodados tentam impedir que elas se aproximem e sejam abençoadas pelo Senhor. Seria esta uma nova forma de “profanação”?

Parece que sim. Profanação semelhante àquela que os pais cometem quando entregam friamente seus pequeninos nos braços da TV corruptora… Profanação não muito diferente daquela que os educadores cometem quando deixam os pequeninos crescerem sem serem apresentados a Jesus… Profanação quando os mais velhos acostumam, desde cedo, seus pequenos a se vestirem mal, sem pudor, sem ver o seu próprio corpo como um Templo do Espírito Santo…

Não sei se seria a hora de nos perguntarmos: “Como estará Jesus diante de tudo isso? Estará feliz? Ou terá novo acesso de indignação diante de nossas atitudes? Precisará improvisar um novo chicote?”

Não faz muito tempo, o pão era sagrado. Se caía ao solo, era recolhido beijado. Não faz muito tempo, as mães eram sagradas. Os filhos tomavam-lhe a bênção ao levantar e ao deitar. Não faz muito tempo, as paredes eram sagradas. A folhinha do Sagrado Coração regia o tempo da família, bem ao lado da Santa Ceia e do Anjo da Guarda. Não faz muito tempo, o lar era sagrado. Ali não entravam certas revistas, certos filmes, certa literatura. Antes, era o lugar onde a família se reunia para rezar o terço de Nossa Senhora. Agora, o pedestal foi cedido para a TV…

Não faz muito tempo. Mas parece que faz tanto tempo! Como será que o tempo correu assim tão depressa? Como foi que perdemos a capacidade de nos indignar? Como foi que a presença palpável de Jesus Cristo se tornou invisível para todos nós?
Orai sem cessar: “Eu e minha casa serviremos ao Senhor!” (Js 24,15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.