Eu vos levarei comigo… (Jo 14,1-6)

A liturgia da Igreja Católica reserva um dia especial para a comemoração dos fiéis defuntos. É o dia de Finados. E não é difícil que esta data se desfigure em uma espécie de celebração da morte, o que não é – de modo algum – a intenção da Igreja. Por isso mesmo, a reforma litúrgica realizada pelo Concílio Vaticano II teve o cuidado de suprimir os paramentos negros e aposentar o “Dies Irae” [dia de ira], a célebre sequência da missa que falava em um mundo desfeito em cinzas, trombetas apocalípticas, um juiz inclemente e lamentações universais.

Basta examinar os Prefácios disponíveis para a celebração eucarística e as leituras escolhidas para verificar que o motivo dominante é a ressurreição da carne, a nova imersão na vida que o Ressuscitado nos reserva além das fronteiras da morte. Um dos prefácios assegura que “a vida não é tirada, mas transformada” [vita mutatur, non tollitur].

Neste Evangelho de João (um dos textos oferecidos para nossa escolha), Jesus pretende eliminar toda perturbação que nos costuma abalar com a experiência da morte. Aquilo que, para um pagão, parece um beco sem saída, para o cristão é uma “páscoa”, uma “passagem” da vida provisória para a vida definitiva.

Em sua linguagem quase poética, Jesus nos diz que “há muitas moradas na casa do Pai”. Ora, as casas não existem para os mortos, mas para os vivos, sinal de que nossa vida não se extingue com a morte. A passagem de Jesus, com sua morte e ressurreição, tem a finalidade de preparar para nós, membros de seu Corpo, a definitiva morada que é o mergulho luminoso no seio de Deus.

É uma pena que tantas pessoas rezem o Símbolo dos Apóstolos e repitam sempre os mesmos mistérios de fé, mas continuem vivendo como se não cressem neles. “Creio na ressurreição da carne, creio na vida eterna.” Sem dúvida, é louvável o costume de visitar o cemitério e rezar pelos mortos, mas é importante lembrar que eles já não estão ali… O fiel que morreu em comunhão com Cristo permanece vivo no coração de Deus. Permanece em comunhão conosco, aquela “comunhão dos santos” – isto é, dos batizados – que afirmamos crer quando rezamos o mesmo Símbolo.

E Jesus acrescenta: “Eu voltarei e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais vós também”. Esta certeza de que a morte foi vencida e já não tem poder sobre nós deveria transformar o pranto em festa, o luto em júbilo, a perturbação em paz.

Teria Jesus morrido em vão?

Orai sem cessar: “Senhor, tu tornarás a me dar vida!” (Sl 71,20)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.