26/07/2015

Cinco pães e dois peixes… (Jo 6,1-15)

A multidão tem fome. São cinco mil. O local é deserto e rochoso. E Jesus acaba de passar uma ordem a seus discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Mc 6,37)

Diante da provocação do Mestre, a apóstolo Filipe reflete em voz alta: “Onde vamos encontrar tanto pão para comprar?” E chega a calcular os gastos necessários: duzentos denários, isto é, o equivalente a 200 dias de um trabalhador comum.

De fato, uma tarefa impossível. E Jesus bem sabe disso. Parece que ele tem algo a ensinar a seus discípulos. Uma lição essencial a quem pretende estar a serviço do Senhor: não contamos absolutamente com nossos recursos próprios. Não dependemos exclusivamente de nosso potencial humano. Nossa missão junto ao rebanho deve estar apoiada em uma fonte de graças que não gerimos nem produzimos, mas nos é dada.

Christian Chessel, o Padre Branco assassinado por ativistas islâmicos na Argélia, em dezembro de 1994, escreveu em um breve artigo sobre “a missão na fraqueza”. Ele reflete:

“Aceitar nossa impotência e nossa pobreza radical é um convite, um premente apelo a criar, com os outros, relações de não-poder.

Reconhecendo minha fraqueza, eu posso aceitar a dos outros e ver nisso um chamado a sustentá-la, a fazê-la minha, à imitação de Cristo. A fraqueza do apóstolo é como a de Cristo, enraizado na força da Páscoa e na força do Espírito. Ela não é passividade nem resignação, mas supõe muita coragem e impele a comprometer-se pela justiça e pela verdade, denunciando a ilusória sedução da força e do poder.”

São palavras que merecem um bloco de mármore para perdurarem além de nossa desmemória. Quantos erros na vida da Igreja devidos à ilusão de poder ou ao esforço sobre-humano para tornar-se forte!

Sim, o Evangelho não para aí… Há o tal garoto que trazia na matula cinco pães e dois peixes. E seu farnel foi requisitado em nome do interesse público. Convenhamos, uma requisição miserável, um quase-nada… Mas foi a partir dessa pobre cooperação humana que Jesus acende o pavio do milagre, para matar a fome da multidão, previamente alimentada com o pão da Palavra.

Será que aprenderemos um dia? Deus faz maravilhas com nossa miséria.

Orai sem cessar: “Saciarei de pão os seus pobres!” (Sl 132,15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.