Pelo caminho reto… (Sl 101 [100])

Pelo caminho reto… (Sl 101 [100]) O homem é um andarilho sobre a terra. Mesmo depois de abandonar a vida nômade dos beduínos e tuaregues, fixando-se em aldeias e cidades, ele prossegue uma peregrinação interior. Homo viator, ele sabe intimamente que está de passagem… O apóstolo Paulo insiste neste aspecto da transitoriedade humana: “Sabemos, com efeito, que ao se desfazer a tenda que habitamos neste mundo, recebemos uma casa preparada por Deus e não por mãos humanas, uma habitação eterna, no céu. […] Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor”. (2Cor 5,1.6b) No entanto, nosso exílio ou peregrinação exige um rumo a seguir. Não podemos caminhar em círculos como Israel em seu êxodo, nem caminhar para a ruína como os soldados de Faraó incursionando no mar. Por isso mesmo, o Salmo 1 – esse magnífico pórtico de entrada para o Saltério – nos posiciona diante de uma encruzilhada, com dois caminhos opcionais: o caminho da vida e o caminho da morte. No primeiro, somos como árvores plantadas à beira das águas, com uma folhagem que não murcha e frutos na estação adequada. No segundo caminho, acabaríamos como palha seca arrastada pelo vento do deserto. A Bíblia não foi escrita por sonhadores que caminhavam sobre as nuvens; ao contrário, seus redatores inspirados tinham os pés bem firmes sobre a terra da qual foram modelados. Assim, ao falar da trajetória espiritual dos homens, o verbo “caminhar” lhes ocorre com naturalidade. E não caminhamos sozinhos, pois Deus caminha conosco. “Eu sou o Deus Todo-poderoso. Caminha em minha presença e sê íntegro. Quero fazer-te o dom de...

O Senhor é meu escudo! (Sl 28 [27])

O Senhor é meu escudo! (Sl 28 [27]) A existência humana neste planeta é evidentemente uma condição agônica, isto é, de permanente combate contra forças de desagregação que tendem para o caos. Até a Sequência da Missa de Páscoa – Victimae paschali laudes – refere-se a este conflito: “Mors et vita duello conflixere mirando”, isto é, morte e vida lutam em notável combate. Não admira, pois, que sejam tão frequentes na Bíblia as imagens de caráter guerreiro: a espada da Palavra de Deus, os dardos do inimigo, as fileiras de anjos, a couraça da justiça. É neste contexto que o poeta fala de Deus como seu “escudo”. Arma defensiva, ainda hoje vemos as tropas de choque munidas de escudos nas manifestações de rua. Em escala maior, fala-se em escudo antimíssil como proteção contra ataques terroristas. Assim, escudo é imagem de defesa e proteção. Eis o comentário de Manfred Lurker: “Na Bíblia, o escudo é a figura da proteção concedida por Deus. A Abraão disse o Senhor: ‘Não temas, Abraão! Eu sou teu escudo!’ (Gn 15,1) Após obter uma vitória contra os filisteus, Davi com gratidão chamou a Deus de o seu escudo, seu chifre de salvação e sua praça forte. (2Sm 22,3) Enquanto o escudo oferece normalmente proteção de um lado só, o escudo de Javé dá cobertura total; assim se deve entender o Sl 3,4: ‘Tu, porém, Senhor, és escudo em torno de mim’”. E ainda: “Apoiando-se em Efésios, João Crisóstomo compara a fé ao escudo; assim como este último faz malograr todo ataque, também a fé faz recuar todo mal. Na arte cristã, o escudo é atributo de santos guerreiros...

Não devias tu também? (Mt 18,21-35)

Não devias tu também? (Mt 18,21-35) Este Evangelho pode chamar a atenção de nossos financistas, economistas, auditores e contabilistas, e todos aqueles que “mexem” com dinheiro e contas a pagar. É que a parábola de Jesus está centrada no verbo “dever”. Aquele mesmo verbo que ocupa uma das três colunas dos livros contábeis: DEVE / HAVER / SALDO. Um grande devedor recebe uma grande anistia, sinônimo de perdão. Mal se vê livre da conta a pagar, o anistiado sai a cobrar a pequena dívida do companheiro, chegando ao extremo de obter sua prisão. Em consequência, o cobrador cruel tem anulada a sua anistia e é entregue aos carrascos… Eu devo e sou perdoado. Não devo mais? Claro que devo! Devo ainda mais do que antes! DEVO o perdão a todos aqueles que me devem, pois a mesma misericórdia que me agraciou, agora me comprime a ser uma imagem da misericórdia. Um devedor não pode ter a cara de pau de se alçar como cobrador. Daí, a resposta de Jesus a Pedro: perdoar, sim, não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete: isto é, sempre, sem limites, sem reservas… Dai, a pergunta do “rei” ao servidor cruel: “Não devias tu também?” O teólogo Hans Urs von Balthasar comenta a mesma passagem: “Há poucas parábolas no Evangelho com uma força tão espantosa, não se pode fazer nenhuma objeção a ela. Nem existe outra que nos ponha diante dos olhos, de modo mais dramático, a amplitude de nossa culpável falta de amor: continuamente nós exigimos de nossos semelhantes aquilo que, ao nosso ver, eles nos devem, sem considerar por um instante a falta...

