Eles não fizeram caso… (Mt 22,1-14)

Um Rei celebra as bodas do Filho. Por meio dos seus servos, envia honroso convite àqueles que o próprio Rei selecionara para o banquete. O Rei desta parábola é Deus. O Filho é o Messias esperado pelos hebreus. A imagem do “banquete” é uma daquelas figuras que o Antigo Testamento utiliza repetidamente para anunciar os tempos messiânicos, tempos de fartura, de leite e mel, de vinhos velhos e carnes medulosas… (Cf. Is 25,6; 55,2; Jl 2,19; Zc 8,12.)

Aqui ocorre uma fratura na narrativa. Os convidados recusam o convite, pois têm outros interesses, ocupações que não devem interromper: campos a trabalhar e negócios a realizar. Desprezando o excepcional favor que lhes é oferecido, chegam ao extremo de ultrajar e assassinar os enviados do Rei.

Quem seriam os enviados, portadores do convite real? São os profetas. Perseguidos como Jeremias, decapitados como João Batista. Quem são os convidados preferenciais? O povo de Israel, “preferido” de Deus, ao qual “foram dadas a adoção, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas e os patriarcas” (cf. Rm 9,4-5).

Estamos, aqui, diante de um terrível mistério: o mistério da recusa de Deus. A recusa da salvação. Em sua liberdade, o homem pode abraçar o mal e rejeitar o bem. Pode repelir a luz e mergulhar nas trevas. Nesse sentido, poderíamos afirmar que Deus não nos condena, mas nós mesmos nos condenamos quando escolhemos outro deus, um outro senhor, que pode ser o dinheiro, o poder, a fruição dos prazeres ou, enfim, nosso próprio EU.

A segunda parte da parábola mostra o afã do Rei em não deixar vazia a sala do banquete. Desta vez, são “ajuntados” os que estão à margem os “de fora”, que vagueiam pelos caminhos e encruzilhadas. Diante da recusa de Israel, também aos “pagãos” – “os que não eram povo” – é oferecida a veste branca, que S. Gregório Magno interpreta como a virtude da caridade.

Nós, cristãos e batizados, temos algo em comum com o povo hebreu da Primeira Aliança: nós nos sentimos especiais, privilegiados, especialmente quanto comparamos nosso culto com as práticas dos animistas, com seus fetiches, ou com os hindus e seus rituais de purificação.

Cuidado! Podemos cair na armadilha criada por nosso próprio orgulho. Depois de décadas de missas e orações, meditações e penitências, podemos cair na ilusão de que Deus nos deve algo e – num acesso de loucura espiritual – apresentar ao Senhor uma fatura, cobrando a salvação. Ora, o banquete é puro dom. Pura graça. Nada merecido. Nada conquistado com suor e sacrifícios. Tão gratuito quanto a entrega de Jesus, em sua Paixão: puro ato de amor.

Amor com amor se paga…

Orai sem cessar: “Preparas uma mesa para mim…” (Sl 23,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.