As obras de Deus… (Jo 6,22-29)

No versículo 27, os discípulos ouvem um imperativo da boca do Mestre: “Trabalhai!” Um verbo rico de ressonâncias: ação, dinamismo, mãos operantes, mas também cansaço, sofrimento, esforço, disciplina, mãos calejadas… Esse imperativo gera a pergunta dos ouvintes: “Como operar as obras de Deus?” Uma das perguntas mais importantes de todo o Evangelho, pois estende uma ponte entre uma fé abstrata e uma fé operativa, entre emoção e ação.

Nesta passagem, Jesus vem arrancar as máscaras da ambiguidade de seus seguidores. “Por que motivo você me seguem? Porque comeram o pão multiplicado? Ou porque identificaram o Messias prometido?” Estamos correndo atrás de quem? De um padeiro barateiro ou de um Salvador exigente?

Como observa Claude Rault, “para Jesus, já não se trata de dar mais pão, mas de pôr a multidão a trabalhar em um trabalho que dá o verdadeiro alimento: o trabalho da fé”. Aliás, Jesus não para de trabalhar: “Meu Pai trabalha sempre, e eu também trabalho”. (Jo 5,17) Aquele Deus Criador que trabalha permanentemente na Criação é o mesmo que trabalha sem cessar em nossos corações. O artesão do universo é o artífice de nossa existência…

Assim, não basta “aceitar o Senhor e Salvador”, bordão de certas denominações cristãs. Preciso associar-me à “obra de Deus”. E a primeira maneira de fazê-lo consiste em crer na vida e me comprometer pessoalmente no terreno da vida. Invertendo as expectativas mais comuns, Etty Hillesum escreveu: “Se Deus para de me ajudar, cabe a mim ajudar a Deus”.

Volto à lição de Dom Claude Rault: “Deus se recusa a fazer as coisas sozinho. Ele contrata operários, precisa de ajuda para sua criação, a começar por aquilo de mais precioso na natureza: a pessoa humana”. Esta frase, aparentemente banal, denuncia com explosiva violência o sentido dado à economia do capitalismo, cujo alvo principal não é o bem do homem, mas o lucro. Qual o objetivo maior da indústria bélica? Defender a vida? Qual o alvo principal das multinacionais dos fármacos? Não é o lucro? Qual a motivação central dos governantes? Não é manter-se no poder?

Isto explica a falta de hospitais e centros de saúde. Explica o abandono da classe do magistério. Explica a visão dos investimentos em educação como “gastos” indesejáveis. Explica a importância dada aos orçamentos militares.

Mas não podemos nos restringir a acusar e criticar. Muita gente já aderiu ao projeto de Deus na defesa da Vida! Estão multiplicando os pães e os peixes. Comprometem todo o seu ser para salvar o planeta do desastre que se aproxima. E Deus trabalha com eles…

Orai sem cessar: “Uma geração conta à outra as tuas obras!” (Sl 145,4)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.