Erguei a cabeça! (Lc 21,25-28.34-36)

Primeiro domingo do Advento. Outra vez? Sim, ainda vivemos na expectativa do Senhor que vem. E aqui está a nossa “diferença”: o cristão é alguém que espera…

O pagão discorda. Vive (e curte) apenas o dia de hoje. Esperar para quê? – pergunta o pagão, com um ríctus de ceticismo. “Há tanto tempo que nos prometem a aurora, mas a noite continua…”

Claro que isto tem conseqüências práticas: se o amanhã não vale a pena, que mal há em explorar os recursos naturais de modo predatório? Se será sempre noite, para que gerar filhos e abandoná-los às trevas? Se a vida é “só isto que se vê”, por que não preferir a morte?

Mas Jesus nos desafia a continuar na expectativa: “Erguei a cabeça! Ficai atentos!” Claro que a nossa esperança será superada, pois o mistério que Deus nos reserva vai muito além da humana imaginação. “O que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum pressentiu.” (1Cor 2,9)

Entretanto, a esperança cristã é uma esperança ativa: nós emprestamos a Deus as nossas mãos para a sua obra. François Trévedy, monge beneditino, comenta: “Se verdadeiramente nós esperamos um mundo novo, cabe também a nós trazê-lo ao mundo. Se verdadeiramente nós esperamos por Cristo, é nossa tarefa pô-lo no mundo assim como se põe o fogo. Deus não atenderá o nosso desejo de vê-lo ‘rasgar os céus’ (Is 63,19), se não aceitamos que um esforço rasgue a nós mesmos em nosso íntimo. A espera – a verdadeira espera – acaba sempre por rasgar: a mulher sabe disso por experiência”.

Se existe algo que a esperança cristã não inclui é o imobilismo, a passividade, o “laissez aller”. E se o Evangelho de hoje fala de sinais cósmicos, de bramidos do mar e do abalo das potências celestes, eles já estão presentes no noticiário da TV. Não precisamos pedir nenhum sinal adicional para erguer a cabeça à espera da prometida libertação.

Como diz Trévedy, estes sinais estão aí menos para nos paralisar do que para nos despojar, nos despertar, nos advertir. Em vez de obscurecerem Deus para nós, eles deveriam abrir em nós uma clareira para que apareça o Seu Semblante, desconcertante de ternura e de pobreza, assim como o inverno despoja as árvores para que, através delas, possamos ver a noite.

Orai sem cessar: “Se de tarde vem o pranto, de manhã vem a alegria.” (Sl 30,6)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.