Meus primeiros contatos com Francisco

Como fui tomando consciência da existência do Cardeal Jorge Mario Bergoglio, que se tornaria em 2013 o papa Francisco? A primeira vez que ouvi falar do seu nome foi em abril de 2005. Naquela época eu era mestre de noviços em Pirassununga, interior de S. Paulo, e fazia acompanhamento espiritual em Itaici com o jesuíta Pe. Quevedinho.

No final do nosso acompanhamento espiritual começamos a conversar sobre o conclave que se preparava para eleger o sucessor do papa João Paulo II, que havia falecido no dia 2 de abril.

Depois de um longo pontificado (1978 a 2005) lhe perguntava quem poderia ser o sucessor daquele papa que teve o terceiro mais longo pontificado da história. Pe. Quevedinho me dizia que entre os nomes se falava de um confrade amigo seu que era cardeal em Buenos Aires, mas ao mesmo tempo declarava que ele não aguentaria a estrutura de Vaticano, pois seu amigo era um pastor.

Nem guardei o nome do cardeal, mas voltei para casa com a sensação de desconforto por reconhecer que uma estrutura que foi criada para ajudar poderia matar um pastor. No dia 19 daquele mesmo mês era eleito o papa Bento XVI.

Volto novamente a ouvir falar do cardeal Bergoglio em 2007, quando foi eleito presidente da Comissão de Redação da Conferência de Aparecida. Também ocupou lugar de destaque no Sínodo de 2012, que teve como tema: A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã.

Por fim, no dia 13/03/2013 foi eleito papa, assumindo o nome de Francisco, diante da provocação do cardeal brasileiro Dom Claudio Hummes: “não se esqueça dos pobres”.  Depois vou encontrá-lo presidindo a missa de encerramento da Jornada Mundial da Juventude de 2013, em Copacabana, no dia 28 de julho.

No dia 12 de fevereiro de 2014 Francisco me nomeará bispo de Caicó.  No dia 18 de setembro, em Roma,  ele nos falará no encerramento do encontro dos bispos nomeados no período do segundo semestre de 2013 ao primeiro semestre de 2014. São palavras que aquecem o nosso coração.

O jornal L’Osservatore Romano intitulará o seu discurso: “O anel e o povo”, aproveitando como imagem o momento que eu saudava o papa aparecendo a minha mão com o anel. Num trecho do seu discurso dirá: pelo “anel na vossa mão direita, que às vezes aperta demasiado ou outras vezes corre o risco de cair”, mas que, contudo tem “a força de ligar a vossa vida a Cristo e à sua esposa”, ou seja, à Igreja.

O Cardeal Bergoglio antes da eleição no conclave

O Cardeal Jaime Ortega divulgou um discurso que o Cardeal Bergoglio fez durante as congregações gerais que preparavam o conclave de 2013, sem saber que seria eleito papa. Num manuscrito que antes do conclave dará ao Cardeal Ortega dirá:

“A doce e confortadora alegria de evangelizar” (Paulo VI)

É o próprio Jesus Cristo que, desde dentro, nos impulsiona.

1. Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe na Igreja a parresia de sair de si mesma. A Igreja está chamada a sair de si mesma e ir às periferias, não só às geográficas, mas também às periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e prescindência religiosa, do pensamento, de toda miséria.

2. Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, torna-se autorreferencial e então adoece (cf. A mulher encurvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, se dão nas instituições eclesiais têm raiz de autorreferencialidade, um tipo de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que está à porta para entrar… Mas penso nas vezes em que Jesus bate desde dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial quer Jesus dentro de si e não o deixa sair.

3. A Igreja, quando é autorreferencial, sem se dar conta, crê que tem luz própria; deixa de ser o “mysterium lunae” e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (segundo De Lubac, o pior mal que pode acontecer à Igreja). Esse viver para se dar glória uns aos outros. Simplificando. Há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si, a Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans, ou a Igreja mundana que vive em si, de si, para si. Isso deve iluminar as possíveis mudanças e reformas que tenha de fazer para a salvação das almas.

4. Pensando no próximo Papa: um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração a Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da “doce e confortadora alegria de evangelizar”.

