E jogou-se a seus pés… (Mc 7,24-30)

Este Evangelho narra o encontro de Jesus com uma mulher estrangeira. Parece um encontro inesperado, até mesmo indesejado. Triste com as intermináveis controvérsias motivadas pelos fariseus, Jesus se retira para as bandas da Fenícia, região considerada impura pelos judeus. Tudo indica que ele ali se refugiara em busca da solidão e do silêncio para se recompor.

É quando surge em seu caminho a siro-fenícia, suplicando a libertação de sua filha possessa. E a mulher não se limita a pedir com palavras, mas joga-se aos pés de Jesus, naquele gesto típico dos adoradores.

Não devíamos ficar espantados com a reação de Jesus, pois ele já havia anunciado que sua missão tinha como alvo prioritário “as ovelhas da casa de Israel” (cf. Mt 10,5-6), ou seja, os seus compatriotas. Daí o seu primeiro movimento de recusa: o pão é destinado aos filhos, não é para os cachorrinhos.

Agora, sim, devemos espantar-nos: a mulher não se mostra amuada pelos termos que o Mestre empregou. Ao contrário, movida pela insuperável união do amor pela filha e da fé no Senhor, ela retruca com notável humildade: longe dela pretender o pão dos filhos; pedia muito menos… apenas as migalhas que caem da mesa, desperdiçadas pelos filhos…

Aqui, nós nos detemos para refletir: é com a humildade desta estrangeira que nos dirigimos a Deus? Nossas orações são realmente súplicas? Ou ainda acreditamos nas tais “orações de poder” que arrancam de Deus, com mágico poder, até aquilo que ele não pretendia dar? Ou somos capazes de insistir e perseverar nas preces mesmo quando o Senhor parece distraído, ocupado, indiferente?

Sim, nós somos filhos (cf. 1Jo 3,1). Fomos adotados no momento de nosso Batismo. Mas é chocante como temos manifestado extremo descaso pelo “pão” que nos é servido na mesa, um pão reservado aos filhos. Não falo do pão material, mas do pão eucarístico que nos alimenta em cada Missa. Enfastiados de outros alimentos, não nos dirigimos à celebração eucarística como quem tem fome e sede: “Como a corça suspira pelas águas correntes, assim a minha alma anseia por vós, ó meu Deus!” Ainda lutamos com aquela preguiça de quem se vê obrigado a cumprir um preceito…

Claro que a mulher estrangeira conseguiu o que pedia. E ainda despertou a admiração do próprio Jesus, que declara: “Por causa do que acabas de dizer, o demônio já saiu de tua filha”. Nem foi preciso um gesto positivo do Senhor, alguma espécie de exorcismo. A fé humilde sabe vencer os demônios…
Orai sem cessar: “O Senhor ampara os humildes…” (Sl 147,6)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.