O campo é o mundo… (Mt 13,36-43)

O campo é o mundo… (Mt 13,36-43) Pela forma como o próprio Jesus “traduz” sua parábola do joio e do trigo, podemos considerá-la uma alegoria, já que seus vários componentes possuem simbolismos individuados. Temos um semeador, Jesus. Temos a boa semente, os filhos do Reino de Deus. Temos o joio, os que pertencem ao maligno. Teremos, no fim dos tempos, os segadores da colheita: os anjos de Deus. Hoje, vamos centrar nossa reflexão no “campo” que recebe a dupla sementeira (bem e mal). Este campo é o mundo: um espaço-tempo onde decorre a história da humanidade. Ele nos é apresentado como terra a ser semeada até um desfecho, quando ocorrerá a separação entre joio e trigo. Os apressados querem fazer JÁ essa separação, sem levar em conta que as duas plantas, quando pequenas, são praticamente idênticas, e inevitavelmente o trigo seria arrancado com o joio. Cuidado, pois, com a atitude impaciente que cobra de Deus uma intervenção imediata, não sabendo conviver – por enquanto – com o joio entre nós. E, claro, dentro de nós também… Não forçamos a interpretação se dizemos que o Reino dos céus já tem seu germe no reino deste mundo. Tampouco se afirmamos que ele deve crescer, após ser semeado, no decorrer da história, até “amadurecer” o suficiente para a colheita final. Nesta visão, o provisório (a Criação temporal) já traz em segredo, ocultamente, as sementes da eternidade. E este mesmo mistério inclui a possibilidade de o trigo se corromper em joio, bem como de o joio ser transfigurado em trigo. O santo e o pecador vivem um dinamismo que permite a degradação e...

Onde compraremos pão? (Jo 6,1-15)

Onde compraremos pão? (Jo 6,1-15) Evidentemente, esta pergunta de Jesus ao apóstolo Filipe não passa de uma provocação. Pão no deserto? Pão para cinco mil homens famintos, sem recensear mulheres e crianças? Pão em uma Palestina onde não havia padarias, pois o pão era fabricado de modo caseiro, no pequeno forno familiar no fundo do quintal? Mas a pergunta provocativa ajuda a lembrar outro deserto, outra multidão, outro líder seguido no êxodo do mesmo Israel. Ao deixar o Egito da escravidão e ver-se sem alimento no areal infértil (cf. Ex 16), o povo escolhido teve consciência de sua incapacidade para matar a própria fome. É quando o Senhor faz cair o maná, um provisório “pão do céu” que não resultava do suor humano, da terra trabalhada, mas era puro dom, pura graça. Desde os primeiros tempos, os Padres da Igreja viram na multiplicação dos pães a sinalização da Eucaristia. Um “pão do céu” que seria o alimento e a fonte de energia para uma comunidade de discípulos a caminho da Terra Prometida. Sim, o Senhor aceita trabalhar a partir de nosso próprio trabalho: os cinco pães de cevada (isto é, de baixa qualidade) que um garoto (um daqueles imprestáveis que a gente nem se preocupa em contar!) trazia na matula. E a partir dessa (miserável) contribuição, Deus entra em ação e faz maravilhas impensáveis. Não podemos fazer vista grossa para a identidade de gestos e palavras que Jesus adota na multiplicação dos pães e na celebração da Última Ceia: tomar os pães… dar graças [no texto grego, eucharistésas]… distribuir aos convivas… Trata-se do mesmo ritual com que os evangelhos...

Enquanto todos dormiam… (Mt 13,24-30)

Enquanto todos dormiam… (Mt 13,24-30) Já refletimos juntos sobre esta mesma passagem: o trigo bom e o joio mau crescendo juntos até a colheita, convivendo lado a lado até o dia do Grande Juízo, a colheita da humanidade. E o mistério da paciência de Deus, que parece estender o nosso tempo de conversão… Hoje, porém, vamos focalizar outro ângulo. Quando foi que o “inimigo” semeou a cizânia sobre a semente do trigo já semeada? Quando todos dormiam… Satisfeitos com o trabalho da semeadura, cheios de esperança de boa brotação, foram todos celebrar, dormindo o despreocupado sono dos justos. Foi na calada da noite que o adversário se infiltrou. Não havia guardas nem sentinelas. Os cães não ladraram. Quando o dia raiou, o mal estava feito… Faz pensar em nossa sociedade? Faz pensar em nossas famílias? No mínimo, faz lembrar a advertência de Jesus? “Vigiai e orai, porque não sabeis o dia nem a hora!” (Mc 13,35.) Quem viu a profunda mudança da sociedade brasileira na segunda metade do Séc. XX sabe que todos nós cochilamos. Diante do processo de industrialização, o êxodo rural, a chegada da TV, as mudanças do pós-Vaticano II, nós não fomos vigilantes como deveríamos ter sido. Distraídos, tivemos nossas raízes culturais abaladas, os laços familiares rompidos, nossa própria fé desfigurada. Os pais rezavam o terço em família, os filhos deixaram de ir à missa, os netos se perguntam que diferença faz casar-se na Igreja ou simplesmente se “juntar”… Isto, em menos de 50 anos! Nós fomos envolvidos por outras vozes. Duvidamos dos valores que havíamos herdado de nossos maiores, pois pareciam meio “quadrados” diante do...

