Como a ti mesmo… (Mt 22,34-40)

Em sua Primeira Carta, S. João nos dá um princípio de valor inestimável, capaz de arrancar nossas máscaras e denunciar nosso farisaísmo: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso.” (1Jo 4,20.)

Este versículo aproxima dois verbos que se repelem: amar x odiar. Ainda que o coração humano se apoie em uma dobra do fígado (comparar amigo “cordial” e inimigo “figadal”…), os dois sentimentos não podem conviver no mesmo coração. Assim, mesmo que, humanamente falando, alguém merecesse meu ódio, sei que ele é amado por Deus. Basta a consciência disto para que eu me recuse a alimentar a chama do ódio em meu interior. Se de fato eu amo a Deus, não posso odiar os seus amados…

Santa Teresinha do Menino Jesus convivia com uma freira carmelita muito “difícil”. Podemos ler em seu “Manuscrito C” (292): “Encontra-se na comunidade uma irmã que tem o dom de desagradar-me em tudo, suas maneiras, suas palavras, seu caráter eram-me muito desagradáveis, porém é uma santa religiosa que deve ser muito agradável a Deus. Não querendo entregar-me à antipatia natural que sentia, disse a mim mesma que a caridade não deveria assentar-se nos sentimentos, mas nas obras. Então, apliquei-me em fazer por essa irmã o que teria feito pela pessoa que mais amo.”

E que fez Teresinha? Seguiu um autêntico “método de perdoar”, em cinco pontos: 1) rezar pela freira; 2) prestar-lhe todos os serviços possíveis; 3) sorrir para ela; 4) desviar a conversa de assuntos desagradáveis, evitando toda contestação; 5) fugir de perto, “como desertora, quando os combates se faziam violentos demais”…

Algum tempo depois, talvez desconfiada, a “antipática” chegaria a perguntar à Pequena Teresa: “Aceitaríeis dizer-me, Irmã Teresa do Menino Jesus, o que tanto vos atrai em mim?” E a própria Teresa nos revela o seu segredo: “Ah! O que me atraía era Jesus oculto no fundo da alma dela… Jesus que torna suave o que é amargo…”

É fácil amar a Deus, que está no céu. É fácil amar aos “irmãos africanos”, do outro lado do Oceano Atlântico. Difícil é amar aqueles cujos cotovelos esbarram nos nossos. Mas é exatamente nestes que Deus se esconde. É exatamente neles que podemos amar ao Deus distante…

Orai sem cessar: “Oh! Como é bom e agradável

irmãos unidos viverem juntos!” (Sl 133,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.