30/04/2015

Eu vos lavei os pés… (Jo 13,16-20)

Se a história humana inclui um ato de rebeldia, um grito de autonomia, desde o seu início (cf. Gn 3), não admira que sejamos mais dispostos a dar ordens do que a obedecer, a mandar que servir. No centro, a questão do poder.

Ao longo dos séculos, o “poder” tem-se concentrado na posse da terra, na superioridade das armas, no capital acumulado, no domínio da informação. Reis e imperadores davam ordens. Generais e exércitos dominavam. Banqueiros e capitalistas tomavam decisões. Sábios e doutores manipulavam as mentes. Os outros, obedeciam e faziam o trabalho pesado.

Jesus, Mestre e Senhor, veio implodir o sistema. Na Ceia Pascal, ele retira o manto (símbolo de poder), prende uma toalha na cintura (como um servo) e põe-se a lavar os pés de seus discípulos (como um escravo)… Imaginem o mal-estar de seus seguidores, os mesmos discípulos que, mais de uma vez, andaram discutindo qual deles seria o vice-rei e o primeiro ministro quando Jesus instaurasse o seu Reino em definitivo!

É natural que os filhos queiram a glória de seu pai. Que os empregados se orgulhem do sucesso de seu patrão. Que o povo admire a grandeza de seus reis. E ali, bem diante de seus, olhos está um Guia, Senhor e Mestre que faz um “papelão”, humilhando-se de forma jamais vista. Pior: findo o exercício de “pobreza”, o Mestre põe-se a ensinar: “Assim como eu vos fiz, fazei também vós, uns aos outros!” É provável que eles se tenham entreolhado. Primeiro no rosto. Em seguida, nos pés… E lutaram contra os sentimentos que vinham à tona de seu coração rústico de galileus…

Não é fácil também para a Igreja. É permanente a tentação de gloriar-se com os cargos e os ministérios. Ou o risco de criação de castas superiores e inferiores. E de se perder o sentido primitivo de palavras como “ministro” [em latim, minister: servidor] ou “diácono” [do grego diákonos: garçom]. A palavra “ministro” vem de “menos” [minus]: assim sendo, quem ministra não deve sonhar com “mais” honra, “mais” poder e “mais” destaque. Ministro serve como um garçom… O atual exemplo do Papa Francisco nos anima a rever nossas atitudes em relação ao poder e ao serviço.

Um título do Papa é o de “servus servorum Dei” – o servidor dos servidores de Deus. Já nosso amado João Paulo II vestia bem este múnus: superando todas as limitações (quando muitos optariam por um justo e merecido repouso), ele insistiu em servir a Deus e à Igreja, gastando os últimos alentos de sua vida, atravessando o planeta em todas as direções e – como Jesus – dando-nos o modelo de vida.

Diante de tudo isso, devemos examinar nossa consciência e verificar: minha religião faz de mim um servidor? Ou um patrão?

Orai sem cessar: “Senhor Jesus, ensina-me a servir!”

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.