O Senhor se inclina… (Sl 113 [112])

O Senhor se inclina… (Sl 113 [112]) Na mitologia clássica, os deuses gregos e romanos habitavam as altitudes do Olimpo e – para empregar uma expressão nada acadêmica – “não estavam nem aí” para os reles mortais. As raras incursões de alguma divindade em nosso planeta apenas causavam confusão e terror. Não é assim no mundo bíblico. O Senhor Yahweh – o Deus das Escrituras – toma a iniciativa de se revelar aos homens que havia criado. Dialoga com eles. Convoca Abrão para dar ao início a um povo “seu”: meu povo! Transmite a Moisés as tábuas da Lei. Fala pelos profetas. Quer ser um “Deus-conosco”… Apenas uma experiência desta natureza justifica o versículo deste Salmo: “Quem é igual ao Senhor nosso Deus, que mora no alto e se inclina para olhar para os céus e para a terra?” Sim, o homem não precisa realizar o esforço atlético de olhar acima das nuvens, nem galgar os árduos degraus de uma escada celeste, como no antigo ícone do Oriente. É do próprio Senhor a iniciativa de se inclinar, rebaixando-se, e descer ao nível da criatura, tornando-se acessível e imanente. Natural, o salmista não podia imaginar, na meia-luz da Primeira Aliança, que esta “inclinação” divina chegaria ao extremo de nos enviar seu próprio Filho. Encarnado, nascido de Mulher, viria a nós o Verbo eterno, despido da glória que cegava os anjos, para se abandonar às mãos humanas e permitir o mais íntimo e próximo contato. Cumpria-se a profecia do Emanuel… Em comentário a este Salmo, Santo Agostinho interroga seus ouvintes: “Nas alturas em que habita, o Senhor também vê as coisas humildes?” Deus...

Junto à cruz… (Jo 19,25-27)

Junto à cruz… (Jo 19,25-27) Aparentemente, apenas uma cláusula locativa. Adverbial de lugar. Só que o mesmo lugar registra notáveis ausências: ali não se vê Pedro, a “rocha”. Não está presente Simão, o zelota, isto é, o bravo guerrilheiro. Todos os amigos de Jesus fugiram diante do anticlímax inesperado: a prisão, condenação e crucifixão de Jesus. “Junto à cruz”, apenas quatro mulheres e um jovem discípulo. Pois a presença de João, que não teme se arriscar nem se permite abandonar o Mestre amante, acaba recompensada de modo admirável. Vendo que sua vida chegava ao fim, Jesus deixa seu maior tesouro, Maria, sob os cuidados do discípulo amado. “Eis a tua mãe!” Os Padres da Igreja reconheceram na pessoa de João, aos pés da cruz, uma figura da Igreja que acompanha o Mestre em sua Paixão. Modernamente, São Josemaría Escrivá comentaria: “Os autores espirituais viram nestas palavras do Santo Evangelho um convite dirigido a todos os cristãos para que Maria entre também em suas vidas. Em certo sentido, é quase supérfluo este esclarecimento. Maria quer certamente que a invoquemos, que nos aproximemos dela com confiança, que apelemos para a sua maternidade, pedindo-lhe que se manifeste como nossa Mãe”. Por outro lado, também Maria, aos pés da cruz, é convidada a experimentar uma ampliação de sua maternidade. A partir do Calvário, aquela que era Mãe de Jesus Cristo deve estender seu manto materno sobre todo o “corpo de Cristo”, a Igreja. Dali em diante, cada fiel, imagem de Jesus, passa a ser incluído como filho de Maria. Nestes últimos tempos, quando o Papa João Paulo II adotou como lema a expressão “totus tuus”...

Deu o seu Filho único… (Jo 3,13-17)

Deu o seu Filho único… (Jo 3,13-17) Ainda há pessoas que contemplam a Cruz e apenas veem naquele madeiro um cruel instrumento de tortura: seu olhar se detém no sofrimento. E, com isso, perdem a oportunidade de contemplar o Amor. Um amor sem medidas nem barreiras, amor que abraça a morte para nos salvar. Em outra passagem do Evangelho, Jesus havia ensinado: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. (Jo 15,13.) Como sempre, Jesus pratica o que ensina. Por isso subirá o Calvário e morrerá na Cruz. Muitos perguntam: Deus não poderia ter encontrado diferente meio de nos salvar? Precisava ser a Cruz, um “método” tão doloroso? E tendo como vítima propiciatória logo o seu próprio Filho? A resposta pode ser mais simples do que se imagina: Deus queria mostrar a que extremos seu Amor por nós pode chegar… Seu Filho se faz homem e morre por nós, salvando a Humanidade “de dentro para fora”. E há mais: essa “entrega” do Filho único à morte tem um objetivo bem definido: “para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”… Devemos pensar como o apóstolo Paulo: Cristo “me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20b). E quem ama está disposto a tudo. Claro que um amor assim pede resposta, pede correspondência. A recusa de um amor tão extremado não pode ficar sem um preço. Se a Luz vem aos homens e eles a rejeitam, recusam a própria salvação. A ação do Espírito Santo em nós visa à nossa adesão a Cristo, que deu a vida por nós. A recusa...