JOSÉ DE ALENCAR E A LIBERDADE
Perguntaram-me sobre a liberdade. Vivendo num dos pulmões do mundo, no Noroeste da Amazônia, na cidade mais indígena do Brasil, decidi evocar o pai da literatura indigenista no Brasil para ajudar-me a responder com um pouco de candura, poesia e lirismo tal questão. Tentei buscar aquele homem imortalizado pelo romance platônico de Ceci e Peri em O Guarani e pela flamejante paixão do português Marfim e da índia tabajara, Iracema, mãe do filho da dor, Moacir, o proto-cerense, como o próprio criador do texto dissera. Decidi, portanto, citar o não tão simples José de Alencar.
Além de grande Literado, advogado proeminente e hábil político, José de Alencar, também foi um exímio dramaturgo, autor de inúmeras peças teatrais, no início de sua carreira quando ainda vivia de escrever para folhetins de jornais da corte. Ele escreveu, dentre várias peças, uma que, graças a um bom, novo e estimado amigo, consegui ter o prazer de ler há pouco. Chama-se O Demônio Familiar. Tal magnânima era a pretensão da peça em seu tempo que ela foi dedicada à Imperatriz Teresa Cristina e um dos personagens centrais era homônimo ao Rei, D. Pedro II.
Apenas dois atos, nessa peça, narram a história de um rico senhor, Eduardo, que apaixonara-se, por uma plebéia chamada Henriqueta. Entre ambos há um “escravinho” endiabrado que não quer, a todo custo, ver seu patrão casar-se com essa pobretona, mas com uma viúva rica, na esperança que isso lhe renda uma minguada ascensão. Para tal fim, o encapetado Pedro apronta infindáveis diabruras, mentiras e engodos. Ao perceber que estava singrando o rio no sentido contrário ao dá correnteza, Pedro tenta remendar seus feitos desfazendo o que havia arquitetado, aproximando Henriqueta e Eduardo. Interceptado pelo patrão em suas estripulias, Pedro é castigado. O desfecho da peça é a sentença, a sanção arrogada ao pequeno mocambo. Resoluto, Eduardo, paradoxalmente, condena Pedro à ser livre, dono de seus próprios atos.Diz o senhor: “Toma: é a tua carta de libertação, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti”.
Além de partilhar essa pérola da dramaturgia nacional, queria chamar a atenção para o final do texto, que me impressionou vivamente.Eduardo, a despeito do que eu pensava e esperava, condena Pedro à liberdade, a uma vida livre. Doravante ele responderá sobre seus próprios atos, por sua própria conduta. Talvez seja sobre esse prisma, tomando de empréstimo a idéia do grande Alencar, que eu veja a liberdade. Ela é a “condenação”, ou melhor, a capacidade perpétua de responder, a cada dia, pelas nossas faltas, pelos nossos erros, pelos nossos acertos. Ela é a capacidade tenaz de assumir com altivez as rédeas da própria vida, sabendo que as pessoas, as circunstâncias, os meios de comunicação podem até nos influenciar, mas em última análise, somos nós os responsáveis por discernir acerca das decisões tomadas.
Pe. Reuberson Ferreira, mSC trabalha no Alto Rio Negro, Diocese de S. Gabriel da Cachoeira(AM)