Ao anoitecer… (Jo 6,16-21)

Enquanto Jesus está em oração sobre a montanha, a noite cai e o mar se agita. Na barca, os discípulos lutam contra os elementos. É quando Jesus se aproxima, caminhando sobre as águas encapeladas. O medo toma conta de todos eles.

Não é novidade o medo de Deus. Aliás, os antropólogos costumam identificar o medo como raiz das religiões primitivas, medo que deu origem a rituais, exorcismos e sacrifícios cruentos. Mesmo no Antigo Testamento, manifesta-se este “terror” que vai além do sadio “temor”. Moisés o testemunha: “O Senhor vos falou face a face na montanha, no meio do fogo. Eu estava, então, de pé entre o Senhor e vós, para vos transmitir suas palavras, pois tínheis medo do fogo e não subistes a montanha”. (Dt 5,4-5)

O verdadeiro conhecimento de Deus induz a uma relação de amizade, de filiação, de confiança. O conhecimento imperfeito desvia-se em superstição ou em racionalismos. Neste Evangelho, os discípulos se apavoram ao ver Jesus sobre as águas. O texto paralelo (Mt 14,26) chegar a dizer que eles pensavam ver um fantasma.

Para Jean Valette, “existe, seguramente, um elemento de ignorância e de superstição neste medo que nos faz confundir Deus com o indeterminado, o fantasmagórico e todas as possibilidades ameaçadoras e imprevisíveis que nos parecem agitar-se nos espaços do desconhecido e do futuro. Sem dúvida, porém, é preciso ver mais fundo. Este temor é também a justa apreciação do mistério e da santidade de Deus. O temor que nos advém da ação divina é aquele dos caminhos abertos para uma liberdade que desperta em nós a vertigem da diversidade dos possíveis e a necessidade de assumir o risco da obediência e das escolhas ligadas à fé”.

Nada mais verdadeiro! Muita gente tem medo de Deus por antever um chamado, uma missão que iria abalar seu comodismo, sua “situação”, impelindo-os a um voo tão alto, a um mergulho tão profundo, capaz de causar essa vertigem que os santos experimentaram em sua existência.

Jean Valette ainda chama a atenção para um detalhe desta cena: era de noite… “Esta é uma cena noturna. É de noite que os pastores ficam sabendo que lhes nasceu um Salvador. É de noite que a semente germina e cresce. É de noite que o Senhor reza e vêm ao homem as revelações divinas. Enfim, é de noite que o Senhor dá a Ceia e o esposo vem. Ela é o sinal do mistério. A noite também é filha de Deus.”

Orai sem cessar: “No amor não há medo.” (1Jo 4,18)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.