Sufocam a Palavra… (Mt 13,18-23)

Sufocam a Palavra… (Mt 13,18-23) Neste Evangelho, temos algo especial: o próprio Jesus “interpreta” uma de suas parábolas, cujo sentido mostrava-se hermético a seus ouvintes. E fica bem claro que a “Palavra do Reino” sempre encontrará sérios obstáculos para ser acolhida e dar fruto: a oposição do maligno, nossas próprias futilidades, nossa inconstância, as preocupações mundanas… Como observa H. Roux, quando recebemos a semente da Palavra, pode ser que nós não a compreendamos, ou a entendamos mal. “O Reino dos céus é proclamado no seio de um mundo hostil. Mas Jesus não nos quis dar uma lista exaustiva das diversas reações do mundo. Ele apenas atrai a atenção sobre o fato de que a Palavra, ao ser pronunciada, no mais das vezes o é com perda total.” “Mas também ocorre – e isto é um milagre! – que a semente encontre um bom terreno, ao qual era destinada; acontece, mesmo neste mundo hostil, que a Palavra seja ouvida, compreendida, e dê frutos.” Contudo, o mais frequente é a sua rejeição. “Ela veio aos seus – dirá o apóstolo João – e os seus não a receberam”. (Jo 1,10) “Quando Jesus aparece com a Palavra do Reino – prossegue Hébert Roux -, quando deste modo vem ao mundo o Reino contido em potencial nessa Palavra, oculto e secreto como a planta que existe na promessa desse grão, o julgamento e a graça de Deus se manifestam ao mesmo tempo: o Evangelho provoca a contradição em um mundo onde Satã reina sobre os corações e os espíritos, e é exposto à superficialidade dos entusiasmos fáceis; finalmente, é rejeitado por aqueles mesmos...

Felizes os vossos olhos! (Mt 13,16-17)

Felizes os vossos olhos! (Mt 13,16-17) Nada pior que a ingratidão! O ditado popular condena o gesto do ingrato: “cuspiu no prato em que comeu”. Se fazemos vista grossa e ouvidos de mercador diante dos dons com que nos cumula o Senhor, cometemos esse pecado. Neste Evangelho, Jesus se emociona. Logo depois de interpretar para os discípulos a parábola do semeador, cujo sentido lhes permanecia obscuro, o Mestre se dá conta de que eles estão ouvindo e vendo aquilo que os justos da Primeira Aliança – patriarcas e profetas – teriam suspirado por ver e ouvir… São privilegiados – como nós – estes seguidores do novo tempo inaugurado pela encarnação do Verbo de Deus, a nova e eterna Aliança com os homens. Por isso a dupla exclamação: Felizes! Bem-aventurados! E não sabemos se aqueles homens simples, um tanto rústicos, chegaram a perceber os privilégios e favores de que eram objeto… Nós também somos privilegiados. Vivemos um tempo em que os dons do Espírito Santo são derramados de modo intensivo e extensivo, mais que em qualquer outra época da história. O mínimo que podemos fazer é dar graças a Deus, como em meu soneto “Ação de Graças”: Senhor, em tudo vejo a tua Graça Derramada sem conta e sem limite: Nem esperas que eu erga o olhar e grite, Pois logo o teu divino Amor me abraça!   Tua bondade sempre me ultrapassa, Teus dons sempre superam meu palpite… E mesmo que eu me furte, e o Amor evite, A tua Luz me invade e me devassa!     Dou-te graças, meu Pai, e reconheço Que todos estes dons eu...

E dar a sua vida… (Mt 20,20-28)

E dar a sua vida… (Mt 20,20-28) O amor é assim. Vive para morrer. Morre para que o outro viva. E acha o seu sentido profundo quando gasta a vida pelo bem do outro. Jesus assevera: “Ninguém tem maior amor do que quem dá a vida por seu amigo.” (Jo 15,13.) As hipóteses freudianas sobre o homem divergem: pregam a afirmação de si mesmo, a busca de realização pessoal, a recusa de toda ascese, o abandono às próprias inclinações e a repulsa por todo sacrifício. Claro: Freud e o Evangelho são antípodas… E desde que sua psicologia se vulgarizou, foi minguando nossa capacidade de doação, a disposição para o altruísmo, para uma vida centrada no outro. Sempre mais egoístas, roubamos do amor seu sopro de eternidade para viver com mesquinhez as realidades terrestres. Na Encíclica “Deus é amor”, Bento XVI diz: “A verdadeira novidade do Novo Testamento não reside em novas ideias, mas na própria figura de Cristo, que dá carne e sangue aos conceitos – um incrível realismo. […] Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si próprio, com o qual Ele se entrega para levantar o homem e salvá-lo – o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado transpassado de Cristo, de que fala João (cf. 19, 37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Encíclica: “Deus é amor” (1Jo 4, 8). É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e...