24/02/2019 – Dá a quem te pede! (Lc 6,27-38)

Na minha infância, corria entre nós um bordão muito repetido quando alguém pedia algo, como uma bolinha de gude ou um pedaço da fruta que o outro comia: “Dar dói, chorar sai sangue!” Só recentemente descobri que era a corruptela de um antigo provérbio de Portugal. Mas a frase soava como fria negativa diante do pedido feito.

Pois bem, agora vem Jesus e ordena em tom imperativo: “Dá a quem te pede!” E ainda rebate o cravo: “Assim sereis filhos de Deus…” Será um preço caro demais pela filiação divina?

Helmut Gollwitzer comenta esta ordem: “Dá a quem te pede! Esta exigência geral e sem condições põe em evidência as dimensões incalculáveis e inauditas desta nova liberdade. Mas ela só faz sentido para quem dispõe de uma riqueza inesgotável e, por este motivo, está a salvo de toda preocupação e de toda economia. O discípulo é a pessoa que, em qualquer ocasião, se despreocupa de seu bem e não reclama o que lhe devem. Ah! se nós pudéssemos ter esse homem como próximo!”

Ora, o discípulo deve ser exatamente este próximo para as outras pessoas. Alguém permanentemente aberto à doação e à partilha, pois não se preocupa em acumular e fazer render. Sentindo-se alvo da fartura de Deus – aquele que faz chover sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45) –, por que motivo deixaria de passar aos irmãos o que recebeu como Graça?

Prossegue Gollwitzer: “Toda a diferença entre esta ética do Reino de Deus e todas as outras morais que não possuem como condição primeira a presença do Reino, revela-se no fato, aparentemente negligenciável, de que Jesus se exprime em fórmulas positivas, ao contrário de um Confúcio muitas vezes negativo: ‘Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam’. Enquanto a sabedoria humana nos exorta a abster-nos, Jesus nos impele à ação. Assim, a palavra de Jesus é transformada em lei ideal, uma lei que mata aquele que deseja levá-la a sério”.

E onde achar a força para cumprir o Evangelho tão exigente? Seguramente, na imitação de Cristo, que nada reservou para si, nem mesmo a vida. Quem se sente pobre, temerá fazer o dom a quem lho pede. Quem já experimentou os tesouros da graça, fará a partilha sem dor, pois estará “sacando” dos tesouros de Cristo, aliás, inesgotáveis…

 

Orai sem cessar: “Fartarei de pão os teus necessitados…” (Sl 132,15)
Tradução de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.