17/02/2019 – É vosso o reino de Deus! (Lc 6,17.20-26)

Como é bom ouvir esta promessa! Promessa, não: garantia! Existe um reino – não um reinado qualquer, mas reino de Deus! – à nossa espera. À espera de quem? Ora, está bem claro no Evangelho Lucas: à espera dos POBRES…

E quem são esses pobres, que o Evangelho chama de bem-aventurados, de felizes, porque Deus lhes reserva a participação em seu reino? A resposta nos bem do biblista Helmut Gollwitzer:

“O Reino de Deus é o mundo de cabeça para baixo. Tanto as beatitudes como as maldições correspondentes revelam esta verdade nas contradições que elas encerram. Assim sendo, teremos o cuidado de não atenuar essa oposição. Todos os conceitos amargos ou gloriosos devem ser tomados em seu sentido inicial. Os POBRES são verdadeiros pobres, ‘miseráveis’ segundo a expressão dos Salmos. Lucas (que parece dar aqui a forma mais primitiva do texto) omite limitar o conceito de “pobre” (como o faz Mateus) ao de pobre em espírito. O pobre é aquele a quem falta o minimum vital, aquele minimum que os discípulos deixaram para seguir a Jesus.”

Este comentário destoa seriamente de grande parte das pregações que temos ouvido, geralmente amaciando as exigências do Evangelho e tornando a mensagem cristã um xarope hidroaçucarado. Mas Gollwitzer prossegue:

“Os discípulos se tornaram pobres no sentido mais pleno da palavra, pobres de dinheiro, de consideração, de poder, e mesmo da justiça dada pela Lei: todas estas coisas necessárias, eles as abandonaram; são estes os pobres que Jesus considera como ‘bem-aventurados’. Não se deve atenuar coisa alguma.”

Mergulhados em um caldo de cultura capitalista – cujos ingredientes são a conta bancária, a poupança, os investimentos, a Bolsa de Valores, o plano de saúde e todas essas quinquilharias que ocupam nossa mente e nosso tempo -, acabamos por trocar a Providência divina pela Previdência humana. E assim, claro, tentamos neuroticamente servir a dois senhores, sem admitir que nosso coração permanece ali onde está nosso tesouro…

Chamaram-me para fazer uma palestra em curso de teologia para leigos. Deram-me o tema: “Desafios atuais da Igreja”. Escolhi três, um deles a pobreza. Santa pobreza, sem a qual a missão da Igreja é impossível. No final, palavra livre, um senhor segurava a raiva para perguntar: – “Por que eu não posso ser rico? Por que eu não posso ter várias casas e carros?” Que responde você?

 

Orai sem cessar: “O temor do Senhor é seu verdadeiro tesouro…” (Is 33,6b)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.