Então, eles jejuarão… (Mt 9,14-15)

Então, eles jejuarão… (Mt 9,14-15) Nosso mundo vive um tempo de estranhos contrastes. No hemisfério norte, a obesidade infla a população como autêntica epidemia; já no hemisfério sul, mais de um bilhão de pessoas não consegue fazer uma única refeição por dia. Neste contexto, ainda faria sentido falar em jejum? Podemos aprender algo importante com João Calvino [+1564]: “Digamos alguma coisa sobre o jejum, pois muita gente, ignorando sua utilidade, pensam que ele não é necessário. E outros, o que é ainda mais grave, rejeitam o jejum como algo inteiramente supérfluo. Ademais, quando não se conhece bem o seu uso, pode-se fazer dele facilmente uma prática supersticiosa. O jejum santo e reto visa a três diferentes finalidades: primeiro, para domar a carne, a fim de ela não se anime em excesso; a seguir, para mais bem dispor o coração à prece, à oração e outras santas meditações; enfim, para dar testemunho de nossa humildade diante de Deus, quando queremos confessar perante ele o nosso pecado. Cada vez que temos de rogar a Deus em comum por alguma coisa importante, é bom exortar ao jejum. Foi assim que os fiéis de Antioquia, quando impuseram as mãos a Paulo e Barnabé, juntaram o jejum à oração (At 13,3). Neste tipo de jejum, eles não tinham outro objetivo a não ser mais bem se dispor e se tornarem mais alegres na oração. De fato, quando o ventre está cheio, o espírito não é muito vivaz para elevar-se até Deus; ele experimenta menos uma ardente disposição para a prece e é menos estimulado a perseverar. Não entendemos como jejum apenas a simples temperança...

Tome a sua cruz… (Lc 9,22-25)

Tome a sua cruz… (Lc 9,22-25) Em tempos de facilidades e de prazeres prêt-à-porter, quando os fornecedores nos convidam à lei do mínimo esforço, esta é a frase do Evangelho que nos parece mais antipática e fora de moda: tomar sua cruz… Desde o início da pregação cristã, a cruz foi objeto de escândalo. Exatamente o sinal de nossa salvação – a Santa Cruz, que a liturgia chama de arbor nobilis [árvore nobre] – torna-se para o mundo neopagão o símbolo de tudo o que é pesado e detestável. No fundo, enganamo-nos ao pensar que iríamos arrastar a cruz sozinhos, apenas com nosso próprio esforço e suor. Santo Agostinho [+430] já havia tratado do tema: “Se alguém quer caminhar em meu seguimento, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Isto que o Senhor ordenou parece duro e penoso! Mas, na realidade, não é duro nem penoso, porque aquele que ordena é o mesmo que ajuda a realizar o que ele ordena. Pois também é verdadeira a palavra do Salmo: ‘Por causa das palavras de teus lábios, eu segui caminhos penosos’. (Sl 17,4.) E é igualmente verdadeira a palavra que ele mesmo pronunciou: ‘Meu jugo é fácil de levar, e meu fardo é leve’. (Mt 11,30.) Pois tudo o que é duro no mandamento, o amor o torna fácil. Que significa ‘tome a sua cruz’? Que ele assuma tudo o que é penoso: que assim ele me siga. Pois, quando ele começar a me seguir conformando sua conduta aos meus mandamentos, haverá muita gente para o contradizer, muitos para se oporem a ele, inúmeros para o desencorajar. E...

Entra no teu quarto… (Mt 6,1-6.16-18)

Entra no teu quarto… (Mt 6,1-6.16-18) Em termos de vida de oração, nós somos eternos aprendizes. Dificilmente iremos encontrar alguém que se declare satisfeito com a oração que faz, pois são muitas as barreiras que dificultam nossa relação com Deus. Hoje, vamos aprender com o monge beneditino François Trévedy, que reflete conosco sobre este Evangelho: “‘Quando tu rezares, entra…’ Entra. Eis a primeira palavra de Jesus sobre a oração, a primeira etapa do método que ele nos ensina. Entra. Desde já, a direção nos é indicada: é preciso ir no sentido do interior. Entra. Vale dizer que nós estamos sempre do lado de fora; vale dizer que permanecemos fora por tanto tempo, que não rezamos; fora de nós mesmos, fora da Igreja, fora do mundo, fora de Deus. A oração nos leva a re-integrar nosso Domicílio e nosso Lugar; ela é a Páscoa de fora para dentro. Quando Judas foi para fora, ‘era noite’ (Jo 13,30). Tu também, por mais tempo que fiques de fora, se não te esforças por vir a ser um homem de oração, tu permaneces exilado nas ‘trevas exteriores’ (cf. Mt 25,30). Tão logo rezas, tu entras na luz, pois a luz está dentro. Durante todo o tempo que ficas de fora, tu experimentas a tristeza. Entras? Eis a alegria! ‘Entra na alegria de teu Senhor’ (Mt 25,21). O irmão mais velho do pródigo, ‘próximo da casa, ouviu música e danças’, mas ele foi tomado de cólera e recusou entrar’ (Lc 15,25.28). Do lado de fora, só existe agitação: ‘Esforcemo-nos, pois, por entrar no repouso’ do Senhor (Hb 4,11), no grande sábado da oração contemplativa....

