1º/03/2018 – Há um grande abismo… (Lc 16,19-31)

Houve um tempo para o pobre: doença, miséria, feridas lambidas pelos cães. Houve um tempo para o rico: banquetes, roupas de luxo, indiferença pelo pobre. Um dia, o tempo acaba e as coisas se cristalizam, já não aceitam correções.

Findo o tempo, há um juízo, isto é, uma “separação”. O conceito de justiça – que costumamos representar pela espada – exige esta “crise”, uma separação final entre luz e treva, entre bem e mal, entre verdade e mentira. É assim que Lázaro se encontra agora no seio de Abraão (um espaço de acolhida, uma metáfora para nosso “céu”) e o rico indiferente acaba no Xeol, a mansão dos mortos, torturado e sedento.

Quando o rico da parábola divisa ao longe, no seio de Abraão, a figura de um “conhecido” – aquele miserável Lázaro que ele “desconhecera” todo o tempo -, vê a oportunidade de ser aliviado em seus tormentos. Mas o pedido que ele faz a Abraão não pode ser atendido: existe um abismo [no grego, chasma; em latim, chaos] intransponível entre o pobre consolado e o rico condenado.

Obviamente, trata-se do abismo da indiferença em relação ao Outro. A ponte que não foi estendida durante a vida é a mesma ponte que fará falta depois da morte. De certo modo, o próprio rico obrigou Deus a tomar partido…

André Louf pergunta: “De que lado se encontra Deus?” E passa a responder: “Uma primeira resposta é bem evidente: Deus se põe do lado dos pobres. Cuida deles, defende seus direitos, os direitos do pobre, da viúva e do órfão. E Deus não só tem cuidado dos pobres, mas veio colocar-se do lado deles, veio ocupar o lugar deles, identificar-se com eles. Ele se despojou – dizem os grandes textos de São Paulo -, ele se esvaziou, ele se rebaixou (cf. Fl 2,2), de rico ele se fez pobre. Em Jesus Cristo, pobre e abaixado, Deus assumiu o rosto da miséria humana e, desde então, é pra eles que a boa nova é dirigida, é a eles que pertence o Reino.”

O que ocorre quando o pobre grita? “A cada grito do pobre, Deus nos interpela, Deus nos estende a mão, Deus se faz nosso mendigo. Sobre nossa terra, de agora em diante, toda pobreza é um sinal evidente de Deus.”

Se isto assustasse um rico, que poderia ele fazer em sua defesa? Francisco abre mão das riquezas. Charles de Foucauld distribui seus bens aos pobres. Albert Schweitzer vai exercer a medicina entre os nativos do Congo. Pauline Jaricot evangeliza as operárias pobres. São muitos os caminhos.

Mas essas iniciativas só deram certo porque Francisco, Charles, Albert e Pauline se sentiam pobres e, por isso mesmo, dependiam de Deus em tudo. E só mesmo Deus pode estender uma ponte sobre nossos abismos…

Orai sem cessar: “A ti, Senhor, o pobre se abandona confiante!” (Sl 10,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.