Escutai-o! (Mc 9,2-13)

23/02/2019 – Escutai-o! (Mc 9,2-13) A verdadeira religião é uma escuta. Por isso mesmo, na Primeira Aliança, quando o Senhor entrega sua Lei a Israel, tem o cuidado de anteceder as Dez Palavras por um imperativo fundamental: “Escuta, Israel!” Shemá, Israel! Ao longo de todo o Antigo Testamento, o Senhor é um Deus-que-fala. Que se espera do povo? Um coração ouvinte (cf. 1Rs 3,9). Como o Verbo-Palavra ainda não se manifestara na carne dos mortais para um diálogo direto com os homens, o Senhor fala ao povo por intermediários: Moisés e Elias, a Lei e os profetas. Na caminhada de Israel, o pecado que lhe apontado é o pecado da surdez, como um povo incapaz de acolher e praticar a palavra que lhe era dada, a ponto de Isaías gritar o lamento de Deus: “O boi entende seu proprietário, o burro conhece o cocho de seu dono, só Israel não tem conhecimento, só o meu povo não entende!” (Is 1,3) Ora, neste Evangelho, são exatamente Moisés e Elias que aparecem no alto do Tabor em diálogo com Jesus. A presença das duas figuras da Primeira Aliança surge para avalizar o ensinamento de Jesus diante de Pedro, Tiago e João, isto é, diante da Igreja nascente. Deixando de lado os aspectos sensacionais – a luz divina que envolve a montanha, o corpo transfigurado de Jesus, a própria aparição de personagens do passado -, o núcleo deste episódio é a voz que sai da nuvem, a voz única do Pai que ordena, em tom solene: “Escutai-o!” Será que podemos ouvir o Filho amado sem dúvidas, sem medo, sem inquietações? Quem nos...

Simão Pedro respondeu… (Mt 16,13-19)

22/02/2019 – Simão Pedro respondeu… (Mt 16,13-19) Quase sempre, nós lemos este Evangelho com o foco fixado no conteúdo da resposta de Pedro: “Tu és o Cristo…” Com isso, naturalmente, deixamos de lado outro aspecto de grande importância: o fato de que Pedro… respondeu! Sim, Simão Pedro é o apóstolo que responde. Jesus Cristo tem a pergunta, Pedro tem a resposta, inspirada diretamente pelo Pai (cf. Mt 16,17). Concretamente, Pedro é a Igreja que entra em diálogo com Cristo e, Àquele que se apresenta como EU-SOU, retruca prontamente e sem vacilar: TU ÉS. Eis o comentário do beneditino François Trévedy: “Ao tomar do Espírito a iniciativa de ser o primeiro a responder, Pedro assume – na medida em que ele a recebe – a responsabilidade da Igreja. Pedro toma a Igreja por esposa: o ato de nascimento é também um contrato de casamento. Pedro toma a Igreja como esposa para conduzi-la a seu Senhor. Não há cristologia fora da boca de Pedro. Só existe cristologia exata e pertinente na boca da Igreja; mais ainda, na medida em que a Igreja é inteiramente uma resposta, não existe cristologia senão a própria Igreja”. “Tu és Pedro.” “Jesus e Pedro – EU-SOU e seu Povo – só se sustentam mutuamente na existência pela mútua conversação que trocam entre si. Pedro só tem estatura e estatuto na medida em que ele confessa. A Igreja só tem existência enquanto ‘conversante’ e ‘confessante’: a Igreja só existe e se mantém de pé enquanto Confissão de fé, em palavras e em atos. A Igreja está em Pedro, começa em Pedro como aquela que confessa, igualmente como...

O Filho do Deus vivo… (Mc 8,27-33)