O fermento dos fariseus… (Mc 8,14-21)

O fermento dos fariseus… (Mc 8,14-21) Durante a travessia do lago, Jesus dá um inesperado alerta aos discípulos: “Cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes!” Isto equivale a dizer: “Mantenham distância! Cuidado com o seu poder de corrupção! Não se exponham!” Na Bíblia (com uma única exceção, creio eu: Lc 13,21), a imagem do fermento é símbolo do mal e da impureza espiritual. Tanto que, na véspera da Páscoa, as famílias judaicas deviam pesquisar toda a casa à procura de fermento velho a ser descartado (cf. Ex 12,15.19). A hipocrisia dos fariseus “azedava a massa”, o povo de Israel que Jesus via como “ovelhas sem pastor”. Eis o interessante comentário da Bíblia de Navarra: “Aqui, a palavra ‘fermento’ é utilizada no sentido de ‘má disposição’. Com efeito, na elaboração do pão, como é sabido, o fermento é que faz levedar a massa. A hipocrisia farisaica e a vida dissoluta de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram o ‘fermento’ que contagiava a partir de dentro a ‘massa’ de Israel, para acabar por corrompê-la. Jesus quer prevenir seus discípulos contra esses perigos, e fazê-los compreender que, para receber sua doutrina, se necessita de um coração puro e simples”. Hoje também há numerosos “fermentos” por aí afora, azedando a vida da Igreja. Penso em teólogos já sem fé que propõem interpretações da Bíblia de cunho racionalista, baseados apenas em palpites pessoais ou na ideologia de seu grupo acadêmico. Penso em moralistas que, com a intenção de “modernizar” a Igreja, assumem posições subjetivas, pragmáticas, mas que ferem frontalmente a tradição apostólica e a herança judaico-cristã....

Por que esta geração pede um sinal? (Mc 8,11-13)

Por que esta geração pede um sinal? (Mc 8,11-13) Nesta passagem do Evangelho, Jesus se mostra algo irritado com a permanente pressão dos fariseus que, tentando pô-lo à prova, chegavam a cobrar dele um sinal do céu que avalizasse a sua autoridade. São João da Cruz afirma claramente que essa mania de pedir “sinais” a Deus e essa sede de visões e revelações são incompatíveis com os tempos da Nova Aliança em Jesus Cristo. O santo do Carmelo diz que o hábito de fazer perguntas a Deus, como no tempo dos antigos profetas, se explica porque “ainda não estavam bem assentados os fundamentos da fé, nem estabelecida a Lei evangélica”. Agora, porém, “já estabelecida a fé em Cristo, e a Lei evangélica promulgada na era da graça, não há mais razão para perguntar daquele modo, nem aguardar as respostas e os oráculos de Deus, como antigamente. Porque, ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma vez nessa Palavra, e nada mais tem para falar”. Quando se multiplicam as notícias de aparições, de fenômenos solares, ao lado de profecias de noites de trevas, manifesta-se claramente o estágio primitivo de uma fé que não chegou a amadurecer. O mesmo Doutor ensina: “Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia em uma insensatez, mas agravaria muito a Deus em não pôr os olhos totalmente em Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo, dizendo: ‘Se eu te falei já todas as coisas em minha...

Se queres, podes limpar-me… (Mc 1,40-45)

Se queres, podes limpar-me… (Mc 1,40-45) Querer é poder? Não para nós. Só para Deus. O que está ao nosso alcance é a atitude do leproso deste Evangelho, que faz uma aposta no querer de Deus e se abandona plenamente ao toque de suas mãos. É fácil? Não. É difícil? Também não. É uma questão de fé, não de humano esforço. E existem vários níveis de fé. Se entro em um ônibus, faço um ato de fé no motorista. Se sofro uma cirurgia, faço um ato de fé no anestesista e no cirurgião. Trata-se de uma atitude de abandono que realizamos como algo inevitável. É diferente a fé do leproso. No caso dele, a única inevitável era a certeza de seu mal, a realidade de sua exclusão social, a fatalidade de seu destino. No entanto, pulsa em seu íntimo uma força que supera toda limitação da natureza humana. Quando Jesus se referiu a esta força, afirmou que ela poderia transportar montanhas (cf. Mt 17,20). No mínimo, este Evangelho poderia ensinar-nos o segredo da oração cristã. Levando em conta não as nossas forças, mas o poder e a bondade daquele a quem nos dirigimos, nossa oração se torna onipotente. Eis a reflexão de Pascásio Radbert [785-860 d.C.]: “Este leproso nos dá excelente conselho sobre a maneira de rezar. Ele não põe em dúvida a vontade de Senhor, como se recusasse crer em sua bondade, mas, consciente da gravidade de suas faltas, não quer presumir essa vontade. Quando diz que o Senhor, se o quiser, pode purificá-lo, ele faz bem em afirmar desse modo o poder que pertence ao Senhor, bem...