Conforme prometera a nossos pais… (Lc 1,39-56)

31/05/2017 – Conforme prometera a nossos pais… (Lc 1,39-56) Na festa da Visitação de Nossa Senhora, Mãe de Jesus, a Isabel, mãe de João Batista, a liturgia nos põe em contato com o mesmo Evangelho do 4º Domingo do Advento (ano C). Os católicos do Oriente chamam esta festa de “aspasmós”, a “saudação”, aproveitando a frase de Isabel, no sexto mês da gravidez: “Tão logo a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu ventre”. Esta cena está situada como uma dobradiça entre as duas alianças: de um lado Isabel, que representa a Antiga Aliança enquanto portadora de João Batista, o último dos profetas; do outro, Maria de Nazaré, anunciando a Nova Aliança como portadora de Jesus, o Messias prometido. De um lado, séculos de promessas feitas aos patriarcas (“nossos pais”) e ressoadas na voz dos profetas, como Isaías que olha além do horizonte e vê a Virgem que dá à luz o Emanuel. Do outro lado, o cumprimento das promessas realçado por Maria em seu “Magnificat”: “[O Senhor] acolheu Israel, seu servidor, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. Em Isabel, concentra-se a prolongada expectativa de Abraão, Isaac e Israel/Jacó. Não admira que João, ainda na vida pré-natal (atenção para o duplo sentido de pré-Natal!), estremeça de alegria ao perceber a aproximação daquele a quem deveria anunciar. Ora, esta festa vem abrir nossos olhos e agitar nosso coração, como se dissesse: – “Atenção! Deus cumpre suas promessas! Deus sempre nos visitará! Às vezes demora, passam gerações, mas a promessa...

Glorifica teu Filho! (Jo 17,1-11a)

30/05/2017 – Glorifica teu Filho! (Jo 17,1-11a) Jesus, nesta mesma mesa, acaba de lavar os pés dos discípulos (cf. Jo 13), na mais extrema mostra de humildade daquele que “veio para servir”. Um gesto tão inusitado, tão inesperado, que o primeiro impulso de Simão é o de recusá-lo. Agora, em oração ao Pai, o mesmo Jesus pede para ser glorificado. Veríamos aqui uma contradição? Do modo algum! É que, entre nós, a palavra “glória” é um termo bastante ambíguo e pode levar-nos a pensar no fausto dos imperadores, nos louros do atleta olímpico, nos aplausos do artista consagrado. E não é disso que Jesus está falando… Como comenta Dom Claude Rault, Bispo do Saara argelino, a “glória” de Jesus consiste apenas em ser reconhecido como o Filho do Pai. Se o mundo o reconhecer como Filho, Deus será logo reconhecido como Pai, abrindo um luminoso caminho de salvação à multidão dos filhos que talvez ainda o desconheçam. “A ‘glória de Deus’ é Deus ser acolhido por aquilo que ele é: o ‘Abbá’, Pai de Jesus, o ‘Abbá’ da humanidade inteira. A glória de Deus é o próprio Deus presente no coração de toda pessoa humana reconhecida como seu filho, a começar pelos mais abandonados e pequeninos. A glória de Deus é o homem e a mulher reconhecidos por aquilo que eles são: crianças de Deus. ‘A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus’ – dizia Santo Irineu. A glória de Deus é a humanidade respeitada em cada um de seus membros, é a dignidade humana reconhecida em toda pessoa,...

Eu venci o mundo! (Jo 16,29-33)

29/05/2017 – Eu venci o mundo! (Jo 16,29-33) Por um lado, os discípulos manifestam arroubos de entusiasmo, ao afirmarem que “agora, sim” acreditam na divindade de Jesus. Por outro lado, o Mestre contrapõe que em breve tempo eles fugirão e o deixarão sozinho, acompanhado apenas pelo Pai. Mas Jesus sabe que é necessário animar seus frágeis seguidores. Daí, as palavras de estímulo: “Coragem! Eu venci o mundo!” Não é preciso muita criatividade para imaginar a cara de decepção desses mesmos discípulos quando, logo a seguir, Jesus se deixa prender, torturar e crucificar. Afinal, onde estava a decantada vitória sobre o mundo? Se eles tinham esperado por um sucesso pronto, total, acabado, enganaram-se por completo. Ainda que o grão de trigo já traga em seu íntimo toda a colheita, era preciso morrer primeiro… E este é o ensinamento do Concílio Vaticano II, no Decreto Presbyterorum Ordinis (sobre o ministério e a vida dos sacerdotes): “Aliás, o Senhor Jesus, que disse: Tende confiança, eu venci o mundo, não prometeu por essas palavras à sua Igreja uma vitória total no mundo. De fato o Sacrossanto Sínodo alegra-se de que a terra coberta com a semente do Evangelho agora frutifique em muitos lugares sob o sopro do Espírito do Senhor, que enche o orbe terrestre […]”. (PO, 22.) Isto pode explicar que, ainda hoje, em muitos lugares, o príncipe deste mundo esteja recebendo honras indevidas: alguém esperou por milagres e economizou trabalho… O Espírito de Deus não encontrou pés para caminhar, vozes para falar, mãos para agir. O Evangelho encontrou as portas fechadas porque alguém não quis suar a camisa. E a vitória...

