Como nos dias de Noé… (Lc 17,26-37)

Não é possível evitar o impacto do versículo 37: “Onde estiver o corpo, ali se juntarão os abutres.” Também os urubus do Brasil têm um “sexto sentido” que os orienta para a carniça, mesmo a grandes distâncias. A imagem é forte – até mesmo desagradável – mas chama nossa atenção para uma espécie de tropismo animal que orienta o predador para sua presa. Não deveria haver também em nós um tropismo para Deus? Uma atração para as coisas espirituais? Não deveríamos ser capazes de ler os “sinais dos tempos” e, a partir deles, achar o melhor caminho em nossa vida?

Nos dias de Noé, Deus alertou a humanidade a respeito do dilúvio. Não é difícil imaginar os contemporâneos de Noé a zombar de sua grande (b)arca, apontando para o céu sem nuvens e a distância do mar. Enquanto isso, casavam-se, comiam e bebiam. Pois veio a inundação e todos pereceram…

Nos dias de Lot, Deus voltou a alertar a humanidade. Devem ter rido de Lot e sua família quando estes fugiram no seu êxodo familiar. Enquanto isso, comiam, bebiam e casavam-se. Pois veio o fogo do céu e foram consumidos. Mais uma vez, os sinais dos tempos foram inúteis. E hoje? Temos sinais? Sinais da natureza como furacões e tsunamis, terremotos e graves alterações climáticas? Sinais da sociedade como guerras e revoluções, aborto legal e eutanásia, casamento homossexual e pedofilia na Internet? Sinais socioeconômicos como as legiões de sem-teto e sem-terra, milhões de refugiados e trabalhadores escravos? Sinais biológicos como pestes e epidemias? Sinais religiosos, como heresias, seitas e deserções?

Sim, há sinais para “nosso tempo”. Como placas de trânsito, deveriam orientar o rumo que imprimimos à nossa existência. Deveriam desviar-nos da ambição e da acumulação material, levando-nos à partilha dos bens e à solidariedade. Deveriam fazer de nós anunciadores do amor de Deus e da esperança de um mundo novo. Deveriam impedir que perdêssemos tempo em diversões estéreis, joguinhos eletrônicos e fins-de-semana marcados pela futilidade e pelo devaneio. Deveriam despertar nossas mentes para o essencial. Aumentar nossa capacidade de amar…

Os fariseus de hoje repetem a mesma pergunta do tempo de Cristo: onde será? Quando será? Mas seus corações continuam afastados do Senhor.

E o nosso coração?

Orai sem cessar: “Venha a nós o vosso Reino!” (Mt 6,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.