Eu lhes enviarei profetas… (Lc 11,47-54)

Eu lhes enviarei profetas… (Lc 11,47-54) Conforme a Carta aos Hebreus (1,1), nos tempos da Primeira Aliança o Senhor se dirigiu a seu povo através dos profetas. Eram homens comuns, vaqueiros ou catadores de sicômoros, que o Espírito de Deus impelia a profetizar. Nada que nos faça pensar em “adivinhões” a prever o futuro. Antes, eram vozes de alerta que advertiam os responsáveis pelo povo escolhido quando se afastavam da vontade do Senhor. Foi o caso de Natã, que visitou o Rei Davi para conduzi-lo à contrição e à penitência. O Antigo Testamento chama o profeta de “nabi” (aquele que foi chamado) ou de “ro’eh” (o vidente). Ezequiel terá sido o campeão das visões, como a daquele “carro celeste” que muitos se atreveram a traduzir como uma nave espacial. Com palavras ou gestos simbólicos (a canga quebrada de Jeremias, o casamento de Oseias, o tijolo de Ezequiel, etc.), os profetas revelam as intenções de Deus para a vida de seu povo. Na intersecção das duas Alianças, João Batista foi o grande profeta enviado por Deus, quando os céus voltaram a se abrir após 150 anos de silêncio. Sua missão? Apontar o Cordeiro de Deus, identificando na pessoa de Jesus o Messias esperado. Ao longo dos séculos, os profetas foram rejeitados, perseguidos, silenciados pela violência. Por isso mesmo, Jesus lamentava a Cidade Santa: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!” (Mt 23,37.) Assim se manifestava, ao longo dos séculos, a recusa impenitente de um povo amado que não reconhecia o amor de que era alvo. João Batista, o Precursor, preso por Herodes e, a seguir,...

Paz a esta casa! (Lc 10,1-9)

Paz a esta casa! (Lc 10,1-9) Em toda a história a humanidade, nunca se fez ouvir tão forte o clamor pela Paz! Paz que é dom de Deus e nos foi gratuitamente oferecida na pessoa de Jesus Cristo, nossa Paz (cf. Ef 2,14). Quando Jesus nasceu em Belém de Judá, o hino cantado pelos anjos e ouvido pelos pastores falava exatamente de paz: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”. A presença do Filho de Deus entre os homens – muito mais que o arco-íris traçado no céu, após o dilúvio – era o sinal de que a paz estava ao nosso alcance. Fora reatada a nossa Aliança com Deus. Séculos passaram, a areia correu pela ampulheta e… estamos em guerra. Guerra econômica entre Norte e Sul, guerra política entre Islã e Ocidente, guerra afetiva entre marido e mulher. A TV fala de ataques terroristas. As imagens mostram sangue e mutilações. As páginas policiais registram o julgamento do jovem que matou os próprios pais. Onde foi que perdemos a paz? Um dia, entrando na cidade, Jesus chorou sobre Jerusalém, a “Cidade da Paz” que ele tanto amava: “Ah! Se neste dia tivesses conhecido como encontrar a paz! Mas infelizmente isto ficou oculto aos teus olhos! […] Não reconheceste o tempo em que foste visitada!” (Lc 19,42.44.) O tempo tinha passado. A oportunidade fora perdida. Será que também nós iremos desperdiçar a “visitação” que Jesus Cristo nos faz? No Evangelho de hoje, os discípulos são enviados dois a dois. De casa em casa, como portadores de uma mensagem bem específica. Ali chegando, devem anunciar:...

O vosso interior… (Lc 11,37-41)

