Eles não são do mundo… (Jo 17,11b-19)

Em sua oração ao Pai, às vésperas de seu sacrifício no Calvário, Jesus fala a nosso respeito. Pede que o Pai nos guarde. E declara que nós pertencemos a Ele, não ao mundo. O Pai nos confiou a seu Filho, e nos tornamos sua herança, despojos tomados ao inimigo no mais áspero combate.

Claro. Depende de nós, agora, permanecer como pertença exclusiva de Jesus. Estranhamente, somos livres para trair e trocar o Amor por amores… A liberdade que Deus nos concedeu estende à nossa frente uma encruzilhada sempre renovada. Tal como lemos no Salmo 1, que serve de pórtico para o Saltério, sempre teremos “dois caminhos” à nossa frente. Em nossa existência, caminhamos em uma estreita fímbria entre o bem e o mal, entre a vida e a morte.

O príncipe deste mundo, a sociedade pagã e nossa própria carne insistirão em apresentar sugestões que, se aceitas, representarão uma ruptura de nossa relação filial com o Pai e uma radical subversão do senhorio de Deus em nossas vidas. Tais propostas ocultam uma ilusão de autonomia, de rebeldia e não-dependência, a exemplo dos anjos decaídos antes da criação do homem.

Quando Jesus diz ao Pai que nós não somos deste mundo, não sugere que sejamos ET’s, marcianos ou seres desencarnados de natureza angelical. Estamos no mundo e temos com ele uma profunda comunhão: respiramos seu ar, bebemos a água de suas fontes e vivemos no tempo. Estamos igualmente em comunhão com os grupos humanos, participando de suas obras e empresas. Não ser do mundo é outra coisa.

O “mundo” ao qual não pertencemos é aquele espaço social e temporal onde Deus não é o primeiro, sua vontade não é obedecida e onde predominam os valores opostos ao Evangelho. Ali “reinam” outros poderes, como o dinheiro, o poder político, a fome de prazeres, a ânsia de glórias.

No “mundo” de Deus, ao contrário, caminham o pobre Francisco de Assis e a casta Maria Goretti. Aqui, Teresa de Calcutá serve aos mendigos e Dom Orione educa os miseráveis. Aqui, uma multidão silenciosa abraça a cruz de cada dia e troca os atrativos mundanos pela ardente paixão por Jesus Cristo, uma paixão que ofusca todas as luzes e desmascara a sedução das glórias passageiras. Aqui, perder é ganhar…

E nós? A que mundo pertencemos?

Orai sem cessar: “Considero tudo isso como lixo, a fim de ganhar a Cristo!” (Fl 3, 8b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança