Entre vós não seja assim… (Mt 20,17-28)

Diferentemente do Evangelho de Marcos, que coloca o pedido de honrarias diretamente na boca de Tiago e João, São Mateus nos apresenta a requisição de lugares de honra através da mãe dos dois apóstolos. Mas ninguém consegue enganar o Mestre! Jesus logo percebe que por trás da solicitação da mãe está, na verdade, a ambição dos dois filhos. E a reserva e a visível timidez do comportamento da mãe e dos filhos acabam por trair a consciência torta de todos eles.

Nem tudo, porém, é sombra neste episódio. O fato de terem feito esse pedido a Jesus, no fundo, constitui um ato de fé. Eles realmente criam que Jesus iria instaurar o seu Reino, onde, com certeza, teríamos trono, cetro e poder. E, claro, um primeiro-ministro e um vice-primeiro-ministro. Daí a solicitação que fizeram. Afinal de contas, não parece haver nada de errado em pegar uns respingos da dignidade real do Senhor Jesus…

Ah! Vencer com Cristo! Reinar com Cristo! Dominar com Cristo! Com Jesus, somos mais que vencedores!!! Esta religião é seguida por muitos… Mas aqueles que se deixam trair por ela são os mesmos que irão debandar ao surgir a primeira provação, incapazes de abraçar a cruz…

Por outro lado, se nós levamos em conta as palavras de Jesus que antecedem o tal pedido de honrarias, é hora de ficarmos perplexos. Afinal, Jesus Cristo acabara de anunciar profeticamente a sua própria morte, acompanhada de prisão, zombaria e tortura! Pobre Jesus! Enquanto ele fala de cruz, os apóstolos estão de olho na glória!?

Daí o comentário de Jesus, certamente acompanhada de um balançar da cabeça… “Vocês não sabem o que estão pedindo! Será que vocês podem beber o cálice – isto é, a Paixão, o sofrimento… – que eu vou beber?”

Jean Valette sugere que nossas orações deviam começar pela meditação da frase: “Não sabemos o que pedimos…” O próprio apóstolo Paulo diria: “Não sabemos rezar como é preciso!” (Rm 8,26) Só com o Espírito Santo chegaremos a purificar nossas orações do fundo distorcido que jaz em nosso interior: egoísmo, busca de facilidades, fuga do sofrimento, expectativa de segurança e tranquilidade…

E a resposta de Jesus aos dois apóstolos, e não à mãe deles, pois o Mestre logo percebeu a fonte da bobagem! – já deixava claro que é uma ilusão querer participar da glória do Rei sem, antes, participar de sua humilhação. E mais: a glória de Jesus não iria se manifestar no trono, mas na Cruz. O verdadeiro trono de Jesus seria o Calvário!

Aí, sim, vem a horar de reinar com Cristo…
Orai sem cessar: “O mundo está crucificado para mim!” (Gl 6,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.