Convida os pobres! (Lc 14,12-14)

Como de costume, o ensino de Jesus a seus discípulos vai na contramão do “homem natural”. Homem natural? Paulo bem o descreve: rivalidades, contendas, associação com os poderosos, apego aos bens, avareza, cupidez… E o apóstolo ainda rebate: “O homem natural não aceita aquilo que é do Espírito de Deus, pois isso lhe parece loucura” (1Cor 2,14).

Esta lição de Jesus, no Evangelho de hoje, tem como eixo a oposição interesse X gratuidade. O “interesseiro” até pode fazer o bem, mas sempre de olho na retribuição. Esta pode ser o aplauso do público, o sorriso do amigo, o apoio dos poderosos, um polpudo salário e, quem diria, um lotezinho no céu após a morte… Trata-se de um sério convite a reavaliar a motivação de nossa conduta, a razão de nossas atitudes.

Jesus diz que serei feliz quando o bem que eu fizer não receber alguma espécie de paga ou retribuição. Daí o imperativo de convidar o pobre, pois este não terá como retribuir o bem recebido. Quando Madre Teresa deixou o conforto de seu colégio para cuidar dos mendigos de Calcutá, ela sabia que não deveria esperar nada em troca. Na verdade, acabou amada pelos pobres e… ganhou o Prêmio Nobel da Paz!

Bem, às vezes, temos surpresas. Um amigo nosso, professor da PUC, vivia chocado com a cena diária na entrada da capela de Santo Antônio, em Belo Horizonte, esquina de São Paulo com Amazonas. Ali, no pórtico da igreja mais antiga da capital mineira, dezenas de mendigos ficavam prostrados à espera de uma esmola, alguns com feridas expostas. Final de ano, nosso amigo teve a inspiração de organizar uma ceia de Natal para eles. Seria – pensava ele – uma oportunidade de se sentirem amados, alvo da atenção das pessoas. Ao convidá-los, porém, ouviu como resposta dos mendigos: – “Infelizmente, não posso ir… Se eu sair daqui, vou perder o meu ponto…”

Penso que a conclusão é esta: há pobres e pobres… A pobreza material sem a pobreza espiritual continua fechada aos dons de Deus e ao amor dos homens. O medo de perder – ainda que seja o “ponto” de pedir esmolas – impede nossa entrega e nosso abandono a Deus e ao próximo.

Madre Teresa ensinava suas religiosas: “Sermos pobres significa sermos livres, tão livres a ponto de não sermos possuídos pelos nossos haveres, tão livres que nossos bens não nos controlem, nem nos impeçam de partilhá-los e dá-los aos outros”.

E disse mais: “A pobreza é o nosso dote. Quanto menos possuímos, mais podemos dar. Quanto mais temos, menos damos. Não há complicações; entretanto, nós complicamos tanto a nossa vida, com tantos badulaques”.

É assim que o convite de Jesus acaba recusado por tanta gente…

Orai sem cessar: “Este pobre clamou e o Senhor o ouviu”. (Sl 34,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.