DIA 8 DE MARÇO – DOMINGO

III DOMINGO DA QUARESMA

Evangelho (João 2,13-25)

2 13 Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
14 Encontrou no templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas.
15 Fez ele um chicote de cordas, expulsou todos do templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos trocadores e derrubou as mesas.
16 Disse aos que vendiam as pombas: Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.
17 Lembraram-se então os seus discípulos do que está escrito: “O zelo da tua casa me consome”.
18 Perguntaram-lhe os judeus: “Que sinal nos apresentas tu, para procederes deste modo?” 19 Respondeu-lhes Jesus: “Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias”.
20 Os judeus replicaram: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu hás de levantá-lo em três dias?!”
21 Mas ele falava do templo do seu corpo.
22 Depois que ressurgiu dos mortos, os seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na palavra de Jesus.
23 Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia.
24 Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos.
25 Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois ele bem sabia o que havia no homem.

Palavra da Salvação.

Meditando a Palavra

Fez um chicote… (Jo 2,13-25)

Onde está o “manso e humilde coração”? (Mt 11,29) Onde está quem mandou guardar a espada na bainha? (cf. Mt 26,52) Pois é o mesmo Jesus de Nazaré que aparece agora de chicote em punho para higienizar a Casa do Pai.

Existe, sim, uma cólera santa! Não há gula santa, nem santa luxúria, mas existe um justo ciúme da santidade de Deus: “O zelo por tua casa me devorou”. (Sl 69,10) E é movido por este zelo que Jesus revela uma face até então velada em seu ministério.

Em nosso tempo, os mercadores também invadiram todo espaço sagrado, seja ele o espaço da família, o corpo da mulher ou o coração das crianças. Nada escapa à enxurrada dessacralizante das modernas idolatrias. Em nome do lucro e do poder, Mammon e Zeus são erguidos nos pedestais para a adoração incondicional da sociedade do capital e do consumo. E não nos indignamos com isso…

Temos o direito e o dever de manifestar nossa indignação. François Trévedy propõe que alimentemos constantemente em nós “uma grande cólera possível, uma imensa fonte de insurreição. A indignação, garantia do valor fiduciário do amor, faz parte integrante de nossa existência cristã, porque a dignidade – dignitas christiana [São Leão Magno] – faz parte integrante de nossa existência cristã, porque a consciência da dignidade de Deus e de toda pessoa humana à sua imagem faz parte de nossa existência cristã”.

Parece repetitivo? Pois é apenas o óbvio. Perdemos nossa “dignidade” quando mergulhamos no esgoto neopagão e consumimos todos os alimentos que ali nos oferecem: filmes pornográficos, programas que exploram deformidades humanas, detalhes subumanos de crimes, combates em que o sangue dos lutadores pelo tablado, mas também quando vendemos qualquer ideal ou valor ético por causa do dinheiro. Mas a perdemos também quando nos calamos diante de tudo isso…

“Se a in-dignação é legítima, é porque existe uma dignidade – afirma Trévedy. Dignidade de Deus, dignidade do homem, dignidade da Criação. E porque, restaurados em Cristo, nós temos restaurado nossa dignidade, começaremos por nos indignar contra nós mesmos, contra o pecado que a achincalha e que consiste essencialmente em nossa mediocridade.”

Por que motivo a Liturgia da Quaresma nos põe diante deste Evangelho? Seria para mostrar o contraste entre o Carnaval dos pagãos e a Quarta-feira de Cinzas do cristão? Seria um apelo à penitência por nossos pecados e – acima de tudo – por nossa morna indiferença diante deles?

E pensar que pode haver um vômito à nossa espera… (cf. Ap 3,16)

Orai sem cessar: “Arderá como fogo o teu zelo, Senhor?” (Sl 79,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.