Como nós perdoamos… (Mt 6,7-15)

A oração do Pai-Nosso é uma prece altamente comprometedora. Cada vez que a repetimos, autorizamos Deus a verificar nossa misericórdia antes que ele acione a dele. “Perdoai-nos como nós perdoamos…”

O conceito cristão cristalizado na palavra “perdão” exige de nós uma autêntica conversão. Algumas culturas chegam a desconhecê-lo por completo. No Japão, por exemplo, o que se entende por “perdão” é simplesmente um acerto de contas: eu pago a minha conta e, então, estou “perdoado”.

Ora, diante de tantos crimes, da onda de violência e corrupção que se derrama pelo mundo, nossa tendência é clamar por uma justiça que, eventualmente, pode tornar-se cega e desaguar em simples vingança. Parece que isto não basta, alerta o Papa Francisco em seu apelo por um Jubileu da Misericórdia:

“Se Deus se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça.

Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça.

Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos: ‘Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus. É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé’ (Rm 10,3-4).

Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto, a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.” (Misericordiae Vultus)

Quando abriremos nosso coração à misericórdia?

Orai sem cessar: “Quero cantar a misericórdia e a justiça!” (Sl 101,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.