Estais muito errados! (Lc 20,27-40)

Esta passagem do Evangelho tem um ar de absoluta raridade: é uma das poucas (talvez a única!) em que Jesus afirma diretamente a alguém: você está errado! E trata-se exatamente de um erro muito difundido em nossos dias: a negação da ressurreição da carne.

Mistério de fé proclamado no Símbolo dos Apóstolos, a ressurreição da carne surge muitas vezes no ensinamento de Jesus. Em resumo, é a certeza de que, no fim dos tempos, quando o Senhor vier em glória para julgar os vivos e os mortos, todos os mortos serão revestidos de um novo corpo, agora incorruptível. (Jo 6,39-40.44.54; 11,24; 1Cor 15,37ss; 1Ts 4,16.)

No Evangelho de hoje, os saduceus – que não criam na ressurreição e em uma vida após a morte – tentam envolver Jesus em uma grosseira armadilha, imaginando a situação extrema (e ridícula) de 7 irmãos que se casam, sucessivamente, com a mesma mulher (um Barba-Azul de saias!), o que criaria um impasse insolúvel na eternidade: qual dos sete ficaria com a esposa no outro mundo, após a ressurreição?

Jesus foge ao laço de seus adversários com dois princípios: 1) na eternidade, nós seremos “como anjos”, isto é, vencida a barreira da morte, já não haverá oportunidade para a procriação humana, objeto do casamento aqui no tempo, para permitir a sobrevivência do gênero humano; 2) se os mortos estão “mortos”, e não ressuscitam, como é que o próprio Deus se apresenta na Escritura como “Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó”, que já morreram? Seria Ele um Deus dos mortos?

Assim, com apenas duas raquetadas, Jesus reduz ao ridículo a arapuca dos saduceus e, com ironia, demonstra que os “doutores” desconhecem a sua própria Bíblia… Depois de passar vergonha em público, já não ousavam interrogá-lo (cf. v. 40).

Com a difusão de teses espíritas e a adoção de modismos orientais, ligados ao hinduísmo e ao budismo, muitos católicos começam a pensar na ideia da reencarnação como uma boa “saída” para certos dilemas existenciais e até filosóficos. Ora a reencarnação (vidas sucessivas da mesma alma espiritual em um novo corpo, a cada encarnação!) é incompatível com a doutrina cristã e com as lições da Escritura. Jesus fala sempre na Ressurreição e jamais se refere à possibilidade da reencarnação. A Carta aos Hebreus afirma que só se vive uma vez (Hb 9,27), com o juízo particular imediatamente após a morte.

Além do mais, se fosse necessário passar por diversas vidas para, sofrendo e penando, purificar-se e merecer o céu, a morte salvífica de Cristo na cruz teria sido absolutamente inútil e sem efeito. Para quem afirma a reencarnação, vale a mesma frase de Jesus: “Estais muito errados!”

Orai sem cessar: “Na minha própria carne, verei a Deus!” (Jó 19, 26)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.