Ao transmitir esta alegoria a seus discípulos, possivelmente Jesus tivesse em mente o frontão do Templo de Jerusalém, onde se erguia na época o símbolo de Israel: uma videira de ouro. Aliás, no Antigo Testamento, acha-se o mesmo símbolo para designar o Povo Escolhido. Em Isaías 5, o “Cântico da Videira” registra a decepção do Senhor por não encontrar frutos na vinha em que ele investira suas esperanças…

Aqui, Jesus deixa claro que ele, sim, é o verdadeiro Israel, nele está sintetizado o “Povo de Deus”. E só participam desse povo aqueles ramos que nele estão enxertados. Quem se deixa amputar desse Tronco perde a “seiva” do Espírito Santo, perde o contato com a Fonte de Vida para murchar, secar e ir ao fogo.

Os iconógrafos do Oriente, evidentemente inspirados pelo apóstolo Paulo, viram nesta alegoria uma imagem da Igreja, onde Cristo é o tronco e nós somos os ramos. De fato, estamos diante de um mistério de “comunhão” [koinonia]. Mantendo uma “vida comum” com Cristo, nós somos Igreja. Fica, pois, evidente a necessidade de uma simbiose com Cristo, uma participação em sua vida, sempre renovada pelo contato permanente com sua Palavra e seus Sacramentos.

Natural, esta simbiose proporciona o surgimento de frutos, um deles em especial: “o fruto da unidade orgânica de Cristo e dos seus, sua união no amor” (L. Bouyer) E uma virtude se destaca como sinal dessa pertença ao Tronco: a obediência, marca essencial da dependência humana em relação a Deus.

Vale acrescentar que Jesus não escolheria ao acaso esta imagem da videira para falar de si mesmo. A vinha supõe a ideia de plantação que exige cuidados. Além disso, a vinha produz o vinho, imagem do sangue derramado por nossa salvação. Ainda que veladamente, Jesus antecipa seu sacrifício.

O mesmo vinho inebria, inflama, aquece os corações, afastando a frieza que entorpece e paralisa o homem. Alusão à ação do Espírito Santo, sem o qual a Igreja iria estagnar-se, incapaz de anunciar a Boa Nova, incapaz de dar frutos de salvação.

Orai sem cessar: “Graças mim é que produzes fruto!” (Os 14,8b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.