Deus não fará justiça? (Lc 18,1-8)

Deus não fará justiça? (Lc 18,1-8) Na retórica, as perguntas são utilizadas com diferentes intenções. Há perguntas motivadoras para o auditório. Há perguntas que servem de “escada” para o próprio orador. E há perguntas que dispensam resposta, pois elas são absurdas por natureza. É o caso da pergunta acima: Deus, o Justo, deixaria de fazer justiça àqueles que clamam por ele dia e noite? Fica evidente que uma atitude de indiferença ou de neutralidade diante da injustiça atentaria contra a própria natureza divina. Como Deus é justo, acabará por intervir e fazer justiça. Para acentuar esta verdade – que deveria ser óbvia – Jesus narra a curta parábola de um “juiz injusto”. Isto, por si só, já é um absurdo: o homem encarregado de fazer justiça é, por definição, um inimigo da própria justiça. E mais: o próprio magistrado tem consciência disso: “Não temo a Deus nem tenho respeito pelos homens!” (Lc 18,4) E assim caem por terra dois pilares da Justiça: a relação vertical com o Criador de todos os homens e a relação horizontal com nossos irmãos humanos. Jesus faz entrar em cena a figura da viúva pobre que vai ao juiz injusto em busca de… justiça! Qual seria o teor da causa? Roubaram-lhe a cabra que lhe fornecia dois copos de leite por dia? O inquilino que alugara a casinha do finado marido se recusava a pagar o aluguel? Não vem ao caso, mas tenho convicção de que seria algo pequeno… tão pequeno quanto os pobres de Yahweh. E Jesus narra – imagino que pausadamente, sem pressa, estendendo os detalhes, ao gosto dos orientais – as...

Como nos dias de Noé… (Lc 17,26-37)

Como nos dias de Noé… (Lc 17,26-37) Não é possível evitar o impacto do versículo 37: “Onde estiver o corpo, ali se juntarão os abutres.” Também os urubus do Brasil têm um “sexto sentido” que os orienta para a carniça, mesmo a grandes distâncias. A imagem é forte – até mesmo desagradável – mas chama nossa atenção para uma espécie de tropismo animal que orienta o predador para sua presa. Não deveria haver também em nós um tropismo para Deus? Uma atração para as coisas espirituais? Não deveríamos ser capazes de ler os “sinais dos tempos” e, a partir deles, achar o melhor caminho em nossa vida? Nos dias de Noé, Deus alertou a humanidade a respeito do dilúvio. Não é difícil imaginar os contemporâneos de Noé a zombar de sua grande (b)arca, apontando para o céu sem nuvens e a distância do mar. Enquanto isso, casavam-se, comiam e bebiam. Pois veio a inundação e todos pereceram… Nos dias de Lot, Deus voltou a alertar a humanidade. Devem ter rido de Lot e sua família quando estes fugiram no seu êxodo familiar. Enquanto isso, comiam, bebiam e casavam-se. Pois veio o fogo do céu e foram consumidos. Mais uma vez, os sinais dos tempos foram inúteis. E hoje? Temos sinais? Sinais da natureza como furacões e tsunamis, terremotos e graves alterações climáticas? Sinais da sociedade como guerras e revoluções, aborto legal e eutanásia, casamento homossexual e pedofilia na Internet? Sinais socioeconômicos como as legiões de sem-teto e sem-terra, milhões de refugiados e trabalhadores escravos? Sinais biológicos como pestes e epidemias? Sinais religiosos, como heresias, seitas e deserções? Sim, há...

O Reino está dentro de vós… (Lc 17,20-25)

O Reino está dentro de vós… (Lc 17,20-25) No mundo capitalista, a ação humana tem sido superestimada. As pessoas são valorizadas por aquilo que fazem. Mesmo a missão pastoral da Igreja, cujo fim último devia ser encaminhar os homens para Deus, tem sido confundido com “atividades”. Nesta linha de pensamento, oração e contemplação, meditação e escuta de Deus seriam sintomas de “intimismo”, ou seja, uma forma de “perder tempo”, quando há tanta coisa a fazer lá fora… Ora, a história recente mostra que a simples ação humana, sem o sopro interior do Espírito, não só é incapaz de aperfeiçoar a sociedade, mas acaba por levar os agentes de pastoral ao stress, ao desânimo e à busca de compensações nada evangélicas… Transpiração sem inspiração, isto sim, é perda de tempo! Ao afirmar aos fariseus que o Reino de Deus está dentro da pessoa humana, Jesus ensina que uma voz interior está sempre a dialogar conosco. Há uma “presença” divina no coração humano. A voz da consciência alerta para a responsabilidade moral, as inspirações apontam o caminho, aquela fonte silenciosa brota em momentos especiais: eis alguns sinais dessa presença. Lendo a vida dos santos, nós os vemos sintonizados na emissora do Espírito Santo. Uma sintonia fina lhes permitia perceber sua vocação e missão, fortalecendo-os diante dos obstáculos que o maligno ergue contra a obra de Deus. Uma sintonia obtida exatamente por meio daqueles procedimentos que a crítica moderninha chama de perda de tempo: escuta e oração, meditação da Palavra de Deus, intimidade com Jesus nos sacramentos. Depois disto, alimentados e iluminados, aí, sim, saíam na direção do pobre e do descrente,...