21/02/2019 – O Filho do Deus vivo… (Mc 8,27-33) No âmago de toda religião, permanece uma espécie de saudade de um tempo em que não havia barreiras entre as criaturas e o Criador: – como conhecer a Deus? Neste Evangelho, Jesus faz a pergunta àqueles homens tão próximos, que se acotovelavam com ele e comiam do mesmo pão: “Quem dizeis que eu sou?” Vamos ler a lição de São Cirilo de Jerusalém: “Nosso Senhor Jesus Cristo se fez homem, mas era desconhecido da maioria das pessoas. Querendo ensinar a verdade desconhecida, ele reúne seus discípulos e lhes diz: ‘Quem dizem que sou eu, o Filho do Homem?’ Ele não procurava por vanglória, mas queria revelar a verdade para que eles, companheiros de Deus, não tomassem a ele, Filho único de Deus, por algum homem comum.” Era desculpável, diz São Cirilo, que “os outros” o confundissem com os antigos profetas. Mas os apóstolos, que em nome de Jesus limpavam leprosos, expulsavam demônios e ressuscitavam mortos, não podiam ignorar a verdade. “E como todos guardassem silêncio, pois aquela ciência ultrapassava o homem, Pedro, o chefe da Igreja, arauto principal da Igreja, não recorreu a uma palavra que ele achasse em si mesmo: seguindo uma inspiração que não vinha do homem, mas do Pai que iluminava sua inteligência, respondeu: ‘Tu és o Cristo’. E ainda: “O Filho de Deus vivo”. Esta revelação provém do Pai.” Um pescador sem teologias e filosofias lançava-se muito além de seus limites humanos. “Quando ouves afirmar que ele é Filho, não o entendes apenas em sentido amplo: ele é o Filho gerado desde toda a eternidade por...

Levou-o para fora da aldeia… (Mc 8,22-26)

20/02/2019 – Levou-o para fora da aldeia… (Mc 8,22-26) Não foi um gesto isolado de Jesus. Mais de uma vez, como quando ressuscitou a filha de Jairo (cf. Mc 5,40), Jesus afasta da multidão incrédula – e até mesmo zombeteira! – aquela pessoa a quem irá curar em seguida. É como se a falta de fé da maioria dos presentes impedisse a ação de Jesus (cf. Mc 6,5-6). A multidão é o espaço da incredulidade. Ali, em geral, o burburinho da turba e os gritos de seus adversários deixam Jesus surpreso com o extremo grau de fechamento à Palavra de Deus, com a radical falta de fé. Ao contrário, é na intimidade que Jesus faz revelações a Nicodemos. É no recesso do lar que ele cura a sogra de Pedro. Foi no interior da casa que a mulher Cananeia conseguiu a libertação de sua filha. E os dez leprosos não foram curados espetacularmente, diante de Jesus, mas enquanto caminhavam para Jerusalém. Já diante da corte de Herodes, Jesus se recusa a dizer uma única palavra (cf. Lc 23,8-9). Nas ocasiões em que Jesus chegaria a manifestar seu poder diante de um grupo maior, sempre enfrentou problemas com as pessoas ali presentes. Foi assim nas reuniões da sinagoga (Mc 3,1ss, quando decidem matar Jesus), ou à beira da estrada (Lc 18,35ss, quando fazem de tudo para calar o cego). Decididamente, as multidões não ajudam muito os servidores de Deus! Além do mais, é imprevisível o humor da multidão. No Domingo de Ramos, quando Jesus Cristo entrou em Jerusalém, a turba entoava hinos de louvor e clamava “hosanas ao Filho de...

Não tinham pães… (Mc 8,14-21)

19/02/2019 – Não tinham pães… (Mc 8,14-21) Pobres discípulos! Jesus os adverte contra o fermento – o ensinamento frio e legalista – dos fariseus e eles se sentem recriminados por não terem trazido nenhum pão para a travessia. Ora, Jesus acabara de multiplicar sete pães de modo a alimentar a multidão de quatro mil pessoas. Diante deste sinal, não deveria ser exatamente o pão a última de suas preocupações? Nós somos assim: julgamo-nos importantes e responsáveis quando gastamos nosso tempo com problemas concretos, quando a única solução nos vem de graça. Ou melhor, da Graça. A todo tempo Deus derrama sobre nós tesouros de seu amor, mas nós rejeitamos a lição da pequena Teresa de Lisieux e nos recusamos a viver como filhos. Somos gente séria! Há muito a fazer e resolver… O biblista Hébert Roux comenta com lucidez: “Jesus manifesta seu espanto e sua dor ao constatar que, na realidade, sua própria Igreja, aqueles que ele escolheu e chamou do meio desta geração maldosa, estão prontos a se alimentar do mesmo pão que fariseus e saduceus. A incredulidade, negadora da graça, aparece aqui sob a forma de esquecimento. Eles se esqueceram dos pães; mas acima de tudo esqueceram o sentido do Evangelho e de seus sinais. Eles não chegam a compreender que somente é necessária e suficiente a fé na palavra do Senhor, e que eles já têm ‘tudo’ plenamente nele (cf. Cl 2,10)”. Qual é o fermento sobre o qual Jesus os põe de sobreaviso? “É tudo aquilo que corrompe a simplicidade da fé – observa Roux -, acrescentando-se a ela: sabedorias ou filosofias do mundo, a...