Deixa que os mortos enterrem seus mortos… (Lc 9,57-62)

Entre aqueles que pretendem seguir a Jesus reina muita ilusão. Há aqueles que sonham com glórias respingadas do Senhor Ressuscitado. Há os guerreiros ansiosos por lutar no exército do “general” Jesus. Há os curiosos, atraídos pelos milagres e pelos poderes sobrenaturais do Rabi da Galileia. Há os tipos românticos, apaixonados por uma pintura em que o Filho de Maria tem olhos azuis revirados para o céu. Pura ilusão!

Por isso mesmo, o Mestre não hesita em dispensar prontamente aqueles que se oferecem para segui-lo motivados por sonhos, ilusões e anseios românticos. Ele aponta direto para a realidade: não tenho casa, deixei-a em Nazaré. Não tenho travesseiro para reclinar a cabeça; no Gestêmani, adormeci sobre uma pedra. Família? Deixei minha mãe em casa para seguir a minha missão…

Isto não quer dizer que casa e família não tenham valor. Claro que têm! Mas esses valores “valem menos” que a Missão. Quando Jesus faz o convite: “Segue-me!”, ele sabe muito bem que não está pedindo muito. Está pedindo tudo! Quem se reserva uma parte de seus sonhos, mais cedo ou mais tarde acabará infiel à sua missão.

O jovem que pretende aderir a um Instituto missionário, sabe que vai abrir mão das riquezas, vai renunciar a uma esposa e filhos, vai deixar de escolher as próprias decisões. São os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. Pobre como Francisco, casto como Clara, obediente como José de Nazaré, o discípulo se esforça por imitar seu Mestre.

Tudo isto está inteiramente de acordo com outra afirmação imperativa de Jesus: “Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim”. (Mt 10,37) E as pessoas que estranham esta frase são as mesmas que deixam a casa de seus pais para se casar, ou vão para o estrangeiro para ganhar um salário melhor, ou deixam mulher e filhos para defender a pátria em terra estrangeira, ou abandonam os velhos no asilo para terem uma vida mais tranquila…

Como observou um comentarista do Evangelho, quem coloca um enterro acima da Palavra de Deus situa-se bem entre os mortos que enterram seus mortos. Só podemos compreender estas coisas depois de percebeu que Jesus é o Senhor dos vivos e dos mortos…

Orai sem cessar: “A minha alma te segue de perto…” (Sl 63,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança