Um copo d’água… (Mc 9,41-50)

28/02/2019 – Um copo d’água… (Mc 9,41-50) Definitivamente, o Reino de Deus não tem afinidade com os reinos dos homens. Entre nós, corremos atrás de coisas grandiosas. O ricaço é o primeiro a assinar no livro de ouro, para que sua doação polpuda salte aos olhos de todos. O artista quer ver seu nome em letras de neon. O político sonha com a estátua de bronze… E Jesus de Nazaré – ah! esse estranho Jesus! – vem nos falar de um copo d’água?! O que vale um copo de água neste oceano de vaidades? Ora, vale a intenção com que ele foi dado. Nas palavras do Mestre, “quem vos der um copo d’água para beber porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa”. (Mc 9,41) Uma rápida corrida de olhos pelo ensinamento de Jesus nos quatro Evangelhos logo deixará ver como o Mestre presta atenção em coisas pequenas: o lírio do campo, o fio de cabelo, o pequeno pardal, a moedinha perdida, uma única ovelhinha entre cem… O olhar de Jesus não se concentra em pirâmides e palácios grandiosos, mas se volta para a criancinha, a viúva pobre, o grão de trigo, os cachorrinhos. Para onde estamos olhando? O político salvador da pátria? O craque bola de ouro? O cantor da moda? Por que não enxergamos o mendigo no portão, cuja voz não passa do interfone? Por que economizamos sorrisos e abraços? Por que não notamos os necessitados? Até em relação aos santos, preferimos os “importantes”, aqueles que fizeram grandes milagres, entre êxtases e estigmas, reanimaram mortos e expulsaram demônios. Enquanto isso, uma santa “pequena”, que...

Em teu nome… (Mc 9,38-40)

27/02/2019 – Em teu nome… (Mc 9,38-40) O Nome de Jesus não tem dono. Ainda que a Igreja trabalhe em função desse Nome – e na Bíblia o “nome” se identifica com a “pessoa” -, a irradiação do amor derramado no Calvário atinge círculos concêntricos que vão muito além dos muros da Igreja. A Igreja é o Corpo de Cristo, mas não limita sua ação por todo o Cosmo. No Evangelho, alguns discípulos pretendem que sua ação pastoral – no caso, a libertação dos maus espíritos – seja exclusiva deles, chegando a proibir alguém “de fora” que preste aquele serviço “em nome de Jesus”. Naturalmente, sofrem a pronta repreensão do Mestre. Urs von Balthasar comenta que “é tolerável que um homem que não pertença à Igreja faça alguma coisa de salutar em nome de Jesus. Se ele adota esse nome, não se porá facilmente contra ele. A comunidade deve saber disso: não é somente nela que existe uma ação e um pensamento cristãos. Deus é bastante poderoso para fazer nascer certa disposição cristã – o copo d’água oferecido – mesmo fora da Igreja, e recompensar por isso o benfeitor”. Bem, corremos um risco, denunciado por Jean Valette ao comentar este Evangelho: “Uma Igreja farisaica está em vias de nascer! Bem se veem as tentações que ameaçam a Igreja quando ela ainda está em seus inícios: determinar as prerrogativas, traçar as fronteiras e, finalmente, sufocar o Espírito ao pretender que sua ação só poderia ser exercida pelos canais competentes”. Em contraste com o exclusivismo dos discípulos, ressalta a confiante humildade do Mestre, observa Valette: “Por certo o homem não se...

Seja o último! (Mc 9,30-37)

26/02/2019 – Seja o último! (Mc 9,30-37) Jesus acaba de anunciar – pela segunda vez! – a sua própria morte e, pelo caminho, os discípulos discutem entre si quem deles seria o maioral quando o Mestre instalasse o seu reino. Como é difícil acolher os valores do Evangelho quando estamos encharcados da mentalidade do mundo! Hoje como naquele tempo, podemos gastar nossas energias para vencer, crescer, destacar-nos, arrancar aplausos e elogios, obter promoção e aumento de salário, acumular dinheiro e poder. Em suma, podemos viver como pagãos. Ao contrário, quem perde é humilhado, alvo de zombaria e desprezo. Para os vencidos do sistema, sempre sobra mais rejeição do que misericórdia. Pois a lição de Jesus aponta para o polo oposto: seja o último! E para não ficar apenas em palavras, como os mestres deste mundo, Jesus vive o que ensinou: é rejeitado, perseguido, difamado, preso, condenado à morte. Depois de toda essa experiência, Jesus deve preferir os humildes. É o que ensina Isaac, o Sírio, monge do século IV: “Os olhos do Senhor contemplam os humildes para que eles se alegrem. Mas a face do Senhor se desvia dos orgulhosos para os humilhar. O humilde sempre recebe a compaixão de Deus. Mas a dureza de coração e a pouca fé surgem sempre antes de acontecimentos terríveis. Faz-te pequeno em tudo diante dos homens, e serás elevado mais alto que os príncipes deste século. Desce mais baixo do que tu mesmo, e verás a glória de Deus em ti; pois ali onde germina a humildade, ali se expande a glória de Deus. Se tens a humildade em teu coração, Deus...

Nunca mais… (Mc 9,14-29)

25/02/2019 – Nunca mais… (Mc 9,14-29) Neste Evangelho, o episódio comovente de um pai que sofre há muitos anos com a doença do filho: “o espírito já o lançou no fogo e na água” (um maníaco depressivo oscilando entre dois polos?). E não é coisa nova; segundo o pai, isto ocorre “desde criança”. Pior ainda: o pai esperava que os discípulos libertassem seu filho da escravidão humilhante, mas eles fracassaram. Seria o caso de desistir? Cabe outra pergunta: será que nós acabamos por nos acostumar com nossos males? Terminamos acomodados com nossas falhas? Decretamos nossa inação: “é assim que eu sou?” Afinal, já fizemos várias tentativas, mas a escravidão permanece… Pois no caso do maníaco deste Evangelho, a coisa pode mudar. Basta que Jesus atravesse o seu caminho e o mal que parecia crônico, definitivo, encontra sua remissão diante da ordem do Senhor: “Sai do menino e nunca mais entres nele!” Nunca mais! Sim, aquilo que fazia parte de um SEMPRE irremediável é arrancado pela raiz e dissipado no espaço livre de um NUNCA MAIS. Não se trata de um paliativo, mas da cura radical. Conheço, pessoalmente, muitos casos semelhantes: pessoas que se arrastavam há muitos anos, escravas de um vício, de uma doença física, de uma visão negativa da existência, mas se viram livres de seu mal. Sua cura pode ter ocorrido quando rezaram por elas num grupo de oração. Ou em um encontro de aconselhamento. Ou durante uma pregação. Ou após a comunhão eucarística. Até mesmo em um sonho revelador, onde caíram por terra barreiras que pareciam eternas… Lembro-me de um encontro de fim de semana, realizado...

Dá a quem te pede! (Lc 6,27-38)

24/02/2019 – Dá a quem te pede! (Lc 6,27-38) Na minha infância, corria entre nós um bordão muito repetido quando alguém pedia algo, como uma bolinha de gude ou um pedaço da fruta que o outro comia: “Dar dói, chorar sai sangue!” Só recentemente descobri que era a corruptela de um antigo provérbio de Portugal. Mas a frase soava como fria negativa diante do pedido feito. Pois bem, agora vem Jesus e ordena em tom imperativo: “Dá a quem te pede!” E ainda rebate o cravo: “Assim sereis filhos de Deus…” Será um preço caro demais pela filiação divina? Helmut Gollwitzer comenta esta ordem: “Dá a quem te pede! Esta exigência geral e sem condições põe em evidência as dimensões incalculáveis e inauditas desta nova liberdade. Mas ela só faz sentido para quem dispõe de uma riqueza inesgotável e, por este motivo, está a salvo de toda preocupação e de toda economia. O discípulo é a pessoa que, em qualquer ocasião, se despreocupa de seu bem e não reclama o que lhe devem. Ah! se nós pudéssemos ter esse homem como próximo!” Ora, o discípulo deve ser exatamente este próximo para as outras pessoas. Alguém permanentemente aberto à doação e à partilha, pois não se preocupa em acumular e fazer render. Sentindo-se alvo da fartura de Deus – aquele que faz chover sobre justos e injustos (cf. Mt 5,45) –, por que motivo deixaria de passar aos irmãos o que recebeu como Graça? Prossegue Gollwitzer: “Toda a diferença entre esta ética do Reino de Deus e todas as outras morais que não possuem como condição primeira a presença do...