DIA 24 DE MARÇO – TERÇA-FEIRA

Evangelho (João 8,21-30)

8 21 Jesus disse aos judeus fariseus: “Eu me vou, e procurar-me-eis e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou, vós não podeis ir”.
22 Perguntavam os judeus: “Será que ele se vai matar, pois diz: ‘Para onde eu vou, vós não podeis ir’?”
23 Ele lhes disse: “Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo.
24 Por isso vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado”.
25 “Quem és tu?”, perguntaram-lhe eles então. Jesus respondeu: “Exatamente o que eu vos declaro.
26 Tenho muitas coisas a dizer e a julgar a vosso respeito, mas o que me enviou é verdadeiro e o que dele ouvi eu o digo ao mundo”.
27 Eles, porém, não compreenderam que ele lhes falava do Pai.
28 Jesus então lhes disse: “Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis quem sou e que nada faço de mim mesmo, mas falo do modo como o Pai me ensinou.
29 Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, porque faço sempre o que é do seu agrado”.
30 Tendo proferido essas palavras, muitos creram nele.

Palavra da Salvação.

Meditando a Palavra

Sou do alto… (Jo 8,21-30)

Diante da figura humana de Jesus, os judeus de seu tempo experimentavam a mais absoluta in-compreensão. “Quem é esse homem?” (Cf. Mc 4,41) E é compreensível a sua estranheza, pois ele destoava dos padrões convencionais. Jesus não havia estudado nas escolas farisaicas, mas dominava a Lei como ninguém. Falava com sotaque de galileu, mas superava a mais refinada filosofia clássica. Vivera trinta anos como carpinteiro, mas deixava sem saída os doutores da Lei.

Claro, a in-compreensão dos contemporâneos (aqui incluída a própria “família” de Jesus, cf. Mc 3,1) brota de sua incapacidade de ir além da aparência humana, terrestre, do estranho Rabi. Na verdade, ele só poderia ser corretamente entendido a partir do momento em que o re-conhecessem como alguém que é “do alto”. E Jesus se apresenta como quem não é aqui “de baixo” (ek ton káto, da região inferior) como seus ouvintes, mas lá “de cima” (ek ton áno, da região superna, isto é, do céu).

Barrentos que somos, filhos de Adão, tentamos reduzir tudo às dimensões do húmus (humanas, claro!). E diante de nós, no entanto, está Aquele que “desceu” do Altíssimo e assumiu nossa humanidade, mas permanece divino, superando tudo aquilo que a humana ciência poderia dizer sobre o Cosmo, a matéria e… o psiquismo humano. Os olhos da carne jamais e as elucubrações da mente não chegam lá…

Por isso mesmo, em vão se esforçam os céticos na tentativa de reduzir o Jesus “que vem do alto” a alguma das categorias aqui de baixo: um sábio, um cérebro superior, um “iluminado”, um homem bonzinho tão maltratado, um E.T., um grande líder, um guerrilheiro – sabe-se lá que mais!

Daí a frase aparentemente hermética que Jesus falou a Nicodemos (Jo 3,1-21), na escuridão da noite: “Necessário vos é nascer do alto” [gennethẽnai ánothen]. Enquanto não nascemos do Espírito e permanecemos orientados por uma visão simplesmente terrestre e material, Jesus permanecerá um enigma para nós…

E quando esse re-nascimento nos for dado (você o quer?), nosso coração será invadido por um sentimento da mais suave gratidão, da mais luminosa alegria, pois então saberemos que Aquele que era “do alto” desceu e veio a nós: “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).
Na Ascensão, subindo de volta ao Pai, Jesus abre-nos o caminho para a mesma subida, vivendo (desde já) como quem busca o alto. E entenderemos o conselho de Paulo: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto…” (Cl 3,1)

Orai sem cessar: “Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus.” (Sl 122,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.