Vemos que nesses cinco anos de pontificado Francisco tem sido fiel à inspiração que teve antes mesmo da abertura do Conclave. Lembremo-nos de alguns documentos produzidos durante o seu pontificado que confirmam essa postura:

a) Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho): Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (24/11/2013)

b) Misericordiae Vultus (o rosto da misericórdia); Bula de proclamação do jubileu extraordinário da Misericórdia (11/04/2015)

c) Laudato Si (Louvado sejas): sobre o cuidado com a casa comum (24/05/2015)

d) Mitis Iudex Dominus Iesus (O Senhor Jesus, manso juiz) sobre a reforma do Processo Canônico para as causas de declaração de nulidade de matrimônio no Código de Direito Canônico (15/08/2015)

e) Amoris Laetitia (A Alegria do Amor): Exortação Apostólica Pós-sinodal sobre o amorna família (19/03/2016)

f) Como uma mãe amorosa, sobre o cuidado vigilante à proteção de crianças e adultos vulneráveis (4/6/2016).

g) Misericordia et misera (misericórdia e a mísera); No encerramento do Jubileu extraordinário da Misericórdia (20/11/2016).

h) Gaudete et exultate (Alegrai-vos e exultai): Exortação Apostólica sobre o chamado à santidade no mundo atual (19/03/2018)

i) Carta ao Povo de Deus (20/08/2018) – sobre o abuso sexual de menores por clérigos e consagrados.

Francisco e a espiritualidade inaciana

Sendo o papa Francisco um jesuíta sua vida é inspirada pela espiritualidade inaciana. No final da segunda semana dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio o exercitante é chamado a fazer uma eleição, escolhendo entre as duas bandeiras: a de Cristo ou a do Maligno. Uma vez escolhida a Bandeira de Cristo, deverá a pessoa procurar se configurar ao Senhor, considerando os três graus de humildade.

O primeiro grau de humildade, necessário para a salvação eterna, “consiste em me abater e me humilhar o mais possível para obedecer em tudo à lei de Deus, nosso Senhor”.

O segundo grau de humildade, mais perfeito do que o primeiro, “consiste num grau de indiferença tal da minha vontade, que não quero nem me inclino mais às riquezas do que à pobreza, às honras do que `desonra, a desejar uma vida longa do que uma vida breve, supondo que tudo isto seja de igual glória para Deus nosso Senhor e de igual vantagem para a salvação da minha alma”.

O terceiro grau de humildade é o mais perfeito, e incluiu os dois primeiros: “sendo igual o louvor e glória da divina Majestade, para imitar e parecer-me mais atualmente com Cristo nosso Senhor, eu quero e escolho mais pobreza com Cristo pobre que riqueza, injúrias com Cristo cheio delas que honras; e desejo mais ser estimado por ignorante e louco por Cristo, que primeiro foi tratado assim, do que por sábio ou prudente neste mundo”.

Diante de tantas oposições, calúnias, difamações e fake news me pergunto onde este homem encontra tanta resistência para enfrentar com serenidade essas tribulações. Acredito que sua força vem da eleição que fez por Cristo, identificando-se com o Senhor no terceiro grau de humildade, consciente de que foi escolhido pela Misericórdia Divina como nos lembra o seu lema episcopal e pontifical: “Com misericórdia, o elegeu” (MISERANDO ATQUE ELIGENDO). Com esse espírito de santa indiferença enfrenta as adversidades para a maior glória de Deus, para que em tudo Deus possa ser amado e servido, dando tudo ao Senhor, bastando-lhe somente o Amor e Graça de Deus, com as quais já será bastante rico.

Com Pedro e sob Pedro

Cristo edifica a sua Igreja por meio do Espírito Santo sobre a fé professada por Pedro (Mt 16,18), nós professamos a fé na Trindade Santa em união com o papa e sujeitos à sua autoridade. Para nós católicos o papa é o Vigário de Cristo, Sucessor de Pedro, o Bispo de Roma.

Em algumas monarquias quando morria um rei, no mesmo momento que se anunciava a morte de um rei já se anunciava quem era o novo rei com a seguinte expressão: “O rei está morto. Longa vida ao rei!”.

A Igreja não se rege pelo princípio  da monarquia, mas pelo princípio da koinonia, ou seja, da comunhão. O bispo de Roma preside as demais Igrejas na Caridade como tão bem nos lembrou o papa Francisco no dia de sua eleição pontifical. Parafraseando a aclamação monárquica poderíamos dizer: Cristo está vivo! A Igreja vive! Pedro é Francisco! Longa vida ao papa!

Neste momento de tantas polarizações e intolerâncias renovo minha comunhão com o papa Francisco e rezo pela nossa Igreja fazendo minhas as palavras do seu confrade Dom Luciano Mendes de Almeida: “Senhor Jesus, não vos pedimos que nos livreis das provações, mas que concedais a força do vosso Espírito para superá-las em bem da Igreja.

A certeza do vosso amor nos renova a cada dia. A alegria de servir aos irmãos é nossa melhor recompensa. Ensinai-nos, a exemplo de nossa Mãe, a repetir sempre sim no cumprimento da vontade do Pai. Amém!”

+Antonio Carlos Cruz Santos, msc
Bispo de Caicó/RN