1º/03/2016 – De todo o coração… (Mt 18,21-35)

A parábola “do servo cruel” retrata um pecado mais comum do se imagina: negar a outrem o perdão que nós mesmos já recebemos. Sinal evidente de que ele não soube aproveitar a lição de dever e, incapaz de saldar o débito por si mesmo, ter sua dívida generosamente cancelada. Claro que o desfecho foi sumamente infeliz: o perdoado que não perdoou acaba vítima de sua própria crueldade.

E quem é esse “perdoado”? Sou eu. Somos nós. O fardo do pecado e da culpa que gravava nossos ombros e nosso coração foi abolido com a paixão e morte de Jesus. Fomos resgatados a preço de sangue (cf. 1Cor 6,20; 7,23). Depois disso, como negaríamos o perdão a quem nos ofendeu?

Na Mensagem para a abertura do Ano da Misericórdia, o Papa Francisco comenta a mesma parábola: “Então o senhor, tendo sabido do fato, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: ‘Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti?’ (Mt 18,33) E Jesus concluiu: ‘Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração.’ (Mt 18,35)

A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para conosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para viver feliz.

Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: ‘Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento’. (Ef 4,26) E sobretudo, escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: ‘Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia’ (Mt 5,7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.”

Nosso modelo irretocável de perdão é o próprio Jesus Cristo. Ele passou a vida perdoando os pecados, perdoou a seus carrascos, perdoou a negação de Pedro e teria perdoado até mesmo a traição de Judas se este não preferisse o caminho centrípeto do desespero.

Orai sem cessar: “Ao Senhor pertencem a misericórdia e o perdão!” (Dn 9,9)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.