Vocação: uma convocação de Deus a cada pessoa

Tradicionalmente, na Igreja Católica, agosto é conhecido como o mês das vocações. A Igreja no Brasil celebra e reflete sobre as vocações a cada semana: sacerdotais, religiosas, as vocações das famílias, dos leigos e catequistas. A Igreja nos ajuda a entender que vocação, em sentido mais preciso, é um chamamento, um convite especial de Deus. Uma convocação vinda diretamente sobre cada pessoa. O chamado tem como centro a pessoa de Jesus, é Ele que tem a iniciativa do chamado: “enquanto caminhava, Jesus viu Levi, o filho de Alfeu, sentado na coletoria de impostos, e disse para ele: Siga-me (cf. Mc 2,14). Portanto, a vocação nos diz que anterior a nós há um chamado, um apelo divino que vem de Jesus Cristo, a quem seguimos com total empenho, como afirma São Paulo na Carta aos Romanos: “Eu, Paulo, servo de Jesus Cristo, apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho de Deus.” (Rom 1, 1). Podemos entender a vocação como um diálogo; Deus chama e nós respondemos. Este diálogo pressupõe sintonia com o Senhor, é o amor divino que vem até nós em busca de uma generosa resposta de entrega e doação. Sendo assim, é bom que se perceba que nem a percepção do chamado, nem a resposta a ele, são tão fáceis e tão “naturais”. Exigem afinação ao divino e entrega de si mesmo; sem estes pressupostos, não há vocação verdadeira e real. Neste mesmo mês celebramos também a semana nacional da família. A vocação está intimamente ligada à família, torna-se quase impossível refletir sobre o chamado de Deus sem destacar o papel importante da família. “Esta pequena célula, conhecida...

O campo é o mundo… (Mt 13,36-43)

O campo é o mundo… (Mt 13,36-43) Pela forma como o próprio Jesus “traduz” sua parábola do joio e do trigo, podemos considerá-la uma alegoria, já que seus vários componentes possuem simbolismos individuados. Temos um semeador, Jesus. Temos a boa semente, os filhos do Reino de Deus. Temos o joio, os que pertencem ao maligno. Teremos, no fim dos tempos, os segadores da colheita: os anjos de Deus. Hoje, vamos centrar nossa reflexão no “campo” que recebe a dupla sementeira (bem e mal). Este campo é o mundo: um espaço-tempo onde decorre a história da humanidade. Ele nos é apresentado como terra a ser semeada até um desfecho, quando ocorrerá a separação entre joio e trigo. Os apressados querem fazer JÁ essa separação, sem levar em conta que as duas plantas, quando pequenas, são praticamente idênticas, e inevitavelmente o trigo seria arrancado com o joio. Cuidado, pois, com a atitude impaciente que cobra de Deus uma intervenção imediata, não sabendo conviver – por enquanto – com o joio entre nós. E, claro, dentro de nós também… Não forçamos a interpretação se dizemos que o Reino dos céus já tem seu germe no reino deste mundo. Tampouco se afirmamos que ele deve crescer, após ser semeado, no decorrer da história, até “amadurecer” o suficiente para a colheita final. Nesta visão, o provisório (a Criação temporal) já traz em segredo, ocultamente, as sementes da eternidade. E este mesmo mistério inclui a possibilidade de o trigo se corromper em joio, bem como de o joio ser transfigurado em trigo. O santo e o pecador vivem um dinamismo que permite a degradação e...

Como um grão de mostarda… (Mt 13,31-35)

Como um grão de mostarda… (Mt 13,31-35) Duvido que, algum dia, Herodes tenha-se ocupado com um mísero grão de mostarda! Duvido que o governador Pôncio Pilatos tenha dedicado alguns minutos a contemplar os lírios do campo que se espalhavam pelo semiárido… Os poderosos deste mundo não perdem seu tempo com essas ninharias… Mas o olhar de Jesus percebe o valor das coisas pequenas, ele pressente o seu mistério, lê seu sentido profundo. Mesmo que sejam pardais nos arvoredos, mulheres do povo amassando pão, pescadores lançando a tarrafa! É das coisas mais simples e triviais que o Mestre extrai o ensinamento de sua doutrina. Foi assim com a aproximação que Jesus fez entre um grão de mostarda e o Reino dos céus. Eis o comentário de Lev Gillet: “Nós atenuamos esta parábola, nós a enfraquecemos, nós a esvaziamos de seu ‘maximalismo’ quando pensamos no grão de mostarda simplesmente como uma pequena planta capaz de considerável crescimento. E a reduzimos a uma banalidade, uma platitude, se a mensagem que dela extraímos é alguma coisa como: ‘aquilo que é grande, primeiro foi pequeno’”. – “Mestre – prossegue o comentarista -, tu não disseste que a mostarda é uma plantinha que se torna grande. Tu disseste que ela se torna maior que as hortaliças, que ela se torna uma árvore. ‘Uma árvore’, isto é, uma estrutura que, na concepção e na linguagem comuns (senão na estrita verdade botânica) é completamente diferente de uma planta. E não somente ‘uma árvore’, mas uma árvore tal, que ‘os pássaros do céu vêm habitar em seus ramos’ (Mt 13,32).” “Tu empregaste um superlativo. E aí está, Senhor,...

