Filho de Davi… (Mc 12,35-37)

Em sua entrada triunfal em Jerusalém (cf. Mt 21), a multidão aclamaria a Jesus de Nazaré com o título real de Filho de Davi. Na prática, aquela aclamação significava reconhecê-lo como o Messias prometido a Israel.

Quando o Rei Davi, pensou em construir um templo para Yahweh, foi-lhe feita uma promessa (2Sm 7,12): um de seus descendentes ocuparia um trono eterno, e seria tratado por Deus como verdadeiro filho. A leitura posterior dos Padres da Igreja percebeu aqui uma alusão clara à pessoa do Messias.

No Evangelho de hoje, Jesus, interpelado pela malícia dos doutores da lei e dos fariseus, devolve-lhes na mesma moeda. Como os escribas ensinavam que o Messias esperado era “Filho de Davi”, Jesus se vale de um texto do próprio Davi (Salmo 110,1) para mostrar que Davi, paradoxalmente, chamava o Messias de “Senhor”, um título divino, reconhecendo que Davi lhe era inferior.

O povo simples se deliciava quando via a pretensa sabedoria dos “doutores” desmascarada pelos argumentos um simples aprendiz de carpinteiro. Em seu Evangelho, São Mateus registra que esse episódio foi a gota d’água: dali em diante, desistiram de apanhar Jesus em alguma armadilha doutrinária.

Também hoje, em nossos dias, proliferam aqui e ali muitos doutores a ensinar suas próprias doutrinas, suas teologias particulares, ainda que seus livros e estudos colidam de frente com a sã doutrina e a tradição multissecular da Igreja de Jesus. Curiosamente, não se envergonham de atacar a Igreja, a “Mãe” a quem devem tudo: acolhida, instrução e autoridade…

Sem prudência nem discernimento, tratam arbitrariamente de questões delicadas como o homossexualismo, o aborto, o sacerdócio das mulheres e o próprio papel de Jesus como nosso Salvador. E se o Magistério eclesial se pronuncia, alertando sobre os erros ou emitindo sanções, os “doutores” se fazem de vítimas perseguidas pelo poder absolutista do Papa (sic). Claro, o fiel saberá escolher entre os palpites de um teólogo e a solidez do magistério eclesial…

O Apóstolo nos preveniu: viriam falsos doutores, lobos com pele de cordeiro (At 20,29), a espalhar suas falsas doutrinas, semeando a dúvida e a divisão na comunidade. No fundo, compromissos de ordem ideológica, interesses financeiros e acadêmicos ou a simples vaidade dos soberbos, somada a feridas mal curadas, costumam explicar a rebeldia dos cismas e das heresias. Como disse Paulo, “a ciência incha” (1Cor 8,1)…

Orai sem cessar: “Hosana ao Filho de Davi!” (Mt 21,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.