E soprou sobre eles… (Jo 20,19-31)

Diante do grupo dos discípulos que ainda hesitam entre o medo dos judeus e a fé no Ressuscitado, Jesus se mostra inesperadamente diante de seus olhos. Ele percebe que estão tensos, respiração opressa, quase sem ar. Eles precisam de um novo hálito, um Sopro especial…

Ora, Jesus Cristo é o portador do Sopro. Pneumatóforo. Ele estava presente na Criação do primeiro homem, servindo de modelo ao Pai plasmador. E João, o autor deste Evangelho, diz claramente que Jesus “soprou” [no texto grego, enephysêsen]. Trata-se de um verbo raríssimo na Escritura, aparecendo no Gênesis (1,2; 2,7), quando o Criador “sopra” o espírito de vida nas narinas do primeiro homem, até então inerte boneco de barro, mas em seguida um “ser vivente”.

O mesmo verbo aparece ainda em Ezequiel 37, quando o Senhor convida o profeta a soprar sobre as ossadas calcinadas pelo sol do deserto, e os ossos se juntam, cobrem-se de carne, nervos e pele, e um exército de põe de pé, revivificado.

Na reflexão de André Scrima, “isto já nos permite compreender a intenção de João: trata-se de inaugurar a nova Criação por meio do Espírito a eles comunicado depois que Jesus os enviara ‘como’ o Pai o tinha enviado. O sopro do Espírito agora recebido é claramente explicado: ‘Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados’ (20,23). Esta transmissão do Espírito é, pois, ‘funcional’, destinada, em outros termos, a ajudar os discípulos a preencher uma função precisa, mas que é vasta e se liga a uma visão fundamental sobre o Espírito, que João com frequência nos deixa pressentir”.

Não se trata apenas de uma “missão”, observa Scrima, com vistas a fazer prosélitos, constituir uma nova organização. Trata-se de deixar agir o Espírito, discernindo entre aqueles que têm o conhecimento de Jesus e, assim, já não pecam por ignorância, e aqueles a quem falta esta consciência, o que será retido como um pecado.

Após a ressurreição e, a seguir, o Vento de Pentecostes, “o crente e a humanidade – comenta André Scrima – são levados pelo Espírito para o cumprimento que deve consagrar esta primeira comunicação feita ao mundo graças à morte e ressurreição de Cristo: ‘Pois ainda não havia o Espírito, porque Jesus ainda não fora glorificado’ (cf. Jo 7,39)”.

Enfim, na noite do primeiro dia da Ressurreição, o Sopro de Jesus antecipa, de algum modo, a Ventania universal que viria do céu no 50º dia após a Páscoa. É desse Vento que vive a Igreja. Só este Vento pode orientar a humanidade errante…

Orai sem cessar: “O Senhor sopra o vento e faz correr as águas…” (Sl 147,18)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.