Onde compraremos pão? (Jo 6,1-15)

Onde compraremos pão? (Jo 6,1-15) Evidentemente, esta pergunta de Jesus ao apóstolo Filipe não passa de uma provocação. Pão no deserto? Pão para cinco mil homens famintos, sem recensear mulheres e crianças? Pão em uma Palestina onde não havia padarias, pois o pão era fabricado de modo caseiro, no pequeno forno familiar no fundo do quintal? Mas a pergunta provocativa ajuda a lembrar outro deserto, outra multidão, outro líder seguido no êxodo do mesmo Israel. Ao deixar o Egito da escravidão e ver-se sem alimento no areal infértil (cf. Ex 16), o povo escolhido teve consciência de sua incapacidade para matar a própria fome. É quando o Senhor faz cair o maná, um provisório “pão do céu” que não resultava do suor humano, da terra trabalhada, mas era puro dom, pura graça. Desde os primeiros tempos, os Padres da Igreja viram na multiplicação dos pães a sinalização da Eucaristia. Um “pão do céu” que seria o alimento e a fonte de energia para uma comunidade de discípulos a caminho da Terra Prometida. Sim, o Senhor aceita trabalhar a partir de nosso próprio trabalho: os cinco pães de cevada (isto é, de baixa qualidade) que um garoto (um daqueles imprestáveis que a gente nem se preocupa em contar!) trazia na matula. E a partir dessa (miserável) contribuição, Deus entra em ação e faz maravilhas impensáveis. Não podemos fazer vista grossa para a identidade de gestos e palavras que Jesus adota na multiplicação dos pães e na celebração da Última Ceia: tomar os pães… dar graças [no texto grego, eucharistésas]… distribuir aos convivas… Trata-se do mesmo ritual com que os evangelhos...

Enquanto todos dormiam… (Mt 13,24-30)

Enquanto todos dormiam… (Mt 13,24-30) Já refletimos juntos sobre esta mesma passagem: o trigo bom e o joio mau crescendo juntos até a colheita, convivendo lado a lado até o dia do Grande Juízo, a colheita da humanidade. E o mistério da paciência de Deus, que parece estender o nosso tempo de conversão… Hoje, porém, vamos focalizar outro ângulo. Quando foi que o “inimigo” semeou a cizânia sobre a semente do trigo já semeada? Quando todos dormiam… Satisfeitos com o trabalho da semeadura, cheios de esperança de boa brotação, foram todos celebrar, dormindo o despreocupado sono dos justos. Foi na calada da noite que o adversário se infiltrou. Não havia guardas nem sentinelas. Os cães não ladraram. Quando o dia raiou, o mal estava feito… Faz pensar em nossa sociedade? Faz pensar em nossas famílias? No mínimo, faz lembrar a advertência de Jesus? “Vigiai e orai, porque não sabeis o dia nem a hora!” (Mc 13,35.) Quem viu a profunda mudança da sociedade brasileira na segunda metade do Séc. XX sabe que todos nós cochilamos. Diante do processo de industrialização, o êxodo rural, a chegada da TV, as mudanças do pós-Vaticano II, nós não fomos vigilantes como deveríamos ter sido. Distraídos, tivemos nossas raízes culturais abaladas, os laços familiares rompidos, nossa própria fé desfigurada. Os pais rezavam o terço em família, os filhos deixaram de ir à missa, os netos se perguntam que diferença faz casar-se na Igreja ou simplesmente se “juntar”… Isto, em menos de 50 anos! Nós fomos envolvidos por outras vozes. Duvidamos dos valores que havíamos herdado de nossos maiores, pois pareciam meio “quadrados” diante do...