DIA 13 DE FEVEREIRO – SEXTA-FEIRA

Evangelho (Marcos 7,31-37)

31 Ele deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi por Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole.
32 Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo, rogando-lhe que lhe impusesse a mão.
33 Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva.
34 E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: “Éfata!”, que quer dizer “abre-te!”
35 No mesmo instante os ouvidos se lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente.
36 Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais lhes proibia, tanto mais o publicavam.
37 E tanto mais se admiravam, dizendo: “Ele fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos”.

Palavra da Salvação.

Meditando a Palavra

É verdade que Deus vos disse? (Gn 3,1-8)

Na figura mítica da serpente, oculta-se o astuto anjo rebelde, identificado como o “pai da mentira” (cf. Jo 8,44). Não seria ele o último sujeito a se preocupar com a verdade? Mas é exatamente em nome dela que o tentador se dirige à primeira mulher para atraí-la à desobediência.

Pobre Eva! São tantas as formas de desviar-se do caminho e decair! Uma delas – sempre atual! – consiste em demorar os olhos sobre a coisa proibida. Dizem os entendidos no humano psiquismo que a coisa proibida tem uma atração especial que a destaca de todas as demais permitidas. Por isso mesmo, quanto mais nós a fitamos, mais sua posse nos parece irresistível…

Outra situação prévia do desastre está em dialogar com o demônio. A serpente traz uma pergunta sobre a norma estabelecida pelo Criador. A mulher estende-se na resposta, demonstrando que tudo ouvira e entendera com clareza. A serpente, porém, a contesta, suscitando grave dúvida a respeito das intenções divinas. Deus seria realmente capaz de nos enganar? Desta maneira, é lançada uma semente de desconfiança no coração da criatura inocente.

Inocente? Sim, Eva é tão inocente, que não percebe o absurdo na isca que lhe é apresentada pela serpente do Éden. Não tanto o fruto em si (aliás, de onde será que tiraram a tal maçã, que não aparece na narrativa do Gênesis?), mas a hipótese temerária de “ser como Deus”.
Curiosamente, quando a Tradição relata a primitiva queda dos anjos rebeldes, ficou registrada a fulgurante resposta do arcanjo Miguel: “Quis ut Deus?” [Quem é como Deus?] Este arcanjo sabia muito bem da distância infinita entre o Criador e a criatura. Foi este conhecimento superior que o manteve fiel. Já a infeliz Eva, pobrezinha! A narrativa bíblica, ainda que enxuta, anota em detalhes as fases de sua conduta: viu… deixou-se atrair… desejou… colheu… comeu… compartilhou…

Eva é muito mais que um indivíduo do sexo feminino. Eva somos nós, a humanidade, que insiste em ignorar a própria fragilidade e alimenta no inconsciente os mais tresloucados anseios de deificação. Queremos voar, como Ícaro. Roubar o fogo do Olimpo, como Prometeu. Ter um filho com Vênus, como o inquieto Marte. Dificilmente reconhecemos nosso limiar humano. Daí nossa mania de “divinizar” os heróis que ultrapassam limites, ainda que seja uma simples onda do Havaí…

Que tal redefinir “pecado”? O impulso de ir além de nossa humanidade… Na rebeldia das crianças, na cupidez dos ladrões, na onipotência dos tiranos: eis nosso pecado original: a ilusão de ser como deuses…

Orai sem cessar:“Senhor, não ando atrás de coisas grandes…” (Sl 131,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.