Eu estou convosco… (Mt 28,16-20)

28/05/2017 – Eu estou convosco… (Mt 28,16-20) O episódio narrado neste Evangelho é a Ascensão de Jesus Cristo que, completada a sua missão terrena, regressa ao Pai, de Quem viera para oferecer a salvação a toda a humanidade. O cenário é uma “alta montanha”, retomando a imagem dos lugares altos como o espaço privilegiado do encontro com Deus. As outras personagens da cena são os Onze apóstolos, ainda fragmentados entre exultação e dúvida, misturando esperanças e incertezas. E se as dúvidas permanecem mesmo diante do Cristo ressuscitado, elas vêm comprovar que até para os discípulos a Ressurreição de Jesus superava de longe toda a imaginação daqueles pobres seguidores do Mestre. De fato, o homem natural não oferece qualquer apoio para a fé no Ressuscitado. Só após a iluminação da manhã de Pentecostes esta barreira seria superada na força do Espírito Santo. Como apoio e consolo, os apóstolos ouvem uma nova e inesperada promessa de Jesus Cristo: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”, isto é, até a vinda definitiva do Reino de Deus. Como diz Hébert Roux, “todas as ordens dadas pelo Senhor têm em vista este fim. Para todo discípulo, trata-se de perseverar até o fim (cf. Mt 24,14; Hb 3,6). Ora, entre sua primeira e sua segunda vinda, Cristo não deixa órfãos os seus discípulos (cf. Jo 14,18ss). Aquele que era e que vem, é Aquele que é! (Ap 1,4.8; 4,8)”. O nome do Salvador, na profecia de Isaías (7,14) é Emanuel, um “Deus-conosco”, que não saberia ausentar-se do cotidiano de sua Igreja, recolhido à olímpica eternidade e indiferente à engrenagem dos...

O próprio Pai vos ama… (Jo 16,23b-28)

27/05/2017 – O próprio Pai vos ama… (Jo 16,23b-28) Sim, Deus tem por todos nós um amor incondicional. Deus não nos ama porque nós somos bons, mas porque ELE é bom. Nem ele esperou que nós o amássemos, pois, como diz S. João em uma de suas Cartas, “Deus nos amou primeiro”. (1Jo 4,19.) No entanto, no Evangelho de hoje, Jesus nos apresenta uma “razão” para o Pai ter por nós um amor de predileção: “É o próprio Pai que vos ama, por vós me terdes amado e haverdes acreditado que Eu vim de junto de Deus”. O discípulo convive com Jesus, chega a amá-lo e, por isso, desperta ainda mais o amor do Pai. Claro que o Pai já nos amava bem antes. Afinal, Deus ama tudo o que ele criou, mesmo os filhos rebeldes, conforme ficou explícito na parábola do filho pródigo, ou melhor, do “Pai amoroso” (cf. Lc 15,11ss.). Entre o Artista e as obras por ele criadas há um amor de “paternidade”. Mesmo aqueles que pintam para vender suas telas, experimentam um certo sentimento de perda ao se desfazerem delas. E nós não somos telas pintadas: somos criaturas vocacionadas à filiação! Decerto, há uma gradação no amor de Deus por suas criaturas: não amaria no mesmo grau uma rocha, um colibri e um bebê. Este último é dotado de uma alma imortal (exclusiva dos humanos), “capaz de Deus”, e veio à vida como alguém chamado à amizade e à comunhão com Deus em um patamar que está fora do alcance dos seres irracionais. Esta descoberta ajuda a entender que o Filho de Deus tenha morrido...

Depois que a criança nasceu… (Jo 16,20-23a)

26/05/2017 – Depois que a criança nasceu… (Jo 16,20-23a) Estamos mergulhados no tempo. Nós somos atores em plena História. Por isso mesmo, uma perspectiva histórica é indispensável para bem avaliar nossa existência. As crianças – imaturas que são – ainda não possuem esta perspectiva. Se elas querem uma bala, agora, mesmo que faltem dez minutos para o almoço, é “agora” que elas querem a bala. Em vão os pais se esforçam por levar o pequeno a resignar-se a um tempo de espera, antes que o momento do doce seja mais conveniente. Bem, há imaturos também entre adultos… Muitos marmanjos consideram apenas as injunções do instante para tomar suas decisões, ainda que um segundo de ira ou dois minutos de prazer venham a comprometer todo o seu futuro. No Evangelho de hoje, Jesus faz o contraponto entre o momento presente, de pranto e lamento, e o futuro de alegria. Para tanto, ele se vale da imagem da parturiente: na hora do parto, todo o seu corpo se revolve na dor e na angústia; pouco depois, tendo já nos braços o recém-nascido, a alegria presente praticamente apaga a dor e a ansiedade do passado. A vida nova justifica tudo o que passou… A vida nova! É este o alvo do seguidor de Cristo! No momento atual, imerso no tempo tecido de encontros e desencontros, de promessas e traições, de suores e lágrimas, o cristão sofre. Esta é a nossa condição. Mas estamos em trabalhos de parto. Nós e o Cosmo! O apóstolo Paulo se refere a esta realidade: “Sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em...