O vosso interior… (Lc 11,37-41) No tempo de Jesus, o ensinamento dos rabinos judeus incluía estritas normas de “pureza legal”. Nesta passagem, o Mestre, sentou-se para a refeição sem as tais abluções preparatórias, causando certo escândalo a seu anfitrião. Jesus se vale da ocasião para lembrar que a pureza interior era a mais importante. E que de nada vale muita higiene externa, se o íntimo da pessoa cheira mal. Nem podemos disfarçar a falta de amor com algumas esmolas… É hora de lembrar algo óbvio, mas que costuma passar despercebido. A pessoa humana tem dois lados: exterior e interior. Se ambos devem ser cuidados, o interior é mais importante. Pode ser que ela não durma sem escovar 50 vezes os cabelos, tão elogiados por sua beleza, efeito de uma cosmética nem sempre ao alcance dos pobres. E os cabelos são apenas excreção, assim como as unhas e o suor. Será que a mesma pessoa gasta cinco minutos, ao final do dia, para fazer um exame de consciência e pôr em ordem a sua casa interior? Pode ser que o homem de meia idade ande preocupado com a queda de seus cabelos, o que motiva consulta médica e o uso de algum tônico capilar. E do lado de dentro? Que pensamentos ele alimenta? Que sentimentos ele estimula? Raiva, ódio, falta de perdão, planos de vingança? A sociedade pagã vive de aparências, valorizando o sucesso, a fama, os bens acumulados. Não leva em conta se os meios para fazer fortuna incluem a exploração do próximo. O corpo recebe toda a atenção, uma espécie de culto religioso. Proliferam academias de ginástica, visitadas com...

Será um sinal… (Lc 11,29-32)

Será um sinal… (Lc 11,29-32) Quando Nínive recebeu a visita de Jonas (ainda que o profeta ali chegasse a contragosto), seus habitantes levaram a sério o prenúncio de um “castigo do céu”. Por isso mesmo, fizeram penitência. Penitência… Uma palavra antiga, algo desusada, que a Quaresma insiste em recordar, ainda que se resuma a um pouco de cinza na testa… Penitência que devia ser um sinal exterior de uma disposição interior. Algo que falasse, por fora, do profundo pesar interior de ter pecado e ofendido um Deus todo-amor. Na Carta apostólica “Porta Fidei”, o Papa diz que “o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo”. Ou seja, trata-se de mais uma oportunidade que Deus nos concede para orientar nossa vida segundo sua vontade e seu plano de salvação. Em Nínive, os habitantes – até o rei! – fizeram jejum e vestiram roupas ásperas, invocando a misericórdia de Deus. Mesmo os animais ficaram sem a ração de costume. De algum modo, a figura de Jonas sinalizara aos ninivitas a urgência da crise, a premência da conversão, a singularidade daquele momento. Quando veio Jesus Cristo – muito maior que Jonas! (cf. Lc 11,32) -, também ele devia ser percebido como o máximo sinal da parte de Deus: uma oportunidade extrema de salvação. Mesmo ao ressurgir, ao terceiro dia, como Jonas, continuou repelido e rejeitado pelos homens do Templo, pelos guardas da Lei. Acolhido apenas por pecadores e prostitutas, guerrilheiros e velhos pescadores, os publicanos e a ralé desqualificada… Veio o ano 70 d.C. As legiões de Tito arrasaram Jerusalém. Num raio de...

O traje de festa… (Mt 22,1-14)

O traje de festa… (Mt 22,1-14) Todos são convidados para o grande banquete. O festim é grátis, é pura graça. O povo chama isto de “boca livre”. É o tipo de oportunidade que ninguém rejeita. Por isso mesmo, o grupo que cerca a grande mesa do festim não chega a ser “gente fina”, não é “vip”. Ao contrário, por ordem expressa do Rei, os “convivas” foram arrastados de todas as encruzilhadas do mundo, ainda cobertos da grossa poeira dos caminhos humanos. Nenhum deles foi convidado devido a algum mérito ou distinção especial. Afinal de contas, o que importa é que a mesa esteja bem cheia, entende o Dono da festa! Como entender, então, que um dos convidados acabe lançado fora, na escuridão da noite, por não trajar a veste apropriada? Não parece um contrassenso? André Louf tem sua explicação: “Nós temos chance de estar entre os eleitos, mesmo sendo pecador, com a condição de vestir, não um costume aqui de baixo, por mais belo que seja, mas a verdadeira, a única vestimenta das núpcias do Reino. Qual é, afinal, este traje nupcial? São Paulo no-lo diz: é a veste nova do homem novo, criado em Jesus Cristo. Ele é Jesus Cristo. Precisamos despojar-nos inteiramente do home velho e de suas pretensões, como uma roupa usada, e revestir, como uma roupa estalando de nova, o próprio Jesus Cristo, a humildade de sua cruz e a força de sua ressurreição. O rei só tolera entre os convivas – sejam eles bons ou maus, não importa – aqueles que apresentam os traços de seu Filho. Aqueles que aceitam ser eleitos e bem-amados...