Onde estão os nove? (Lc 17,11-19)

Onde estão os nove? (Lc 17,11-19) Em apenas nove versículos, um amplo panorama sobre a realidade humana! Na porta da aldeia de fronteira, dez leprosos marginalizados, definitivamente impedidos de participar da vida social. Como tantos marginais de nosso tempo… Vendo a passagem de Jesus, cuja fama de terapeuta há havia chegado até eles, clamam de longe, mas não ousam se aproximar. Como tantos infelizes de nosso século… Tomados de doença incurável naquela época, os dez leprosos não têm a quem recorrer. Como tantos enfermos do Brasil, aos quais os serviços de saúde se declaram sem condições de ajudar… Necessidade e indiferença… Doença e marginalização… A quem recorrerá o pobre? Neste Evangelho, os pobres leprosos recorrem a Jesus, à espera da esmola da saúde. O verbo que eles utilizam [eleéson] é da mesma família que a palavra “esmola” [eleemosýne], associada ao termo “misericórdia”, inseparável, em grego, do substantivo eláion, o azeite – exatamente o óleo de oliva utilizado para amenizar as feridas da carne humana. Não pedem justiça. Não pedem um acerto de contas. Não alegam nenhum mérito pessoal. Apenas clamam por compaixão. Esta é a condição da realidade humana: a miséria. Aquela miséria que faz cócegas na misericórdia e puxa o gatilho do dom… A reação de Jesus não parece muito emocionada. Antes, alguém diria que foi algo burocrática, pois apenas os enviou aos sacerdotes do Tempo, legalmente encarregados de examinar uma pessoa e declarar sua pureza ritual (no caso de um leproso, um atestado de saúde). Eles obedecem. E nós, modernos, já nos espantamos com sua prontidão. O que os move? Fé? Esperança? Apostam na última tábua de...

Somos servos inúteis… (Lc 17,7-10)

Somos servos inúteis… (Lc 17,7-10) Em nossa vida, tudo é graça. Tudo é dom. Mesmo o bem que fazemos, só o fazemos porque o amor de Deus agiu em nós. Um santo dizia: “Se eu pequei, Deus me perdoou; se eu não pequei, Deus me sustentou.” De fato, se o Senhor nos entregar a nós mesmos, a nossas más inclinações, boa coisa não sairá… Hoje, mesmo na Igreja, cresce outra vez a heresia pelagiana. Segundo esta concepção do homem, nós seríamos capazes de fazer o bem e chegar à salvação apenas contando com nosso esforço e boa vontade. Leia-se: sem a graça de Deus. Tal mistura de voluntarismo e esforço heroico (derivada de uma ilusão otimista acerca de nossa natureza!) acaba por dispensar Deus e colocar-nos em seu pedestal. Ora. Este acesso de loucura existencial é diretamente contradito pelo ensinamento de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer.” (Jo 15,5.) Em tudo, dependemos do Senhor. Sem o Espírito Santo, nos desviamos da verdade. Contando apenas conosco, decaímos em terríveis degradações morais. Ora, no Evangelho de hoje, somos interpelados por esta frase dura de engolir: “Somos servos inúteis…” Alguns pretendem atenuar a tradução: “Somos uns servos quaisquer… Somos uns pobres servidores…” Mas é bater de frente contra a tradução direta (e literal) da expressão original de São Lucas! Creio que Jesus sabia o que dizia aos nos qualificar assim. Por um lado, ao chamar apóstolos e discípulos, é claro que Jesus contava com nossa cooperação na construção do Reino. Quis precisar de nossa… inutilidade. Por outro lado, o Mestre devia saber do risco que corremos quando cumprimos nossa obrigação e nos...

Sete vezes… (Lc 17,1-6)

Sete vezes… (Lc 17,1-6) Não. Não se trata de neutralidade diante do mal. Quem erra precisa de correção. A impunidade reforça o erro. Mas os arrependidos merecem perdão. Uns mais, outros menos, todos nós erramos um dia e precisaremos do perdão. Não fosse tão imperiosa a necessidade de ser perdoado, o Senhor não nos teria ensinado a rezar: “Perdoai as nossas dívidas” ou, segundo a nova tradução, “perdoai as nossas ofensas”. Se o perdão nos é negado, cresce em nós o remorso, o sentimento de culpa ou o desespero. Foi um perdão excessivamente adiado que fez de Absalão o inimigo nº 1 de seu pai, Davi. (Cf. 2Sm 14,24.) Ao contrário, quando lemos no Evangelho que o Paraíso foi reinaugurado com a entrada inesperada de um criminoso arrependido – a quem, eufemisticamente, chamamos de “bom ladrão” (cf. Lc 23,43) – tomamos consciência de que também nós podemos ter acesso ao perdão divino. Sim, dois mil anos depois de Cristo, ainda temos dificuldades em relação ao perdão. Primeiro, a dificuldade em pedir perdão. Oscilamos entre o desespero (modalidade de orgulho que nos leva a pensar que nosso pecado foi maior que a misericórdia divina) e a arrogância (eu sou assim; quem quiser, que me engula do jeito que eu sou)… A seguir, a dificuldade de dar perdão. Arrazoamos: “Se perdoo já, mostro fraqueza… Vão abusar e recair no erro… É melhor um tempo de silêncio, um “gelo”, com relações cortadas… Vou adiar, dar uma de ‘durão’, dificultar as coisas…” E não percebemos o essencial: quando alguém é perdoado, especialmente em matéria grave, tem a oportunidade de experimentar o amor que...