Fardos pesados… (Mt 23,1-12)

Jesus nos fala de um tipo de religião imposta ao povo de modo a esmagar as pessoas, roubar-lhes a liberdade e – pior – induzi-las ao farisaísmo e à simulação de uma santidade que não existe em nosso coração.

Na Mensagem que anuncia o Ano da Misericórdia, o Papa Francisco sugere: “Não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor.

[…] Na Bíblia,alude-se muitas vezes à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus.

Esta visão, porém, levou não poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justiça possui. Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus.

Por sua vez, Jesus fala mais vezes da importância da fé que da observância da lei. É neste sentido que devemos compreender as suas palavras, quando, encontrando-se à mesa com Mateus e outros publicanos e pecadores, disse aos fariseus que o acusavam por isso mesmo: “Ide aprender o que significa: ‘Prefiro a misericórdia ao sacrifício’.

Porque eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. (Mt 9,13).

Diante da visão duma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para serem fiéis à Lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando, porém, a misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades que afetam a dignidade das pessoas”. (Misericordiae Vultus)

Uma religião autêntica é uma experiência libertadora que nos permite amar além da letra da Lei, transformando fardos pesados em flechas para o Infinito.

Orai sem cessar: “Amo teus mandamentos mais que o ouro!” (Sl 119,127)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.