Ele declarava puro todo alimento… (Mc 7,14-23)

No tempo de Jesus, os fariseus haviam sobrecarregado o povo com pesado fardo de preceitos rituais, vários deles relacionados ao conceito de “pureza”. Havia até “profissões impuras”, como o trabalho do curtidor e do pastor. Esbarrar em um túmulo tornava a pessoa impura. Havia um rígido ritual de higiene antes das refeições, a ponto de censurarem os discípulos de Jesus por comerem pão sem lavar as mãos.

Jesus se vale da ocasião para mostrar que não são as coisas “de fora” que podem tornar o homem impuro, mas as coisas “de dentro”, como as más intenções e o orgulho. De nada vale uma pureza exterior que não corresponda à pureza interior. Aliás, não é à força de uma rígida ascese que iremos progredir na graça. Eis o ensinamento de Barsanufo de Gaza [ca. 543 d.C.?] a um ancião, cuja saúde já não lhe permitia jejuar, e se preocupava com isso:

“Não é por desprezo da abstinência nem da ascese que eu insisto em dizer à tua caridade que cuide como é necessário das necessidades de teu corpo. Deus me livre! É que, se a atividade interior não vem em ajuda ao homem, depois de Deus, este se fatiga em vão exteriormente. É por esta razão que o Senhor diz: ‘Não são as coisas que entram na boca que sujam o homem, mas aqueles que saem da boca’.

De fato, a atividade interior vivida com a compunção do coração produz a pureza; a pureza traz a verdadeira quietude do coração; esta quietude traz a humildade, e a humildade faz do homem a habitação de Deus. Desta morada são banidos os demônios perversos e seu chefe, o diabo, com suas paixões vergonhosas, e o homem se torna, então, um templo de Deus, santificado, iluminado, purificado, enriquecido de graças, pleno de todo bom odor, e até mais, ele se torna deus, segundo esta palavra do salmo: ‘Eu disse: vós sois deuses, e sois todos filhos do Altíssimo’. (Sl 82,6)

Assim, não fiques perturbado pelo pensamento ou, antes, pelo Maligno que te sugere que os alimentos corporais te impedem de chegar às promessas. De modo algum! Esses alimentos são santos, e de uma coisa boa não pode sair o mal. Aquilo, porém, que sai da boca e que vem do coração, eis o que entrava o homem e o impede de atingir as promessas que lhe foram apresentadas.

Cuida, pois, das necessidades do corpo sem hesitação, mas que toda a força de teu homem interior trabalhe para humilhar os pensamentos que te ocorrem. Então, Deus abrirá os olhos de teu coração a fim de que vejas a verdadeira luz e digas conscientemente: ‘É por graça que eu sou salvo’ (Ef 2,5) no Cristo Jesus, nosso Senhor. Amém.”

Corremos o risco de adotar uma “espiritualidade” que atribua nosso progresso espiritual e nossa salvação a certo número de ritos e práticas, como se não fossem pura graça de Deus…

Orai sem cessar: “O Senhor concede graça e glória!” (Sl 84,12)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.