DIA 29 DE JANEIRO – QUINTA-FEIRA

Evangelho (Marcos 4,21-25)

Naquele tempo, 4 21 Jesus dizia à multidão: “Traz-se porventura a candeia para ser colocada debaixo do alqueire ou debaixo da cama? Não é para ser posta no candeeiro?
22 Porque nada há oculto que não deva ser descoberto, nada secreto que não deva ser publicado.
23 Se alguém tem ouvidos para ouvir, que ouça”.
24 Ele prosseguiu: “Atendei ao que ouvis: com a medida com que medirdes, vos medirão a vós, e ainda se vos acrescentará.
25 Pois, ao que tem, se lhe dará; e ao que não tem, se lhe tirará até o que tem”.

Palavra da Salvação.

Meditando a Palavra

Nada acontece em segredo… (Mc 4,21-25)

Antigo samba-canção (aliás, verdadeira obra-prima do cancioneiro popular, assinada por Herivelto Martins) afirmava categoricamente: “segredo é pra quatro paredes”… Pois o Evangelho discorda…

Jesus nos garante que mesmo aqueles crimes cometidos à socapa, por baixo do pano, furtivamente, mais cedo ou mais tarde acabarão revelados. O atual momento brasileiro, com uma enxurrada lamacenta de suborno e corrupção no noticiário, é a prova cabal de que as ações ocultas (ainda mais nestes tempos cibernéticos!) não hão de permanecer na sombra por muito tempo.

Vale, pois, meditar sobre a insânia que cometemos quando pretendemos ocultar nosso íntimo diante do olhar divino. E não se trata de coisa nova, pois o Antigo Testamento já registrava esta tentativa de cegar o Criador: “Dizem os ímpios: ‘O Senhor não vê, o Deus de Jacó não repara’. Imbecis, quando criareis juízo? Quem plantou o ouvido não escuta? Quem fez o olho não enxerga?” (Sl 94,7-9)

Creio que nossa dificuldade em procurar o ministro do perdão para o Sacramento da Reconciliação (a popular “confissão”) tem algo a ver com esta atitude interior. Ora, os pecados que confessamos já são muito bem conhecidos de Deus. Não levaremos nenhuma novidade ao confessionário, nenhum segredo…

Mas o aspecto trágico dessa tentativa de fuga é de outra natureza: ao imitarmos o velho Adão, buscando ocultar-nos de Deus (cf. Gn 3,10), não percebemos que o olhar evitado é exatamente o olhar de um Pai amoroso, ansioso por nos perdoar? Não se trata de um juiz rancoroso, um regente vingativo, mas daquele que deseja nossa vida e salvação.

Seria puro irracionalismo de nossa parte? Ou existe aí algo mais, de fundo espiritual? Não seria (creio que sim!) o próprio demônio que, depois de nos haver seduzido ao pecado, vem soprar aos nossos ouvidos uma imagem falsa de Deus, como se devêssemos manter distância para evitar punição e castigo?

Ninguém, como a Pequena Teresa de Lisieux, percebeu mais claramente o lado misericordioso de nosso juiz: “Que doce alegria essa de pensar que Deus é justo, que leva em conta as nossas fraquezas, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa natureza. Portanto, de que eu teria medo? Ah! O Deus tão justo que se dignou perdoar com tanta bondade todas as faltas do filho pródigo, não deve ser justo também para comigo que estou sempre com ele?” (Man. A, 237)

Sim, a justiça de Deus não significa a crua aplicação das leis divinas, mas a consideração da extrema fragilidade dos réus. Digo, dos filhos…

Orai sem cessar: “Todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade!” (Sl 25,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.