Encheu-se de compaixão… (Mt 9,36 – 10,8)

Vai longe o tempo em que Deus era apresentado como um ser ameaçador: – “Papai do céu não gosta de menino que faz coisa feia!” Alguém resolveu ler o Evangelho e viu que o pai recebe o filho pródigo com beijos e anéis e música e churrasco. E descobriu que o Pastor abandona 99 ovelhas no deserto para recuperar a centésima perdida no atoleiro. E viu – surpreso! – que o Pai entregava à morte o próprio Filho para nos salvar do caos eterno…

Este Evangelho confirma para nós que, desde a Encarnação, Deus tem “entranhas de misericórdia”, sente um frio na barriga diante do abandono de seu povo, derrama a taça de seu sangue para todos tenham vida.

Hébert Roux comenta esta passagem: “A multidão se espanta, se entusiasma, se apressa para ver e para ouvir, mas não sabe que Jesus está ali ‘por causa dela’. Ela se mostra ‘cansada e abatida como ovelhas que não têm pastor’. O sofrimento físico e material desses errantes que se prendem aos passos de Jesus é, para ele, o sinal de um sofrimento ainda mais profundo: ele revela o estado de abandono em que se encontra o povo de Deus, a casa de Israel privada de verdadeiros pastores.

Esta imagem, retomada e desenvolvida pelo 4º Evangelho (cf. João 10), seguramente é inspirada pelo Antigo Testamento: já se encontra no Livro dos Números, quando Moisés estabelece Josué como seu sucessor, ‘a fim de que a assembleia de Israel não seja como ovelhas que não têm pastor’ (Nm 27,17).

Assim, a compaixão de Jesus pelas multidões não é inspirada apenas por uma piedade humanitária, mas se identifica com a misericórdia de Deus para com seu povo, em favor do qual se manifesta agora a suprema compaixão pela vinda do Messias: ‘As entranhas de misericórdia de nosso Deus se emocionaram’, declara o cântico de Zacarias (cf. Lc 1,78).

Esta evocação profética e messiânica chama por outra: a da colheita, frequentemente empregada pelo Antigo Testamento para descrever a vinda do “Dia do Eterno” e seu julgamento (cf. Is 9,2; Jr 51,33; Jl 3,13). Também João Batista compara o Messias a um ceifador que ‘recolhe seu trigo nos celeiros’ (Mt 3,12), e as parábolas do capítulo 13 nos mostram que também Jesus identificou o tempo da colheita com o ‘fim do mundo’ e a chegada do Reino.

É para não deixar que a colheita se perca que Jesus convoca e envia seus apóstolos. Iremos nós?

Orai sem cessar: Se pai e mãe me abandonam, acolhe-me o Senhor!” (Sl 27,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.