Dará à luz um filho… (Mt 1,1-16.18-23)

Hoje a Igreja celebra a Natividade da Virgem Maria, Mãe de Deus. Nossa liturgia costuma recordar apenas o dia da morte dos santos – seu natalício para a vida celeste. Não se celebra o dia do nascimento terrestre. As raras exceções são o próprio Jesus, o Salvador (25 de dezembro), Maria, a escolhida (8 de setembro) e João Batista (24 de junho), o maior entre os nascidos de mulher (cf. Mt 11,11).

O Evangelho escolhido para esta festa litúrgica repassa a genealogia de Jesus Cristo e a “anunciação” do anjo a José de Nazaré. A notícia que vem do céu – “ela dará à luz um filho” – aponta claramente para a missão que Deus confiara à Virgem Maria, missão que está na origem de seu chamado à existência.

Na verdade, esta relação íntima entre existência e missão vale para cada pessoa humana. Também nós fomos chamados à vida porque Deus tem uma missão personalizada para cada um de nós, e aquilo que chamamos de “realização pessoal” só é possível quando a existência e a missão chegam a coincidir.

Como anota a Tradição, a jovem de Nazaré tinha feito uma opção pela virgindade consagrada. O anúncio de sua maternidade parece contradizer sua escolha anterior. Maurice Zundel comenta:

“Recolhendo em seu coração toda a expectativa de Israel, Maria tinha querido permanecer virgem para que todo o seu ser fosse um puro impulso de amor na direção de Deus. Se ela havia consentido na ternura de José, é porque tinha descoberto ou fizera nascer nele o mesmo propósito. Deus seria o único intercâmbio de um casamento que consistiria todo inteiro na união indivisível das almas.

Quando Maria se torna miraculosamente a Mãe do Salvador, este engajamento recebe a mais inefável consagração. Sua maternidade era o supremo cumprimento de sua virgindade, a flor divina do dom, o coroamento deste amor que, desde o começo, a desapropriava por completo, o lírio da pobreza.

Ao acolher Maria em sua casa (cf. Mt 1,24) no cumprimento da solenidade que tornava definitivo o seu casamento, José participa da maternidade de sua esposa na medida em que ele mesmo estava votado à sua virgindade.”

Sim, estamos diante de um mistério de amor. De um lado, o mistério do amor de Deus, que nos entrega seu Filho na fragilidade dos mortais. De outro, o mistério do amor humano, que se consagra aos desígnios de Deus sem reservas e sem salvaguardas. Puro amor!

Orai sem cessar: “Eu sou para o meu amado!” (Ct 6,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.