2/10/2015 – Como criancinhas… (Mt 18,1-5.10)

Então, existe uma condição para entrar no Reino dos Céus. Jesus não lhe dá um nome, mas fornece uma imagem: a criancinha [no texto grego, ta paidía]. Hoje, somos movidos a pensar na “criancinha” com os atributos de delicadeza, ternura, suavidade. Não era assim para os coevos de Jesus…

Na sociedade palestina daquele tempo, a criança era apenas um “zero à esquerda”. Sequer eram computadas nos recenseamentos. Na multiplicação dos pães, registram os próprios evangelistas, comeram milhares de pessoas, “sem contar mulheres e crianças” (cf. Mt 15,38).

Este aspecto nos ajuda a “traduzir” mais de perto a imagem que o Mestre nos dá como condição para “entrar”, para não ficar de fora, “nas trevas exteriores” (cf. Mt 8,12)… A criancinha é frágil, fraca, não confia em si mesma, e tudo espera dos pais. Agora, podemos acompanhar a reflexão de Isaac, o Sírio [Séc. VII]:

“Quando o homem rejeitou todo socorro visível e toda esperança terrestre, quando ele segue a Deus na fé e com um coração puro, a Graça logo o acompanha e lhe manifesta seu poder, assistindo-o de muitas maneiras. Ela o protege como a ave que estende suas asas sobre os filhotes para nenhum mal lhes aconteça. Desde então, ele entende que, seja coisa grande ou pequena, tudo deve ser pedido a seu Criador em oração.

Quando a Graça divina confirmou seu coração em todas essas coisas, porque ele se confiou a Deus, então ele começa, pouco a pouco, a entrar nas provações. É que fora das provações não lhe é possível chegar à sabedoria nos combates espirituais, nem conhecer Aquele que provê sua vida, nem sentir seu Deus e ser secretamente confirmado em sua fé. Ele precisa receber a força da experiência.

Quando, enfim, a Graça vê que a presunção, por pouco que seja, se infiltrou em seu pensamento e ele começa a ter uma idéia elevada de si mesmo, ela logo permite que se reforcem e se intensifiquem as tentações que o assaltam, até que ele aprenda sua fraqueza, se refugie em Deus e a Ele se apegue na humildade. […] De fato, quando o amor de Deus lhe é dado no meio das desventuras que quebram a esperança, aí é que o homem conhece que maravilha é este amor para ele.”

Já que é assim, melhor ser como as crianças…

Orai sem cessar: “Como criança no colo da mãe, assim é minha alma…” (Sl 131,2)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.