Filho de Davi! (Lc 18,35-43)

O grito do cego não é apenas o profundo gemido de um homem deficiente e marginalizado em busca de compaixão. Na tradição judaica, o “Filho de Davi” era exatamente o Ungido de Deus [= Messias] que aparece na promessa do Senhor que o profeta Natã levou a Davi (cf. 2Sm 7,12ss). Conscientemente, ou não, o filho de Timeu proclamava a realeza de Jesus de Nazaré.

Jean Valette comenta: “Tal como ele é, nossa passagem aparece como um prelúdio à entrada solene de Jesus na Cidade Santa. A multidão aqui citada era formada, seguramente, por aqueles peregrinos que se haviam reunido a Jesus e aos seus. “Jesus, Filho de Davi, é a primeira aclamação messiânica, na véspera da entrada em Jerusalém.

As turbas não dirão outra coisa quando Jesus passar montado em seu burrico. Assim, a ligação com o dia dos Ramos é difícil de negar. Pode-se mesmo perguntar se o milagre que Jesus vai realizar, ao ser recontado em Jerusalém pelos peregrinos, não veio a desempenhar um papel nas aclamações do povo, na medida em que a cura dos cegos era o sinal messiânico por excelência”.

Claro que o cego é movido por sua extrema necessidade pessoal. Provavelmente não media o alcance de seu grito, que salta acima e além de sua miséria e de sua esperança interessada. Mas basta a sua invocação para que nos lembremos de os ouvidos do Filho de Deus não ficarão surdos aos nossos pobres apelos.

Paralelamente, chama nossa atenção o fato de que a multidão ruidosa aparece como um obstáculo para o encontro entre o médico e o doente. No entusiasmo de seguir o Mestre, a turba anônima se perde em louvores e se esquece das misérias à beira do caminho. Chega a pedir ao cego que cale sua boca…

Este é um dos riscos que corremos ao fazer da religião uma espécie de realização artística, um permanente “show” para a glória de Deus, sem ter olhos e ouvidos para aqueles que esperam pelo toque salvador que justificaria toda uma enxurrada de salmos de louvor.

De um lado, o Salvador glorioso. De outro, a multidão de cegos, surdos, aidéticos e aleijados. Para onde se voltará o nosso olhar?

Orai sem cessar: “O Senhor abre os olhos ao cego…” (Sl 146,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.