Sem moralismo, sem crítica pela crítica ou discursos amargurados de ataque a qualquer mentalidade que seja. É apenas a partilha de um olhar…

Creio ser impossível a gente, observando os contrastes de uma cidade como São Paulo, ficar indiferente a uma cena dessas. Um Corpo no ostensório, o mesmo Corpo, caído na rua. O mesmo? Sim… leia Mt 25 que você entenderá.

Cremos que a Eucaristia atualiza a obra salvadora da Cruz. Nas mesas da Palavra e do Pão consagrado aprendemos a lição de se entregar pelos outros como alimento. Ser sustento e alegria para os outros. Ser para os outros. Isso é Páscoa: é Cruz, porque servir os outros não é fácil, mas é também Ressurreição, porque há alegria e sentido. Eucaristia e amor, rimam. “Não há prova de amor maior que dar a vida”… “este é o meu mandamento, amem-se como eu amei vocês”… “façam isto em memória de mim”…

“Fazer”… não disse “meditem em minha memória”, embora contemplar também seja fundamental. Mas aqui trata-se de atuar. Agir.

Mas como? E com que qualidade?
Sem ser algo sazonal, mas contínuo, eficaz, irrestrito. Como fazer no imediato do que a gente vê e também num campo mais amplo, onde os nossos braços não chegam… como fazer a forma mais alta de caridade, que é a política?

A Paixão do Senhor continua. A ferida está aberta, sangrando. Há pressa! O corpo de Cristo, quando profanado nos nossos sacrários e jogado ao chão nos fere. Choca. Exige reparação. E o Corpo de Cristo jogado ao chão de nossas ruas em cada sofredor?… que reparação lhe damos? Paixão que se atualiza. O que fazemos em memória de Jesus?…

Como honrar o Corpo de Cristo em uma situação sem deixar a outra?

E, pra além desses casos mais gritantes, como o da foto, como honrar o Corpo de Cristo padecente, crucificado, nas pessoas mais próximas e que sangram de feridas invisíveis? Como comungar dos corpos feridos da depressão, da exclusão, do bullying, da amargura?… Mais: e como honrar os corpos feridos, que justamente por estarem feridos, também nos ferem? Sim, porque somos meio animais: às vezes mordemos aqueles que se aproximam pra nos dar remédio e carinho… como honrar quem nos morde?

Não proponho nada. Apenas partilho um questionamento. Reflito, me sentindo limitado. Como dignificar?

Me chama a atenção celebrarmos a festa do Corpo. Não é festa da alma de Cristo. Mas um chamado para a gente olhar pra baixo, pro que está ao alcance da mão, pro que tem cheiro, pro que fala, pro que tem uma história muito concreta. Olhar e se sentir parte protagonista dessa realidade que Deus criou e que, tendo decaído, é chamada constantemente a se reerguer: eis o projeto de Jesus. Eis o Reino, que ele anunciou e nos convida a começar a construir aqui, pra concluir-se na eternidade.

O mundo não é nojento. Não está tudo perdido. Se a humanidade fosse podre, irrecuperável, o Cristo não tomaria um corpo. Temos nossas mazelas, é claro, mas há capacidade de se superar. E Evangelho é também essa boa notícia: o mundo não está perdido.

A gente está aqui pra curar, pra levantarmos uns aos outros. Cristo desceu, tomou um corpo, corpo que ele fez subir pra nos ensinar o caminho. Pra isso ele nos fez. Mas não nos salvaremos sozinhos… vamos operando a salvação uns dos outros. Erguemos o Corpo Eucarístico do Senhor, envolvido em véus muito limpos e em perfumes. Bendito será o dia em que o Corpo Místico do Senhor, que somos todos nós, será tratado com as mesmas honras! O Evangelho aponta nessa direção: dignidade humana (embora haja muita gente “cristã” que não concorde, e ache até uma bobagem. Gente que diz “eca!” quando ouve falar em Direitos Humanos).

Questionamentos, enfim.
Questionamentos perigosos, porque podem ser mal interpretados por quem tem preguiça de pensar. Lembro Dom Hélder “Se dou pão aos pobres, me chamam Santo. Mas se pergunto por que os pobres não tem pão., me chamam comunista”.

(Difícil época em que todos tem de ser rotulados…)

Lembro de uma frase que sempre me ilumina, escrita em todos os sacrários das casas das Congregações fundadas pelo Pe. Alberione: “vivam em contínua conversão”.

A gente tem muito chão pela frente, ainda. Nossa procissão de Corpus ainda vai longe… tomara que a gente vá acertando o caminho, porque não basta caminhar. É preciso ir na direção certa. “Fazei isto em memória de mim”.

 Pe. Fernando Clemente, MSC