Censurou sua dureza de coração… (Mc 16,9-15)

Depois de morto e sepultado, Jesus ressuscita, vencendo a morte, como ele mesmo anunciara antecipadamente (cf. Mt 16,21; 17,23; 20,19). Obviamente, os discípulos ouviram estes anúncios e não entenderam nada. A reação deles diante da morte de seu Mestre deixa claro que eles não alimentavam nenhuma esperança a respeito da ressurreição. Por isso mesmo, quando Jesus se manifesta vivo, eles reagem com espanto e descrença, chegando a confundi-lo com um fantasma (cf. Lc 24,37).

Depois de Jesus ser encontrado vivo por Maria Madalena e pelos dois discípulos de Emaús, o testemunho destes não foi capaz de convencer os demais seguidores, ainda dominados pelo medo e pela decepção. Neste Evangelho, Jesus se manifesta aos Onze, enquanto eles comiam. E Jesus foi duro com eles…

O evangelista Marcos anota que eles sofreram pesada censura do Mestre. O verbo grego utilizado no texto original – ôneidisen -expressa uma repreensão tão forte, que beira o insulto. O motivo de grave censura é a “dureza de coração” dos discípulos. No original grego, sklerocardia, algo como uma esclerose do coração, um endurecimento da alma petrificada pela falta de fé.

Curiosamente, o Antigo Testamento já falava dessa “doença” do espírito. O Salmo 119 se refere aos adversários do Senhor como gente que tem um “coração de sebo” (v.70). Como se uma espécie de colesterol da alma impedisse que a Boa Nova penetrasse nos corações fechados em si mesmos. Tal “entupimento” leva alguém a recusar o testemunho daqueles que “viram o Senhor”.

Na Carta aos Romanos, também Paulo se refere à falta de fé daqueles que recusaram a mensagem de Deus implícita na própria Criação. E observa que “eles se perderam em seus pensamentos fúteis, e seu coração insensato se obscureceu”. (Rm 1,21b)

Os Onze logo receberão um “sopro de Jesus”, transmitindo-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 20,22), absolutamente necessário para reforçar-lhes a fé estremecida e desentupir os corações esclerosados.

Pedro, o instável, chamado a ser “rocha”, compreenderia depois a importância da fé, sem a qual a missão dos apóstolos seria impossível. “Graças à fé, e pelo poder de Deus, estais guardados para a salvação que deve revelar-se nos últimos tempos. Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que no momento estejais por algum tempo aflitos, por causa de várias provações.” (1Pd 1,5-6)

Orai sem cessar: “Meu coração está pronto, ó Deus!” (Sl 57,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.