17/05/2017 – Já estais puros… (Jo 15,1-8)

Nós estamos acostumados a pensar na purificação associada à água. Já nos tempos de Jesus, os judeus levavam a sério a pureza ritual obtida por banhos, aspersão de agua, lavagem de copos e utensílios. Aliás, uma das polêmicas entre Jesus e os fariseus foi motivada por tais costumes.

Outro processo de purificação acontece por meio do fogo. As feridas eram cauterizadas com o fogo. O profeta Isaías teve sua língua purificada por um carvão em brasa (cf. Is 6,6-7). Paulo se refere ao dia do Juízo, quando o fogo – o mesmo fogo que separa o metal de sua ganga nos cadinhos – também mostrará a qualidade de nossas obras (cf. 1Cor 3,16).

No Evangelho de hoje, Jesus nos fala de novo processo de purificação: “Vós já estais limpos por causa da palavra que vos falei”. (Jo 15,3) Certamente, o Mestre está pensando na videira, que precisa ser purificada, limpa, isto é “mondada”. Em Portugal, usa-se o verbo “mondar” para designar o processo de “limpar” as videiras (e também as roseiras!) daqueles ramos (cavalos) que não dão frutos (nem flores), mas apenas roubam a energia da planta.

Notar que o verbo “mondar” vem do latim “mundare” (=purificar), e que “mundo” é o contrário de “imundo”. Nas palavras de Jesus, é sua Palavra que nos purifica. A mesma palavra que é comparada à lâmina de uma espada em Hb 4,12: “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do coração”.

Não admira, pois, que muita gente sinta aversão pela Palavra de Deus, temendo a “poda” que iria acontecer necessariamente ao seu contato. Preferem ignorá-la, zombar dela ou tecer as mais complicadas elucubrações mentais para se manterem à distância.

Quanto ao poder purificador da Palavra de Deus, sou testemunha ocular de seu dinamismo depois de pregar o Evangelho a presidiários, durante cinco anos, em uma equipe de Pastoral Carcerária. Após algum tempo de evangelização, alguns pediam aconselhamento, outros se confessavam com o padre e um dos detentos, que vivia em concubinato, decidiu casar-se, o que aconteceu na capela do presídio. Tenho fotos da cerimônia.

Seria exagero afirmar que o melhor pregador é aquele que desperta nos ouvintes a vontade de confessar seus próprios pecados?

Orai sem cessar: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro!” (Sl 51,12)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.