“Ephphatha!” (Mc 7,31-37)

Um dos títulos do Senhor Jesus é o de “Libertador” (aliás, sinônimo exato de “Redentor”, pois “redimir” significa “quebrar os elos da corrente” que prendia o escravo). Uma reação de defesa contra certas “teologias da libertação” pode levar-nos a perder a inestimável riqueza deste título. No Evangelho de hoje, este aspecto da missão de Jesus é evidenciado quando “se abriram os ouvidos e se desatou a cadeia (vinculum, em latim) da língua” do surdo-mudo.

Um comentarista atento já observou que a palavra aramaica – ephphatha – pronunciada por Jesus em tom imperativo, sendo formada de um fonema labiodental redobrado, seria facilmente compreendida até por um surdo. Sua pronúncia já inclui a forte emissão de um sopro na direção do ouvinte.

E a libertação do deficiente foi imediata: o surdo-mudo se pôs a falar e a apregoar o nome de Jesus. Antes, mudo; agora, evangelizador! Uma cura orientada para a missão!

Não é exagero ver nas curas de Jesus uma espécie de “iniciação” na fé por parte daqueles que foram agraciados com os milagres. Afinal, o mesmo imperativo – ephphatha – foi incluído pela Igreja primitiva no ritual da liturgia do Batismo, quando o ministro do sacramento sopra sobre a criança, abrindo seus ouvidos para a Palavra de Cristo. Aquele que foi batizado transforma-se em ouvinte privilegiado do Verbo de Deus.

Hoje, vinte séculos depois, muita gente se queixa de estar “amarrada”. Surgem até especialistas em “desamarrar”. Muita gente pede “oração de libertação”. Experimentam frequentemente uma espécie de prisão que lhes tolhe os movimentos na direção de Deus. Uma vaga preguiça para a oração, um “fechamento” da inteligência que transforma a Bíblia em uma sucessão de enigmas indevassáveis, ou terrível malha de rotina que impede a penetração nos símbolos e sinais da liturgia.

É a hora de se aproximar de Jesus e pedir que ele perfure o tímpano espiritual que nos faz surdos. Que ele corte as amarras de nossa língua presa, que nos impedem de anunciar o Evangelho. E rompa as teias de pecado que paralisam nossos pés diante da TV…

Como na Sequência de Pentecostes, rezemos: “Envergai o rígido, aquecei o frígido, conduzi o errante!”

Orai sem cessar: “Senhor, abre meus lábios, e minha língua proclamará o teu louvor!” (Sl 51,17)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.