Derramado em favor de muitos… (Mt 26,14 – 27,66)

O sangue derramado – a taça virada – é a imagem de um sacrifício em que uma vida se entrega pela vida dos outros. Como diz o apóstolo São Paulo, “fomos resgatados por um preço muito alto” (1Cor 6,20). Sim, nada fizemos que merecesse o sangue de Jesus, mas o amor de Deus se manifesta exatamente nesse “desperdício”, pois o verdadeiro amor não tem medidas.

Nesta Páscoa que Jesus celebra com seus discípulos, Ele-mesmo é o Cordeiro a ser sacrificado no dia seguinte. “Por suas chagas fomos curados”, havia anunciado o profeta (cf. Is 53,5). E sua entrega é ainda mais chocante quando vemos a reação de seus seguidores, prontos a vendê-lo e a negá-lo.

Hébert Roux chama nossa atenção para esse duro contraste: “A gente não imagina Judas voltando atrás em sua decisão, ou Pedro a se deixar crucificar heroicamente ao lado de seu Mestre! Não! Jesus fala a seus discípulos sobre a fraqueza deles, sua miséria, para que eles a percebam em todas a sua extensão, e saibam que sua condição de homens pecadores, com todas as covardias e todas as vergonhas que ela comporta, é uma situação bem conhecida por Deus”.

Isto devia abalar a todos nós: Jesus não morreu por “gente boa”; ele derramou seu sangue pelos pecadores que somos, com todo o nosso apego ao mal e ao egoísmo. Ele não se surpreendeu com a atitude dos discípulos, pois conhecia muito bem o que estava escrito.

Esta traição que se prepara estava anunciada há muito tempo – prossegue H. Roux. E Jesus não se nega a carregar o fardo da traição, das negações e das fugas. Ele sabe…

Naturalmente, as gerações que se seguiram – inclusive a nossa! – não têm o direito de apontar um dedo acusador sobre Judas e Pedro. Ao longo da história, as traições e as deserções se multiplicaram impiedosamente. Não somos melhores que aquele primeiro grupo…

“Entre a traição de Judas e a negação de Pedro, existe espaço para o pecado dos outros dez apóstolos! Quando Jesus lhes anuncia que um deles irá traí-lo, eis que cada um descobre em si mesmo um possível traidor: ‘Serei eu, Mestre?’ A resposta de Jesus deixa em aberto todas essas possibilidades: ‘Aquele que pôs sua mão no prato comigo…’ E não foram seus comensais todos os doze?”

Os séculos passam e Jesus continua sendo traído e negado. No outro prato da balança, sempre surge algo que justifica trair o Mestre: dinheiro, poder, prazer, relacionamentos, vantagens, oportunidades de realização pessoal, fama, sucesso, carreira e tantos outros ídolos que ainda pulsam vivos na sociedade neopagã.

Uma taça foi virada… Um sangue foi derramado… em sacrifício pelo mundo. Enquanto corre este sangue, o pecador pode esquecer a corda suspensa no galho da árvore e voltar-se para Deus, pois é esse sangue que nos salva e nos reconcilia com o Pai…

Orai sem cessar: “O seu sangue será precioso…” (Sl 72,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.