Fundador

Pe. Chevalier, fundador do mSC

1. Nascimento em Richelieu. Os pais do Padre Chevalier
Nasci em Richelieu (Indre-et-loire), no dia 15 de março de 1824 e fui batizado no dia seguinte, com o nome de João Júlio. Meus pais eram cristãos e muito honestos. Sem serem ricos, gozavam de um modesto bem-estar, e o trabalho, a disciplina e a economia faziam prever dias ainda melhores. Já sonhavam com um futuro promissor para os filhos, mas infelizmente não contavam com a doença e os revezes. Deus, sem dúvida, tinha seus planos, pois tudo é regido por sua divina Providência.

Meu pai (parece que um dos seus antepassados foi armado Cavaleiro por Luis XIV, depois de um brilhante feito de armas), chamava-se João Carlos Chevalier. Era o mais velho de quatro irmãos. Era um homem bom, honesto, probo, caridoso, amante da justiça e da verdade. Sua inteligência estava acima da média, e sua educação, esmerada. Tinha vocação para as profissões liberais, mas infortúnios de família e a morte de sua mãe que sobrevieram nessa época, desmancharam seus planos. Dedicou-se ao comércio de cereais e tornou-se padeiro. Desposou, então, minha mãe, cujos pais já exerciam também essa mesma profissão; ela, minha mãe, chamava-se Luisa Ory. Dos treze irmãos, era a caçula. Embora sua educação não tenha sido completa, devido àqueles tempos difíceis, era dotada de excelentes qualidades. Tinha um modo equânime de pensar e um caráter alegra e firme, aliado a uma piedade franca e sincera, de uma sutileza de espírito pouco comum, completava seu caráter, uma coragem admirável.

 

2. Júlio deseja entrar para o Seminário Menor
Terminados meus estudos primários, manifestei aos meus pais o desejo de entrar no seminário menor, onde já se achavam um de meus primos irmãos e vários de meus colegas. Essa proposta não foi vista com bons olhos. Minha mãe me deu a entender que a nossa situação financeira, depois de tantos contratempos, não permitia a realização desse desejo e me aconselhou a procurar um emprego, dizendo-me que, se Deus me quisesse padre, saberia, um dia, providenciar os meios para isso. Não era a resposta que eu esperava. Chorei muito. Depois de ter chorado bastante, digo a minha mãe de modo resoluto: “Está bem! Vou procurar um emprego qualquer, já que não há outro jeito, mas, logo que conseguir fazer alguma economia, irei bater à porta de um seminário e pedirei que me recebam para aí fazer meus estudos e assim poder atingir meu ideal”.

Ela esboçou um sorriso e foi contar a meu pai e a uns amigos minha ingênua pretensão. Tornei-me assim alvo de seus gracejos, e vez ou outra, me perguntavam: “Ora, você não foi ainda para o Seminário?”

 

3. Motivações do Seminarista
Alguns dias mais tarde, achava-me reunido com a família. Meu irmão e minha irmã, casados, tinham vindo, um de Paris e outra de Tours. Ficamos felizes de nos encontrar depois de tantos anos de separação.

Deram a impressão de que estavam contentes com a carreira que eu abraçara. E deram a entender que afagavam a esperança de que, um dia, os ajudaria e que seria útil a seus filhos, citando-me o exemplo de vários padres que haviam enriquecido seus pais e dado aos sobrinhos privilegiadas posições.

“Se vocês pensam que vou fazer a mesma coisa, terão amarga decepção. E fiquem certos de que, se me tornar padre, é para estar a serviço de Deus e não para enriquecer os meus”


4. Júlio no Seminário Maior

O retiro do começo do ano foi pregado pelo padre Mollevaut, da Congregação de São Sulpício. Sua palavra simples, mas vigorosa e cheia de fé, causou em minha alma uma profunda impressão. Saí convertido desses piedosos exercícios e desejoso de ser um seminarista exemplar. O pregador nos havia recomendado, em especial, três virtudes: a fidelidade à regra, a mortificação e a humildade. Fiz o que pude para tentar pô-las em prática, nos cinco anos de seminário maior. Mas pobre de mim! Quanta covardia! Quanta imperfeição!

Fiz minha filosofia segundo as teorias de Descartes, que o professor nos queria impingir como gênio, e minha teologia na linha de Bailly, que diziam ser um autor prático e de opiniões abalizadas. Deus me deu a graça de não partilhar tais conceitos. O sistema cartesiano me parecia falso e perigoso; nas aulas, discordava, embora procurasse não faltar ao devido respeito ao professor. Quanto às teorias de Bailly, arquigalicano na questão dos quatro artigos da constituição da Igrja, dos concílios gerais, do Papa etc., delas tinha um instintivo horror. Daí nasciam calorosas discussões e intransigentes posições. Era eu considerado um ultramontano, mas não estava só. Quase todo mundo se posicionava contra o autor e o professor.


5. Desejo das Missões

Acabava de receber a tonsura, quando me deram a notícia de que meu pai estava muito mal. De imediato, fui para casa e no decorrer das férias passei pela dor de perdê-lo. Morreu no dia 20 de agosto de 1848, com 65 anos, confortado com os sacramentos; isto foi para mim altamente consolador. Poucos dias depois, minha mãe por causa de excessivas fadigas, cai doente e o médico declara que seus dias estavam contados. Graças, porém, às orações que foram feitas por muita gente, recuperou a saúde.

Voltei, então, ao seminário, no começo de outubro. A leitura dos Anais da Propaganda da Fé despertou em mim o desejo das missões. Estava disposto a qualquer sacrifício para levar a luz do Evangelho aos infiéis. Abri-me a esse respeito, com o padre Superior, padre Ruel, que era meu diretor. Não concordou com a minha idéia e me disse que deixasse para falar com ele sobre isso, mais tarde. Voltei à carga várias vezes , até que acabou dizendo que a diocese tinha necessidade de padres e que se opunha ao meu desejo. Conformei-me com sua decisão e renunciei a meu propósito, aguardando a hora da providência.


6. Essa doutrina tocava meu coração

Estudando o tratado da Encarnação, nosso professor completou-o com uma tese sobre a devoção ao Sagrado Coração. Desenvolveu-a, com muita sabedoria e piedade. Transcrevi-a na íntegra. Essa doutrina me tocava o coração e quanto mais nela me aprofundava, mais crescia em mim o gosto pela sua beleza. Meu confessor me emprestou o livro sobre a vida da Bem-aventurada Margarida Maria, escrito por D. Languet. Essa leitura despertou em mim um vivo desejo de me fazer apóstolo dessa devoção que o próprio Nosso Senhor apresentava ao mundo, como um meio poderoso de santificação e que desejava ver difundida por toda parte. Para corresponder ao seu apelo planejei reunir, quando me tornasse padre , alguns confrades piedosos e cheios de zelo, para juntos trabalharmos na propagação do culto ao Sagrado Coração. Tinha em mira, então, dois de meus colegas que me pareciam preencher as condições requeridas. Receando cair no ridículo ou ser objeto de zombaria, guardo para mim mesmo esse belo sonho e não o conto a ninguém.

Guardo-o somente no Coração de Jesus e no de sua Mãe Imaculada . Depois de ter recebido sucessivamente as várias ordens, sou finalmente ordenado sacerdote . Fui ordenado na véspera da festa da Santíssima Trindade de 1851, no dia 14 de junho, depois de cinco anos de seminário maior. Celebrei minha primeira Missa, na capelinha do jardim, dedicada à Santíssima Virgem.(Notas Íntimas, páginas 1 – 13).

Tradução: Pe. José Maria Pinto, mSC. In memorian