Em um lugar deserto… (Lc 9,11b-17)

Deus gosta de agir no deserto. No burburinho das torcidas de futebol, na agitação dos shopping-centers, não há muito espaço para Deus agir. Os olhares estão todos ocupados, fixos em outra direção. No reino da abundância, lá onde não existe fome, para que multiplicar o pão?

Ao contrário, naquele espaço onde o homem se encontra só, mergulhado na solidão, esquecido de todos, eis que Jesus já se apronta para entrar em ação… Mesmo que seja aquele tipo de aguda solidão que se experimenta no meio da turba impessoal, no “solitário andar por entre as gentes” (Luís de Camões), “nesta cidade do Rio / de dois milhões de habitantes” (Drummond).

Neste Evangelho, a noite começava a cair, roubando a luz do dia. Os peregrinos que vieram de longe começam a experimentar a fome. Os enfermos foram curados e correram atrás da palavra de vida que só Jesus lhes podia dar.

No seu encantamento, deixaram a segurança de suas casas e agora se expõem ao terreno inóspito, áspero, pedregoso.

A terra onde as pedras podem ser transformadas em pães…

Enquanto os discípulos mais próximos usam a calculadora para avaliar de quantos pães iriam precisar, Jesus manda que a turba se sente e participe do banquete grátis, pois a comida de Deus sempre nos vem de graça. Nada que se obtenha com esforço pessoal, puro dom…

“Aqui, ainda uma vez – comenta André Louf – ocorre um Êxodo de pessoas que deixam tudo diante da urgência do amor. Há o deserto no qual penetram e onde se encontram sem reservas e sem recursos. Com a chegada da noite, vem a tentação de deixar tudo, refazer o caminho e ganhar lugares mais acolhedores. Mas ali mesmo acontece o admirável e maravilhoso diálogo entre Jesus e seu povo. A multidão presa e cativada pela Palavra, e Jesus emocionado e virado do avesso pelo sofrimento da multidão. Um afetado pelo outro, Jesus e a multidão; um à margem do outro, abandonado ao outro nesse lugar alto do diálogo em que se torna o deserto. ‘Eu a conduzirei ao deserto – dissera Deus por meio do profeta Oseias – e lhe falarei ao coração.’”

Será que os “agentes de transformação” conseguirão perceber a lição? Deixarão de superdimensionar seu próprio “compromisso social”, como se ele bastasse para salvar a humanidade? Irão notar que a escuta da Palavra de Jesus sempre antecederá o pão multiplicado? Hão de lembrar-se de nações onde já não falta pão – como na Suécia e no Japão – mas o deserto dos homens é cada vez maior?

Orai sem cessar: “O Senhor guiou seu povo no deserto…” (Sl 136,16)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.